Escassez de armamentos expõe fragilidade militar dos EUA em meio a novas guerras

Embora o país tenha as Forças Armadas mais poderosas do mundo, enfrentam uma grave crise de munição: os estoques de mísseis essenciais estão se esgotando e a capacidade industrial para reabastecer os estoques é insuficiente

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Bloomberg Opinion — “Proteger nosso país daqueles que querem nos prejudicar é a primeira e mais importante responsabilidade do governo.” Essa frase está no site da senadora democrata Amy Klobuchar, do estado de Minnesota.

Mas poderia ser de qualquer legislador ou de qualquer presidente, democrata ou republicano. Quase todos proclamam isso e, segundo seus próprios padrões, quase todos estão falhando — como vêm fazendo há anos, sem que se vislumbre um fim.

Os Estados Unidos ainda mantêm as forças armadas mais poderosas do mundo. Essas capacidades inigualáveis proporcionam dissuasão, influência global e prosperidade econômica. Há apenas um problema: o país está ficando sem munição. Em Washington, DC, o termo preferido é “escassez de munições”, uma situação que alguns analistas militares estão chamando de crise.

Em linguagem simples: os estoques de mísseis ofensivos e defensivos essenciais estão severamente esgotados e diminuindo, e nossa base industrial nacional é inadequada para a tarefa de reabastecimento rápido.

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Pior do que isso, democratas e republicanos no Congresso estão hesitando, como é costume dos legisladores quando são necessárias cooperação bipartidária e votações difíceis. O presidente Donald Trump, por sua vez, insiste — como esperado — que essa questão é uma ficção perpetuada por uma mídia “traidora”.

Esse desafio dificilmente é culpa apenas deste Congresso ou deste presidente. Mas ele existe de fato e compromete a prontidão militar, limitando as opções estratégicas dos Estados Unidos e restringindo — para usar a palavra favorita do secretário de Defesa Pete Hegseth — a letalidade.

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“Essa não é a maneira como um líder global como os Estados Unidos deve tratar as Forças Armadas que quw espera que sejam capazes de responder a crises em qualquer lugar e a qualquer momento e de lutar e vencer sem questionamentos”, disse a ex-controladora do Departamento de Defesa, Elaine McCusker. “As crises que enfrentamos agora são resultado de anos de decisões — ao longo de vários governos e legislaturas do Congresso.”

Para o exercício fiscal encerrado em 30 de setembro, o Pentágono recebeu cerca de US$ 1 trilhão. Não é pouca coisa, e sem dúvida alguns contribuintes poderiam estar interessados em saber para onde foi seu dinheiro se não para reabastecer os estoques de munições que estão se esgotando.

McCusker, que estudou e escreveu extensivamente sobre essa questão como pesquisadora sênior do American Enterprise Institute, um think tank conservador, explicou que aproximadamente 60% do orçamento das Forças Armadas é destinado prioritariamente a despesas “obrigatórias” relacionadas a operações, manutenção e pessoal: salários e benefícios como assistência médica; manutenção de bases militares, que estão em estado de degradação; bem como treinamento de tropas e exercícios de combate

Isso deixa cerca de 40% para a inovação e modernização de armas e (teoricamente) para reabastecer as reservas de equipamentos e munições. E, como fontes do setor de defesa me enfatizaram durante conversas nas últimas semanas, há ainda menos recursos disponíveis para essas prioridades cruciais, porque as Forças Armadas foram enviadas para batalhas para as quais nem Trump nem o Congresso haviam previsto verba no orçamento, incluindo ações contínuas no Caribe e uma guerra contra o Irã que já está em seu sétimo mês.

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Mas a origem do problema antecede em muito a guerra com o Irã — e até a invasão da Ucrânia pela Rússia. As sementes da atual escassez de munições foram plantadas na nossa vitória da Guerra Fria sobre a União Soviética, na década de 1990.

Washington tratou essa vitória como uma oportunidade para reduzir significativamente os gastos militares, forçando, essencialmente, a consolidação da indústria de defesa e das cadeias de suprimentos relacionadas. Nos anos seguintes, os governos da Casa Branca e os Congressos, sob ambos os partidos políticos, se recusaram a atualizar os estoques que estavam lentamente se tornando obsoletos. Para agravar o erro, o governo também permitiu que a capacidade de fabricação de munições se atrofiasse (sem falar na construção naval militar).

Portanto, mesmo que o Congresso e Trump abrissem as torneiras dos gastos amanhã, novos suprimentos de mísseis não sairiam das linhas de montagem por pelo menos dois anos, provavelmente por mais tempo ainda.

Há vários armamentos na lista de itens perigosamente deficientes, entre eles interceptores que abatem aeronaves inimigas e mísseis inimigos, além de mísseis de precisão de longo alcance usados pelo Exército e pela Marinha americanos em operações ofensivas. Então, qual é o empecilho? Política partidária, naturalmente, sem falar nas negociações ruins ou inexistentes por parte do governo Trump.

A Casa Branca praticamente ignora o Congresso. Trump não solicitou autorização para o uso da força no Irã e só posteriormente buscou legislação complementar para financiar um conflito que se recusa a chamar de guerra. Essa postura de indiferença tem frustrado os republicanos em geral, mas irritou especialmente os democratas e complicou desnecessariamente as dotações militares.

Sim, os republicanos são favoráveis aos pedidos do Pentágono para aumentar os gastos com defesa. Mas frequentemente discordam entre si sobre quanto dinheiro aprovar e como gastá-lo, uma consequência das maiorias precárias do partido na Câmara dos Deputados e no Senado dos EUA.

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Os democratas, por sua vez, são filosoficamente menos inclinados do que os republicanos a aprovar orçamentos militares de mais de um trilhão de dólares. E, como era de se esperar, não têm pressa em fazer isso nem em atender a qualquer pedido de Trump. Mas, ultimamente, os democratas têm se mostrado mais resistentes do que o habitual a aprovar qualquer quantia, para qualquer finalidade militar.

Eles temem que isso funcione como um projeto de lei de financiamento suplementar de fato para a guerra contra o Irã, que o Congresso nunca aprovou. Eles temem que os eleitores vejam tal legislação como equivalente a financiar um conflito que é impopular entre os eleitores em geral, e entre os liberais de base em particular, quando as eleições de meio de mandato estão se aproximando.

A ironia perigosa é que esse tipo de inércia incompetente do governo é, na verdade, a maneira mais certa de provocar outro tipo de guerra impopular — aquela que nos é imposta por um adversário arrogante, contra o qual não temos outra escolha a não ser lutar. A história está observando; os inimigos dos Estados Unidos também.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

David M. Drucker é colunista especializado em política e políticas públicas. Ele também é redator sênior do The Dispatch e autor do livro “In Trump’s Shadow: The Battle for 2024 and the Future of the GOP”.

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