Bloomberg Opinion — Uma fileira compacta de panetones passa diante de mim em uma esteira. Quantos serão, 300? 400? Eles se movem rápido demais para que eu consiga contar, perfeitamente alinhados, avançando em direção a uma enorme área de descanso antes de seguir para a linha de embalagem.
Estou em Bonsucesso, nos arredores de São Paulo, coração industrial da América do Sul, visitando a Bauducco, maior produtora de panetones do mundo.
A fábrica perto do Aeroporto Internacional de Guarulhos opera a plena capacidade e produz cerca de 9 mil unidades por hora do emblemático pão doce italiano, parte dos 100 milhões de itens que a empresa fabrica anualmente em cinco instalações no Brasil. O panetone continua sendo o carro-chefe, mas a Bauducco também produz de biscoitos e wafers a pão de forma e torradas.
A empresa familiar de capital fechado, que recentemente inaugurou uma grande fábrica e centro de distribuição na Flórida para atender ao mercado dos EUA, tem planos ambiciosos de expansão. E a importante eleição presidencial brasileira no próximo mês não vai atrapalhá-los.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
“Para nós, independentemente de quem ganhar as eleições, seguiremos o nosso plano de crescimento”, disse Massimo Bauducco, descendente da família de imigrantes italianos que fundou a empresa em 1952. “Acreditamos no potencial do Brasil e continuaremos investindo.”
A Bauducco não está sozinha. Durante uma recente viagem de uma semana pelo Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, ouvi uma opinião semelhante de empresários de vários setores: executivos brasileiros podem se preocupar e reclamar da gastança do governo e dos impulsos intervencionistas, mas têm pouco tempo a perder com dramas políticos.
Apesar do roteiro digno de House of Cards que se desenrola diariamente em Brasília, a maior economia da América Latina continua crescendo, sustentada pelo vasto mercado interno, pela liderança em commodities importantes e pelo talento empresarial.
Basta considerar os notáveis casos de sucesso produzidos pelo capitalismo brasileiro nas últimas décadas, mesmo em meio a turbulências políticas. Empresas como a fabricante de aviões Embraer, a produtora de equipamentos industriais WEG e a gigante de celulose Suzano se transformaram em líderes globais.
Os bancos brasileiros estão entre os mais inovadores do mundo, e as empresas adotaram padrões mais sólidos de governança e compliance e sistemas digitais mais avançados, o que ajudou a construir um dos mercados de capitais mais profundos e sofisticados entre as economias emergentes.
É claro que o setor empresarial brasileiro está longe de ficar imune às estripulias de Brasília. A indisciplina política impõe limites reais às ambições de empresas de todos os portes. Enquanto multinacionais como Vale e Itaú Unibanco têm força financeira para continuar investindo e crescendo em meio às turbulências, as outras 25 milhões de empresas do país precisam que Brasília crie um ambiente mais favorável aos negócios.
Imagine a criatividade e a escala das empresas brasileiras com menos imposições estatais, sistemas tributário e trabalhista menos punitivos, juros mais baixos e maior segurança regulatória.
Leia também: Governo Lula apresenta orçamento de 2027 com meta fiscal questionada pelo mercado
Essa é a verdadeira oportunidade à espera do próximo presidente do Brasil. Quem vencer a eleição herdará uma economia limitada pela irresponsabilidade fiscal, pelo excesso de regulamentação e por um sistema tributário bizantino. O prêmio é reavivar o espírito empreendedor do Brasil por meio de um ajuste fiscal virtuoso que destrave investimentos, reduza a intervenção estatal e permita ao setor privado fazer o que sabe fazer melhor: elevar a produtividade.
Antes que você diga que estou sonhando, considere estes números: minha colega da Bloomberg Economics Adriana Dupita estima que o crescimento potencial do Brasil — a taxa de expansão que uma economia consegue sustentar quando opera a plena capacidade e com pleno emprego — ficará em média em 2,3% ao ano entre 2026 e 2035, mais que o dobro dos 1,1% da década anterior.
A projeção já pressupõe uma melhora fiscal cautelosa e algumas reformas estruturais que devem impulsionar uma recuperação da capacidade de investimento e fortalecer a produtividade. É um ponto de partida animador. Mas e se um choque de confiança melhorar as expectativas de forma muito mais acentuada? Uma agenda de reformas mais ousada poderia levar o otimismo empresarial e o crescimento muito além do cenário-base.
Leia também: Despesas obrigatórias são o maior desafio fiscal do próximo governo, diz head do ASA
Os juros são um bom exemplo. Independentemente da opinião sobre o ciclo de aperto do Banco Central, uma taxa básica nominal de 14% — quase 10% em termos reais — é insustentável para qualquer atividade produtiva no médio prazo. Não é coincidência que o Brasil atravesse uma onda de pedidos de recuperação judicial, inclusive vários casos de grande repercussão.
A dinâmica é perversa: o governo gasta demais, a trajetória da dívida piora, a inflação acelera, o Banco Central responde com uma política monetária excepcionalmente restritiva e... empresas sem acesso a capital ou sobrecarregadas por dívidas quebram.
O próximo presidente, em conjunto com o Congresso, terá a oportunidade de romper esse ciclo com cortes de gastos agressivos, mas críveis — o tipo de “austeridade expansionista” defendido pelo falecido economista Alberto Alesina.
Javier Milei, na Argentina, mostrou como um novo ciclo político pode transformar rapidamente as expectativas quando respaldado por convicção e apoio parlamentar. Uma mudança tão radical deveria levar os juros para um dígito mais rapidamente do que muitos imaginam no Brasil.
Igualmente importantes seriam medidas para conter a avalanche de ações trabalhistas, que custaram às empresas brasileiras o recorde de quase US$ 10 bilhões apenas no ano passado. Apesar da reforma trabalhista de 2017, o ativismo de alguns tribunais, inclusive do poderoso STF, elevou o número de processos que tramitam na Justiça do Trabalho brasileira.
Durante minha recente viagem, executivos também relataram histórias surpreendentes sobre como as empresas precisam navegar pela burocracia do país e por mudanças tributárias permanentes, mantendo um batalhão de contadores e advogados na folha de pagamento simplesmente para interpretar a legislação.
Ao longo dos anos, os polos empresariais e produtivos do Brasil se distanciaram cada vez mais do frenesi político de Brasília. É como se estivessem se transformando em dois países diferentes, falando línguas distintas — uma divisão que se percebe simplesmente ao fazer o voo de 90 minutos entre a capital e São Paulo. Está na hora de Brasília voltar a dar um pouco de atenção às empresas e aos empreendedores. São eles que podem transformar o Brasil na economia de primeira linha que merece ser.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
JP Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, economia e política na América Latina. Anteriormente, foi editor-executivo de economia e governo da Bloomberg News na região.
Veja mais em Bloomberg.com