Bloomberg Línea — De um lado, a China impõe medidas de salvaguarda sobre importações e amplia as incertezas sobre o ciclo pecuário. Do outro, o Brasil assume a liderança da produção e das exportações de carne bovina justamente em um momento de maior aperto da oferta global.
É nesse contexto que pecuaristas brasileiros vêm ajustando a estratégia de diversificação em 2026. O resultado tem sido uma maior demanda pela carne do país, em grande parte mais competitiva em preço do que outros exportadores.
Em 2025, o preço do boi gordo atingiu pico médio de R$ 314,2 por arroba, uma alta de 22,5% em relação à média de 2024, segundo dados do Cepea.
O indicador, porém, permaneceu abaixo do pico histórico registrado em 2022, quando a média anual chegou a R$ 352,05 por arroba.
Leia também: Cota chinesa para carne do Brasil vai reorganizar fluxos de produção, diz analista
Para Guilherme Jank, analista da Datagro, o setor entra agora em uma fase decisiva do ciclo pecuário, após anos de liquidação de rebanho e ganhos de produtividade da cadeia.
“Não temos as margens de 2022, mas ainda temos patamares confortáveis. O que sabemos, porém, é que isso não é sustentável”, disse o analista em entrevista à Bloomberg Línea.
Jank explicou que o ciclo deve passar por uma inflexão gradual entre 2026 e 2027, diante da maior escassez de gado jovem para reposição, o que passa a limitar a oferta de animais prontos para abate.
Esse movimento, porém, tende a ser mais “amortecido” do que em ciclos anteriores, em parte porque a pecuária brasileira opera hoje em um novo patamar, com maior uso de tecnologia e ganhos de eficiência produtiva, disse Jank.
Comércio Brasil-China
Outro desafio para o setor é a demanda chinesa.
Segundo Jank, o mercado chinês tem dado sinais de menor aceleração na demanda.
Ainda assim, metade da carne bovina importada pela China vem do Brasil, assim como cerca de metade do que o Brasil exporta tem o país asiático como destino.
Leia também: ‘Pior parte do ciclo pecuário’ e ausência chinesa: o primeiro balanço da nova MBRF
Isso significa que a margem de manobra chinesa para restringir compras sem gerar pressão inflacionária é limitada, sobretudo em um cenário global de déficit de oferta - assim como acontece com os Estados Unidos.
Jank disse que uma das estratégias em discussão envolve o rateio da cota de salvaguarda ao longo do ano, com distribuição mensal dos volumes entre os principais fornecedores.
A medida evitaria corridas pontuais para preenchimento de cotas e diluiria o impacto ao longo do ano, tanto para o Brasil quanto para o mercado chinês.
Impacto das tarifas
Embora as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos contra o Brasil tenham chegado ao fim para a maior parte das commodities agrícolas do país em novembro do ano passado - café e cacau seguem com tarifas de 10% -, os pecuaristas ainda sentem, em menor grau, os impactos das medidas.
“Já passamos por crises sanitárias, embargos temporários e mudanças regulatórias importantes. A diferença é que hoje temos uma indústria muito mais diversificada”, afirmou a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), em nota.
Leia também: China restringe importação de carne bovina. O Brasil é um dos países mais afetados
Para o analista da Datagro, a imposição das tarifas de 50% contra a carne brasileira, em vigor entre agosto e novembro de 2025, ocorreu em um momento particularmente sensível para o mercado americano, já marcado por dificuldades de oferta.
“Era muito difícil sustentar esse ‘tarifaço’ por muito tempo, porque é um padrão de comércio particularmente relevante para os americanos”, explicou.
Segundo Jank, a carne exportada pelo Brasil aos Estados Unidos cumpre um papel específico na cadeia americana, concentrada nos chamados beef trimmings, tipos de cortes magros usados na produção de carne moída.
“Metade do que um americano consome per capita de carne bovina é moído”, acrescentou.
Com a entrada em vigor das tarifas no ano passado, porém, a média mensal dos embarques brasileiros aos EUA caiu de cerca de 29.000 toneladas entre janeiro e julho para aproximadamente 11.000 toneladas entre agosto e novembro.
No acumulado do ano, as exportações somaram cerca de 270 mil toneladas, bem abaixo da expectativa do setor, que era de 400 mil toneladas, segundo dados da Abiec.
De acordo com cálculos da entidade, o Brasil deixou de vender cerca de 60.000 toneladas aos Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente US$ 300 milhões.
Analistas que falaram à Bloomberg Línea estimam, no entanto, que o impacto econômico potencial foi maior, chegando a algo próximo de US$ 800 milhões, dado o volume que poderia ter sido embarcado antes das tarifas.
Apesar do fechamento parcial do mercado americano, o Brasil adotou a estratégia de redirecionar sua produção para outros destinos, como Ásia, Europa, Chile e Rússia.
Essa mudança ocorreu, porém, com compressão de margens, já que esses mercados tendem a pagar menos pela proteína brasileira do que os Estados Unidos.
Do lado americano, o impacto mais imediato foi sentido pelo consumidor. As tarifas elevaram o custo da carne importada do Brasil em um momento em que o rebanho dos Estados Unidos já está no menor patamar dos últimos 80 anos.
Leia também: Como a pecuária brasileira busca novos destinos de exportação além da China
A retirada da tarifa de 50% dos EUA contra o Brasil, anunciada no fim de 2025, devolveu - por ora - previsibilidade ao comércio bilateral.
Segundo a Abiec, os volumes começaram a reagir rapidamente: em dezembro, as exportações já alcançaram cerca de 30.000 toneladas e, no início deste ano de 2026, os embarques operam próximos de 50.000 toneladas, em dado que combina a cota isenta com volumes sujeitos à tarifa regular de 26,4%.
A expectativa da entidade é exportar cerca de 400 mil toneladas aos Estados Unidos neste ano, um aumento estimado em 47%.
A retomada do mercado americano tende a fortalecer a demanda por cortes da região dianteira do boi, pouco consumidos no Brasil, sem gerar pressão sobre os preços internos.
A produção de carne do Brasil é em sua maior parte, destinada ao mercado doméstico.
Para Wagner Yanaguizawa, analista do Rabobank, a redução da tarifa abre espaço para um novo ciclo de crescimento.
“A redução da tarifa pode abrir novas oportunidades para a carne bovina do Brasil, pois se considerarmos as 29.000 toneladas de média mensal e extrapolar para esse ano, o volume total pode chegar a 348 mil toneladas”, apontou o analista.
Leia também
Redução de oferta de gado no Brasil sinaliza nova pressão sobre preço de carne no mundo