Bloomberg — O alívio da crise global dos fertilizantes após a reabertura do Estreito de Ormuz é uma boa notícia para o Brasil, que se prepara para o plantio de uma nova safra.
Há, porém, um problema: o alívio chegou tarde demais para beneficiar de forma significativa a soja, principal produto de exportação do país, e só deve chegar a tempo de favorecer o milho, cultura mais voltada ao consumo interno.
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Grande comprador de fertilizantes, o Brasil depende de importações para atender cerca de 80% de sua demanda. Como grande parte dos produtores brasileiros colhe mais de uma safra por ciclo, o país também está entre os maiores consumidores mundiais de fertilizantes neste período do ano.
Isso faz do Brasil um estudo de caso de como o conflito no Oriente Médio afeta o abastecimento global de alimentos, com volatilidade persistente mesmo após o anúncio de um acordo entre EUA e Irã.
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O fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz tem impacto direto na oferta de ureia, importante fonte de nitrogênio utilizada na produção de milho. Os preços desse insumo já vinham recuando, e os custos menores chegaram a tempo de beneficiar a safra de inverno de milho no Brasil, já que os produtores ainda conseguem reforçar os estoques de fertilizantes antes do início do plantio, em janeiro.
Neste ano até maio, as importações brasileiras das principais fontes de nitrogênio caíram ao menor nível em seis anos, segundo dados da StoneX. Agora, a expectativa é de aceleração no ritmo dos embarques, ampliando a oferta a tempo do plantio do milho, cuja produção é destinada em grande parte à criação de frangos e às usinas de etanol no Brasil.
“Todo mundo estava convencido de que teria de reduzir o uso de fertilizantes, mas esse acordo (com o Irã) mudou a conversa”, disse o produtor rural Cayron Giacomelli, que cultiva soja e milho em Mato Grosso. Segundo ele, isso fará diferença para a safrinha de milho do próximo ano, embora o impacto sobre a soja deva ser menor.
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A soja, principal cultura de exportação do Brasil, começará a ser plantada em setembro. Além do prazo mais curto para a chegada das importações, a cultura depende fortemente de fosfato, um tipo de fertilizante cuja oferta deve permanecer mais restrita por mais tempo.
“Provavelmente veremos interrupções e atrasos nas entregas de fertilizantes para a safra de soja, além de redução no uso desses insumos”, disse Daniele Siqueira, analista da AgRural.
A recente paralisação de fábricas de fertilizantes da Mosaic no Brasil também aumenta as dificuldades. Isso ocorre em um momento em que o enxofre, usado na produção de fertilizantes fosfatados, ficou mais caro. Os preços do enxofre já estavam elevados devido ao aumento da demanda da mineração de metais, mas o conflito no Oriente Médio pressionou ainda mais as cotações. Quase metade do comércio mundial de enxofre está sujeita a interrupções no Estreito de Ormuz.
“Não sabemos com que rapidez o enxofre será escoado do Oriente Médio nem quais clientes terão prioridade”, disse Tomás Pernias, analista da StoneX. “Historicamente, o mercado de fertilizantes fosfatados apresenta maior rigidez de preços.”
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Em nota, a Mosaic informou que iniciou o processo de paralisação e desmobilização de seu complexo de Araxá. A empresa também paralisou as atividades de mineração relacionadas no Complexo de Patrocínio. “A empresa segue investindo em soluções que diferenciam o agricultor por meio do aumento de produtividade”, afirmou a Mosaic.
Embora ainda exista a possibilidade de o Brasil receber novas cargas ao longo do próximo mês, os custos podem permanecer elevados. O custo de frete ainda será um problema, já que a chegada de produtos fora da janela habitual de embarques enfrentaria menor disponibilidade de caminhões para transportar as cargas ao interior, disse Mony Belon, analista da Green Markets.
Com a fraqueza dos preços da soja e a situação financeira apertada dos produtores brasileiros, a volatilidade do mercado de fertilizantes aumenta a probabilidade de que eles mantenham os planos de reduzir a aplicação de insumos antes do plantio da soja.
“Os produtores não vão comprar com esses custos”, disse Lucas Beber, produtor rural e presidente da Aprosoja Mato Grosso. “Muitos estão falando em reduzir as aplicações, o que terá impacto nas próximas safras de soja.”
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