Bloomberg Línea — A quase três horas de viagem de Natal, capital do Rio Grande do Norte, em uma pequena propriedade em Cerro Corá, no Seridó potiguar, o algodão agroecológico voltou a dividir espaço com o milho, o feijão, a fava, o capim e a criação de gado graças a projetos que têm fomentado os elos da cadeia, da produção da pluma à indústria têxtil.
A área plantada por Mônica Alves, agricultora familiar da região, tem cerca de 1,3 hectare. O gado ainda é a principal atividade da família e responde por cerca de 60% do negócio, segundo a agricultora. Mas é o algodão que tem chamado a atenção nos últimos anos.
A cultura passou a representar uma nova fonte de renda em uma região onde tinha praticamente desaparecido depois do avanço do bicudo-do-algodoeiro, praga que atingiu lavouras entre os anos 1980 e 1990 e ainda hoje é uma das principais ameaças à atividade.
Apesar dos desafios, o preço da cultura tem gerado interesse dos agricultores da região: enquanto o quilo da pluma convencional é comercializado a cerca de R$ 3 durante a visita, o agroecológico chega a R$ 17, segundo a agricultora.
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O cultivo do algodão na região acompanha o período de chuvas. O plantio costuma ocorrer a partir de fevereiro, conta Alves, e a colheita começa no fim de maio. A Bloomberg Línea acompanhou a visita ao local durante o período de plantio, em março deste ano.
Para a agricultora, o clima é hoje, ao lado do bicudo-do-algodoeiro, uma das maiores dificuldades da produção. “A coisa que mais dificulta aqui é o inverno”, disse. “Ano passado, nós não tivemos inverno. A nossa dificuldade é essa: as chuvas mais distantes.”
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A propriedade da família de Mônica é uma das participantes do Agro Sertão, programa que começou a ser desenhado em 2021, em parceria com Embrapa, Sebrae-RN, prefeituras municipais, Emparn, Fundação Banco do Brasil e outras instituições locais, e conta com o apoio do Instituto Riachuelo.
Neste ciclo, o programa alcançou 181 agricultores em 16 municípios do interior do Rio Grande do Norte. Em 2026, são 107 hectares cultivados com algodão agroecológico.
Desde 2021, segundo a Riachuelo, a iniciativa já beneficiou 247 agricultores e agricultoras, regenerou 270 hectares da Caatinga e chegou a 17 municípios.
Em 2025, foram colhidas 36,9 toneladas de algodão agroecológico. Desde o início do projeto, a cadeia absorveu 169 toneladas desse algodão, segundo a companhia.
A iniciativa busca recuperar a cultura do algodão por um caminho diferente do modelo que marcou o passado da cotonicultura no Nordeste.
No caso do Agro-Sertão, a produção agroecológica é feita em áreas pequenas e divide espaço com culturas como milho, feijão, fava e, em alguns casos, gergelim.
Diferentemente do algodão convencional, o algodão agroecológico é cultivado sem agrotóxicos ou sementes transgênicas. O cultivo junto de alimentos é um sistema que busca preservar e enriquecer o solo.
O Brasil é o maior exportador global da pluma convencional, e o algodão está entre as culturas com maior uso de defensivos agrícolas por hectare no país.
Na propriedade de Alves, as sementes vêm do próprio algodão produzido pela família. “A semente é nossa”, disse a agricultora. “O Instituto compra a pluma e o caroço vem para a gente de volta. Com esse caroço, a gente dá aos animais e planta.”
Os desafios da cotonicultura
A volta do manejo do algodão não foi recebida de imediato com entusiasmo pelos produtores da região, lembra Renata Fonseca, gerente do Instituto Riachuelo. “Os produtores questionavam: e o bicudo? E quem vai comprar?”, conta ela.
O bicudo segue como uma das principais ameaças à cultura. Por isso, o projeto combina o uso de defensivos naturais, biofertilizantes, além do vazio sanitário.
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Depois da colheita, os agricultores arrancam as plantas, aproveitam parte do material como ração para os animais e passam cerca de 90 dias sem plantar algodão na área, para interromper o ciclo da praga.
O maior custo do algodão agroecológico, segundo Alves, está na colheita. A dificuldade está justamente em encontrar gente para trabalhar no momento certo.
O algodão exige atenção ao tempo certo da colheita. Se for cedo demais, ainda está úmido. Se passar do ponto, perde qualidade, conta a agricultora.
A garantia de compra passa pela fiação parceira do projeto, a TBM, que compra o algodão em pluma dos agricultores. A Riachuelo, por sua vez, compra o fio produzido a partir dessa pluma, segundo a companhia. A empresa afirma que garante 100% da compra do algodão agroecológico produzido no projeto por meio dessa cadeia. “A gente garante 100% [de compra]”, disse Fonseca.
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A agricultora Mônica Alves conta que recorreu a crédito rural para manter a propriedade. Ela diz que já fez financiamento pelo Banco do Nordeste para plantar palma, capim e investir em silagem, usada na alimentação do gado.
A intenção é aumentar a área de algodão em mais um hectare na propriedade no futuro. A propriedade pertence ao pai de Mônica, Luiz Rodrigues Sobrinho, e ela diz que tenta negociar aos poucos a expansão da cultura. “Eu espero que as coisas estejam melhor daqui a 10 anos, com mais algodão ecológico”, disse.
Desafio de escala
Apesar do avanço da cultura, o algodão agroecológico produzido no sertão potiguar ainda representa uma fração pequena da demanda da Riachuelo.
A companhia disse, em nota, que não tem uma meta de produtores para 2030. O foco, neste momento, é crescer com qualidade, melhorar a produtividade dos agricultores que já participam do programa e aumentar a resiliência climática das propriedades.
A Fábrica Guararapes, em Natal, produziu 37 milhões de peças em 2025 e responde por 33% do mix têxtil do Grupo Guararapes, segundo dados da companhia.
O algodão é a principal matéria-prima da unidade. Segundo Taciana Abreu, diretora de sustentabilidade da Riachuelo, 98% do algodão usado na fábrica tem algum tipo de certificação, principalmente ABR, sigla para Algodão Brasileiro Responsável, da Abrapa. Mas o algodão agroecológico ainda representa menos de 1% da operação.
“Escalar o algodão agroecológico é o desafio”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.
Para tentar alavancar o uso da pluma sustentável, a Riachuelo avalia usar misturas de algodão agroecológico com algodão certificado convencional, como composições de 80% ABR e 20% agroecológico.
A ideia é fazer com que a matéria-prima apareça em produtos mais recorrentes, e não apenas em coleções pontuais.
Na primeira coleção com algodão 100% agroecológico e tingimento de base natural, lançada em maio de 2025, a empresa precisou reunir três safras dos produtores brasileiros para chegar a cerca de 70 mil peças.
Outro desafio é fazer essa matéria-prima chegar ao consumidor final com um preço atrativo, mas que também garanta o pagamento justo à cadeia como um todo - sobretudo enquanto peças vendidas em lojas online chinesas podem custar uma fração da peça de origem rastreada com algodão ecológico.
“Esse é o maior desafio”, disse Taciana. “É um desafio de educação, um desafio de comunicação, é um desafio de consistência nessa mensagem.”
Costura e bordado
Além do programa focado no algodão, desde 2011 há o Pró-Sertão, desenvolvido pelo governo do Rio Grande do Norte, com foco em fomentar as oficinas de costura. A ideia é que essas oficinas funcionem de elo produtivo para atender a indústria têxtil, como acontece com a Riachuelo atualmente.
O programa reúne mais de 90 oficinas no interior do estado, segundo dados da companhia. Ao todo, são mais de 2.500 empregos formais em 28 municípios do Rio Grande do Norte.
A produtividade das oficinas giram em torno de 60 mil peças por dia e, no ano passado, a Riachuelo comprou cerca de R$ 100 milhões dessas oficinas.
Na Zaja Confecções, no município de Cerro Corá (RN), o negócio começou em 2007 e passou a atuar na parceria com o Pró-Sertão para a Guararapes em 2012.
A oficina tem mais de 130 trabalhadores, e a Riachuelo responde pela compra de cerca de 80% da produção. Além das peças para a varejista, a Zaja também desenvolve uma marca própria. Para este ano, a margem líquida da oficina está em 5,5%, conta
Para Eveline Oliveira, de 38 anos, e Jales Souza, de 28, que trabalham na oficina de costura, a atividade abriu uma alternativa de renda sem a necessidade de sair da região.
Ambos aprenderam a costurar na própria oficina e hoje atuam como pilotistas, responsáveis por desenvolver peças que depois seguem para produção.
A Riachuelo também mantém um projeto com um grupo de bordadeiras em Timbaúba dos Batistas, no Seridó potiguar. Em 2024, parte dessas artesãs participou da produção das jaquetas usadas pela delegação brasileira na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris.
A encomenda ajudou a dar visibilidade a um município que, por muito tempo, viu sua produção ser associada ao bordado de Caicó, cidade vizinha e polo regional.
O projeto para a produção das jaquetas envolveu cerca de 80 bordadeiras, 2.500 peças e injetou aproximadamente R$ 350 mil na economia local.
Segundo as artesãs, elas nunca tinham trabalhado em uma produção tão grande e tiveram de superar o desafio de fazer peças parecidas, mesmo em uma técnica em que dificilmente uma unidade sai exatamente igual à outra.
“O nosso desafio era tentar aproximar e aperfeiçoar cada vez mais”, disse uma das bordadeiras. “Foi um aprendizado muito grande.”
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