Chocolate mais caro: o que tem impactado o cacau e por que os preços podem subir mais

Com uma escassez da commodity nos principais países produtores, preços do cacau já mais do que dobraram em um período de 12 meses até março

Fábrica de chocolate
Por Mumbi Gitau - Dayanne Sousa - Ilena Peng - Ekow Dontoh
20 de Abril, 2024 | 11:08 AM

Bloomberg — A indústria do chocolate está enfrentando uma escassez tão grande de cacau que atraiu um participante improvável: Pierre Andurand, um gestor de fundos hedge mais conhecido por suas apostas no petróleo.

No início de março, os preços já haviam mais do que dobrado em um período de apenas 12 meses. Naquele momento, muitos especuladores estavam desistindo e cortando suas apostas de alta. Foi então que Andurand viu uma oportunidade de operar comprado (aposta na alta).

Todos os sinais apontavam para um déficit massivo: o mundo havia comprado chocolate barato por décadas, as árvores estavam mais velhas e as pragas nas plantações se espalhavam nos países da África Ocidental, que representam cerca de metade do mercado.

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Um pouco de mau tempo foi o ponto de inflexão para a produção da Costa do Marfim e de Gana, e muitos traders agora temem que a produção desses produtores tenha entrado em um retrocesso de longo prazo.

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Os futuros subiram rapidamente cerca de 70% desde o início de março, atingindo um recorde nesta semana.

Para os fabricantes de chocolate do mundo, a crise chegou. As fábricas foram forçadas a fechar em diversos lugares, como Malásia, Alemanha e Estados Unidos. As empresas surpreendidas pela alta estão enroladas em processos judiciais.

E, agora, a falta de liquidez também significa que o próximo estágio do mercado provavelmente será repleto de flutuações nos preços que ameaçam as empresas em recuperação judicial.

“As cicatrizes dessa crise podem ser visíveis por muito tempo na volatilidade do cacau”, disse Tristan Fletcher, CEO da ChAI, uma plataforma que usa inteligência artificial para analisar os mercados de commodities.

“Os traders estão entrando e saindo de posições muito rapidamente, o que aumentará essa instabilidade. Isso significa que os mercados têm muito mais chances de oscilar violentamente.”

Os mercados de commodities são notoriamente voláteis, mas a velocidade e a gravidade da alta do cacau surpreenderam até mesmo os participantes experientes do mercado e provocaram o caos em toda a cadeia de suprimento global da safra, desde os agricultores da África Ocidental até os traders de commodities europeus e os fabricantes de doces dos EUA.

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Nesta semana, os futuros atingiram o recorde de US$ 10.760 a tonelada, um nível que antes seria impensável para a maioria dos traders e que é aproximadamente o dobro do pico anterior estabelecido na década de 1970.

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Antes dessa alta, o futuro em Nova York havia permanecido em grande parte abaixo de US$ 3.500 desde a década de 1980.

O Citigroup (C) prevê que os preços cheguem a US$ 12.500 nos próximos meses. Andurand previu que os futuros ultrapassarão US$ 20.000 este ano.

Posição arriscada

O forte ritmo dos aumentos expulsou muitos investidores que não querem ser pegos de surpresa. E, o que é mais importante, muitos não podem mais se dar ao luxo de negociar – o custo das chamadas de margem para respaldar a posição de uma empresa disparou.

A negociação de futuros de cacau atingiu níveis historicamente baixos, e uma medida da quantidade de contratos em aberto caiu para o nível mais baixo em 12 anos. O mercado agora está preso entre a escassez extrema de safras e uma liquidez extremamente baixa.

“É a falta de atividade – limitada apenas à cobertura de contratos físicos com vencimentos próximos – que causou o esgotamento de sua atividade normal de futuros, reduzindo a liquidez”, disse Pam Thornton, veterana de commodities da Nightingale Investment Management, mais conhecida por seu papel no antigo fundo hedge de cacau Armajaro Asset Management.

“Portanto, se você tiver que comprar futuros, poderá facilmente movimentar o mercado muito rapidamente.”

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Quando as empresas não conseguem pagar as chamadas de margem para sustentar seus hedges, elas são forçadas a comprar futuros de volta, elevando ainda mais os preços e expulsando ainda mais pessoas do mercado.

Esse movimento também foi recorrente nos últimos anos durante o colapso do níquel e quando os preços do gás natural na Europa saíram do controle após a invasão da Ucrânia pela Rússia, afetando consumidores, fabricantes, moedas e economias.

“Isso é o que mais me preocupa”, disse Jacques Torres, fundador e CEO da Jacques Torres Chocolate, de Nova York, uma fabricante de doces artesanais. “Se esse for o futuro, veremos muitas pessoas fecharem as portas.”

Queda na produção

Há previsão de queda de dois dígitos na produção de cacau na Costa do Marfim e em Gana, que respondem por cerca de 50% dos suprimentos globais. A escassez é tão grave que ambos os países estão renovando contratos para colheitas futuras.

A Organização Internacional do Cacau (ICCO) prevê que a produção ficará abaixo da demanda em 374.000 toneladas na temporada 2023-2024, o terceiro déficit consecutivo.

A fabricante de chocolates Barry Callebaut prevê um déficit de 500.000 toneladas, equivalente a cerca de um décimo do mercado global, e a empresa estima outro déficit no próximo ano.

“Não temos quase nada mais a oferecer pelo resto da temporada”, disse Nicholars Quartey, de 67 anos, que cultiva 5 hectares da safra na cidade de Suhum, cerca de 100 quilômetros ao norte de Acra, capital de Gana.

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A produção fica altamente concentrada na Costa do Marfim e em Gana, o que deixa o mercado muito vulnerável ao que acontece com as colheitas nesses países.

A produção na Nigéria e em Camarões está restrita a uma pequena faixa há muito tempo, e os rivais na Ásia registraram quedas. A falta de cacau é agora um alerta para o setor cafeeiro, que tem visto a produção se concentrar em apenas dois países: Brasil e Vietnã.

Incentivos à produção

A histórica escassez de cacau também revela outros problemas que têm atormentado a região.

Durante décadas, os agricultores da Costa do Marfim e de Gana foram mal pagos. Embora os preços futuros tenham aumentado em termos nominais, eles não acompanharam o ritmo da inflação.

Isso aconteceu mesmo 12 anos depois que a Costa do Marfim nacionalizou seu setor de cacau como forma de melhorar a subsistência dos agricultores – uma condição para receber o alívio da dívida do Fundo Monetário Internacional após a guerra civil de 2011.

Os preços oferecidos aos produtores são definidos pelos governos de ambos os países, que fixam as vendas com um ano de antecedência. Como resultado, os produtores estão recebendo muito menos do que os preços estabelecidos no mercado internacional e não podem reagir com agilidade às mudanças na oferta e na demanda.

“O que é preciso fazer é dar ao agricultor um sinal de que, na próxima safra, vale a pena investir em sua fazenda e investir muito mais do que ele tem feito nos últimos tempos”, disse Steve Wateridge, chefe de pesquisa da Tropical Research Services.

Leia também: Produção de cacau no Brasil renasce com mecanização e plantio no Cerrado

Recentemente, Gana e Costa do Marfim aumentaram alguns preços para os agricultores, mas ainda não se sabe se o aumento foi suficiente para incentivar mais oferta.

Poucos produtores têm acesso à irrigação ou a técnicas agrícolas modernas, o que os torna vulneráveis às condições climáticas. Eles também não tiveram dinheiro suficiente para investir em fertilizantes e outros produtos químicos para as culturas depois que os preços subiram nos últimos anos.

Enquanto isso, as plantas carecem de inovação. Como o cacau é uma cultura arbórea que pode durar 25 anos e não é plantada para cada colheita, como o milho ou a soja, há pouco incentivo para que empresas como a Syngenta invistam na produção de sementes melhores.

E em 2018, quando o mundo enfrentava um excedente, a Costa do Marfim interrompeu a distribuição de uma nova muda que ofereceria árvores mais resistentes e de maior rendimento.

“Conheço muitos agricultores que estão deixando o setor do cacau: eles estão abandonando suas fazendas e indo para plantações de borracha - outros estão indo para plantações de coco”, disse Issifu Issaka, que cultiva 5 hectares de cacau em Gana.

Ele também aponta para o aumento da mineração em pequena escala na área, conhecida localmente como galamsey, que está poluindo a água.

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Os consumidores ainda não viram o impacto total do aumento nos preços.

A controladora da Godiva, a Pladis Foods, sediada em Londres, ainda está finalizando o tabelamento de preços, mas espera que os aumentos percentuais em todo o mundo fiquem na média de “um dígito alto”, de acordo com o CEO Salman Amin.

Os produtores de lugares como Camarões, Nigéria, Equador e Brasil – onde os preços não são controlados pelos governos – estão tomando medidas para aumentar a produção.

“Com esse preço do cacau, a febre se instalou”, disse Laerte Moraes, diretor administrativo da unidade de ingredientes alimentícios da Cargill na América do Sul.

Ainda assim, as novas regulamentações de desmatamento na União Europeia – um grande consumidor – estão ampliando as dificuldades de expansão das fazendas.

Também não se sabe ao certo a quantidade de cacau que poderá chegar às costas europeias, colocando mais pressão sobre os estoques certificados, que já estão em declínio. São esses grãos que sustentam os futuros de referência negociados em Londres.

Levará algum tempo até que qualquer nova produção chegue ao mercado. Os cacaueiros podem levar de três a cinco anos para começar a produzir. Nesse momento, pode ser tarde demais para a recuperação de alguns fabricantes de doces.

“Muitos dos players menores – os do modelo bean to bar [modelo em que um fabricante controla a fabricação desde a aquisição de grãos até a criação do produto final], os chocolatiers – estão muito tensos”, disse Judy Ganes, presidente da J Ganes Consulting. “Esses players podem simplesmente desaparecer.”

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