Bloomberg Línea — A Mantiqueira prevê alcançar a marca de 10 milhões de galinhas nos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2027, após avançar na repopulação e na reorganização das granjas adquiridas no país, segundo o fundador da companhia, Leandro Pinto.
O processo de repopulação está 60% concluído e deverá colocar a empresa entre as quatro ou cinco maiores produtoras de ovos do mundo, de acordo com o empresário.
“Quando a gente terminar a repopulação, vamos estar entre os top 4, top 5 do mundo. Isso já é um grande marco para a Mantiqueira”, disse Pinto em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea.
Atualmente, a Mantiqueira possui cerca de 6 milhões de galinhas nos Estados Unidos. A expansão ocorre após a aquisição, anunciada em novembro de 2025, da Hickman’s Egg Ranch, uma das maiores produtoras de ovos do país. A empresa tinha 10 milhões de galinhas, mas perdeu 95% desse total após um surto de gripe aviária.
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“Foi muito dolorido para quem vendeu, mas para nós foi uma baita oportunidade, porque tivemos tempo de começar a fazer as coisas certas como têm que ser feitas”, disse o executivo.
A maior parte da operação da Mantiqueira segue concentrada no Brasil, onde a meta é atingir 20 milhões de galinhas até o final do ano — atualmente, a empresa tem 17 milhões.
Nos EUA, a empresa produz 1,3 bilhão de ovos por ano. No Brasil, são 4 bilhões.
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A internacionalização já estava nos planos da Mantiqueira, segundo o fundador. Com a sociedade com a JBS (JBS), anunciada em janeiro de 2025, a empresa conseguiu acelerar a estratégia e tirar projetos do papel.
A estratégia está alinhada à atuação diversificada da JBS em diferentes regiões geográficas e tipos de proteína, o que reduz a exposição da companhia a cenários adversos em mercados específicos.
Desde a aquisição da Hickman’s, a Mantiqueira tem reorganizado as estruturas produtivas antes de ampliar a capacidade. Segundo Pinto, o objetivo é crescer de forma ordenada e orgânica.
A operação nos Estados Unidos também possui um perfil diferente em relação à brasileira: cerca de 65% da produção da Mantiqueira no Brasil já é cage-free (galinhas livres), ante aproximadamente 40% do mercado americano, segundo Pinto.
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Segundo ele, a companhia acertou em 1º de junho a compra dos 50% restantes da Colorado Eggs. A Hickman’s, operação americana adquirida pela Mantiqueira USA, já detinha a outra metade da granja. Com a transação, a Hickman’s passou a controlar integralmente o ativo.
O valor da operação, segundo o executivo, foi de US$ 2 milhões.
Além do crescimento orgânico, a Mantiqueira continuará aberta a aquisições, postura já característica da JBS no mercado.
“Toda vez que o mercado estiver mais barato para comprar do que para fazer, nós somos compradores. Toda vez que estiver mais caro para comprar do que para fazer, nós somos fazedores”, afirmou Pinto.
A entrada nos Estados Unidos também permite à Mantiqueira ampliar sua exposição a uma moeda forte e reduzir os riscos de uma estratégia baseada exclusivamente em exportações, sujeita a restrições comerciais e a mudanças nas condições dos mercados internacionais.
Segundo o fundador, a presença global da JBS e sua estrutura de apoio em áreas como finanças, recursos humanos, jurídico, suprimentos e pesquisa e desenvolvimento ampliaram a capacidade da Mantiqueira de executar projetos que já estavam no radar, mas que levariam mais tempo para sair do papel.
“É o que eu falo: éramos uma companhia de um tamanho. Com a entrada da JBS, ficamos uma companhia de outro tamanho”, disse.
No Brasil, a empresa também investe na ampliação de uma operação no Paraná, onde pretende mais do que dobrar a capacidade produtiva, de 1,2 milhão para 2,5 milhões de aves, até o primeiro trimestre de 2027.
Confira a primeira parte da entrevista de Leandro Pinto à Bloomberg Línea, editada para fins de clareza e compreensão:
Fazendo um balanço dessa sociedade com a JBS, depois desse período de integração, o que deu mais certo e o que ainda não atingiu o potencial esperado?
Leandro Pinto: O balanço, para mim, é superpositivo. Na verdade, estamos falando de um ano e dois meses de sociedade efetiva. Mas a relação entre as empresas, o conhecimento mútuo, já existe há mais de 20 anos.
O período de adaptação não precisou ser muito longo porque nós já conhecíamos o jeito simples e rápido com que a JBS conduz as coisas.
Essa parceria veio em um momento estratégico. A empresa precisava crescer e tirar do papel várias iniciativas que já estavam planejadas, mas existia uma limitação de capital. Em um país com juros reais de 15% ao ano, não basta ter coragem, é preciso ter juízo.
Quais acessos a Mantiqueira passou a ter com a entrada da JBS?
A parceria com a JBS foi transformacional para a estrutura da empresa. Passamos a ter acesso a sinergias na compra de embalagens, vitaminas e equipamentos, além de acesso ao mercado financeiro, um balanço superestruturado, com baixa alavancagem e mais capacidade para investir.
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Hoje temos várias frentes de expansão acontecendo. Esperamos encerrar o ano com algo entre 19,5 milhões e 20 milhões de galinhas no Brasil. A chuva atrapalhou um pouco o primeiro trimestre, mas seguimos confiantes nessa meta. Nos Estados Unidos, devemos chegar a 10 milhões de galinhas no primeiro trimestre de 2027.
Quando você olha para o balanço da empresa de um ano e meio atrás e compara com o atual, é outra realidade. Houve injeção de capital, alongamento de dívida e uma análise de agência de rating sobre nossa capacidade financeira, nossa posição de caixa e nossa baixa alavancagem.
Além disso, houve um ganho importante nas trocas estratégicas. As conversas sempre existiram, mas agora elas são mais profundas: o que vamos fazer, para onde vamos e como vamos.
Essa união facilitou muito a vida da Mantiqueira. Nós trazemos nossa expertise em produção de ovos, nossa capacidade de execução e nossa visão de crescimento. Ao mesmo tempo, passamos a contar com uma retaguarda robusta em áreas como pesquisa e desenvolvimento, finanças, recursos humanos e jurídico.
Você consegue fazer mais em menos tempo, então?
Sim, embora o negócio represente pouco perto do tamanho da JBS em faturamento global, é impressionante a atenção que eles dedicam à operação. Eles acompanham os detalhes, a estratégia, o crescimento, as reuniões, as visitas.
Qual foi exatamente o racional por trás da entrada nos Estados Unidos?
O racional foi ter um balanço em moeda forte. Nós éramos exportadores e sabemos como o exportador fica exposto às mudanças do mercado. A União Europeia pode impor restrições, a China pode mudar regras. Você está sempre sujeito a movimentos externos.
Entramos nos Estados Unidos porque é a maior economia do mundo e um dos maiores consumidores de ovos.
Queríamos construir um balanço em dólar e reduzir nossa dependência da exportação. Quando você está presente no mercado local, consegue atender a demanda de forma muito mais organizada e estruturada.
Qual é a perspectiva para a operação americana? A ideia é ampliar o peso dos Estados Unidos dentro do negócio?
Não, o Brasil vai continuar [representando a maior parte dos negócios].
Nós tínhamos uma operação no Colorado em sociedade. Em 1º de junho compramos a participação do sócio para acelerar a expansão orgânica da operação.
Nossa lógica é simples: quando é mais barato comprar do que construir, compramos. Quando é mais barato construir do que comprar, construímos. O que precisamos é de produção. Não precisamos criar mercado. O mercado já existe. Nós já estamos posicionados nele.
Qual é o peso dos Estados Unidos e do Brasil no negócio da Mantiqueira?
Hoje, o Brasil representa cerca de 70% do negócio e os Estados Unidos, aproximadamente 30%. O preço nos EUA deu uma sentida recentemente.
Mas a estratégia é continuar crescendo dos dois lados. Nossa expansão orgânica no Brasil já é sustentada pelo crescimento dos clientes que atendemos atualmente.
E, nesse cenário, onde entram as exportações? Há mercados mais distantes nos quais é mais fácil estar presente localmente para conseguir acessá-los?
Exatamente. Temos planos e começamos pelos Estados Unidos.
Nossa primeira internacionalização foi em um país estável, com moeda forte e balanço em dólar. A partir de agora, começamos a ver outros movimentos no mundo.
Como a JBS está presente em cinco continentes, isso facilita muito nosso plano e nossa ambição de crescimento. Não viemos para ficar entre os top 5 do mundo. Viemos para ser melhores naquilo que nos propomos a fazer, mirando sempre ser um dos grandes players da produção de ovos no mundo.
Quais continentes estão no radar?
Não há um continente específico. Recebemos sondagens todos os dias. As oportunidades que surgem no mercado, sabendo dessa parceria com a JBS, chegam até nós.
Temos que avaliar se estão alinhadas à nossa estratégia e ao que acreditamos. Não vamos comprar nada para fazer volume e faturamento. Vamos comprar para fazer bem feito e ganhar dinheiro.
E como funciona o dia a dia dessa operação? Vocês têm um grupo de WhatsApp com todo mundo do conselho?
É tudo muito fácil. Temos um grupo de WhatsApp com todo mundo do conselho. As decisões rápidas são tratadas por ali e, em menos de 30 minutos, costumam ser respondidas e resolvidas. É o tamanho de um navio com a agilidade de um jet ski.
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