Bloomberg Línea — O Brasil tem um dos maiores rebanhos de gado do mundo, só atrás da Índia e à frente da China. O país terminou o ano de 2024 com 238,2 milhões de cabeças, de acordo com os dados mais recentes do IBGE .
Engenheiro de telecomunicações, o mineiro Rodrigo Abreu, conhecido como Kalu, nunca tinha dado atenção a esses números.
O executivo fez carreira em multinacionais de telecomunicações como Huawei, Lucent e Alcatel. E criou sua primeira empresa em 2008, a Network On, focada em equipamentos para telecomunicações.
Depois fundou a UP2Tech em 2014, para atuar com a distribuição e venda de produtos como smartphones, notebooks, aparelhos de som da JBL e consoles como PlayStation e Nintendo, negócio que faturou mais de R$ 1 bilhão no ano passado.
Então, em uma conversa despretensiosa de fim de semana, um amigo fazendeiro lhe fez a provocação: por que ele não fazia um brinco eletrônico que ajudasse a monitorar o gado?
A conversa ocorreu há mais três anos. O empresário gostou da ideia e começou a trabalhar no projeto do que viria a se tornar o iBoi, depois de fazer 13 viagens à China para desenvolver o produto com parceiros locais.
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Os primeiros brincos foram vendidos recentemente. Trata-se da quarta versão do iBoi, que usa tecnologia Qualcomm, inclui GPS, contador de passos, medidor de temperatura, bateria recarregável e eSIM multioperadora.
“Nós estamos com uma fazenda com 5.000 bois e fechamos um contrato com uma fazenda em Mato Grosso do Sul de 100.000 bois”, diz o empresário.
O modelo de negócio é baseado em Hardware as a Service, com mensalidades de R$ 2,00 por boi, em contratos de cinco anos. Cada unidade tem custo de produção de R$ 120.
As informações captadas pelo equipamento ficam disponíveis em uma plataforma desenvolvida pela própria empresa, onde são exibidos indicadores e são enviados alertas.
Além do monitoramento básico para acompanhar a movimentação do gado, a tecnologia procura lidar com outras dores do setor, como doenças respiratórias. ”Nós conseguimos ver se o boi está com temperatura acima de 40 graus, e indicar se ele pode estar com pneumonia", diz o executivo.
Um estudo de 2021, com o título “Doença respiratória em bovinos confinados”, publicado na Revista Brasileira de Buiatria, indicou que a pneumonia afeta mais de 7% do gado confinado e leva à morte de 0,67% dos animais.
A tecnologia também funciona como uma garantia fiduciária dos fazendeiros em negociação com instituições financeiras.
“Depois daquele escândalo do Boi Gordo, nunca mais o boi foi usado para garantia financeira. Ou seja, o banco dá o dinheiro, mas pede uma terra no fazendeiro como colateral”, afirma. “Com o brinco, as instituições terão informação sobre os bois 24 horas por 7 por 365 dias.”
Segundo o executivo, a empresa trabalha em um projeto com o banco Safra para uso dos dados como colateral.
Nos próximos 30 meses, a expectativa é de contar com mais de 1 milhão de bois usando os brincos, número que garantiria R$ 120 milhões em faturamento anual.
“Queremos ganhar menos dinheiro com brinco, e fazer com que o fazendeiro implemente mais mecanismo IoT para a fazenda”, diz, antecipando novos projetos associados.
A introdução de câmeras que fazem os diagnósticos dos cochos, as áreas de alimentação dos animais é um dos próximos passos.
Nascido dentro da Up2Tech, a empresa de distribuição do empresário, o negócio está ganhando vida própria com o nome de IoTera para receber novos dispositivos.
O iPet, uma coleira para cachorros e gatos com GPS e monitoramento de saúde, está previsto para chegar em 2026. E o iPig, para acompanhamento de suínos, virá na sequência.
Para liderar a operação, o empreendedor contratou Felippe Antonelle, executivo com passagem por companhias como Jacto e Totvs e foi fundador da Solis, operadora de internet 4G privada com foco no agro.
Antonelle foi anunciado como vice-presidente executivo da UP2Tech e ficará à frente da nova empresa do grupo.
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