Bloomberg — No verão mais recente da Europa, o clima provocou consternação e preocupação generalizadas. Semanas sem chuva, temperaturas recordes, safras perdidas, incêndios generalizados e milhares de mortes relacionadas ao calor foram difíceis de ignorar, tanto para o público quanto para investidores e políticos.
À medida que o El Niño se intensifica, tornando-se um dos mais fortes já registrados, os meteorologistas já estão de olho no próximo verão. Embora seja muito cedo para prever exatamente o que acontecerá, o Met Office do Reino Unido já afirma que 2027 provavelmente rivalizará com 2024 como o ano mais quente já registrado na Europa.
Mesmo que isso não venha a acontecer, as mudanças climáticas significam que as futuras ondas de calor serão mais longas, mais intensas e mais frequentes do que as que já quebraram recordes atualmente.
“As ondas de calor e os incêndios florestais têm sido evidências realmente diretas que as pessoas não podem mais ignorar diante de seus olhos”, diz Beatrice Mosello, pesquisadora sênior do think tank Chatham House.
“Não se trata apenas de um evento que está causando perturbações por um determinado período. Isso está tendo repercussões em muitos níveis diferentes da nossa economia e da nossa sociedade.”
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Essa preocupação se reflete nas pesquisas de opinião. Após uma onda de calor recorde na França, uma pesquisa da Ipsos realizada em julho constatou um aumento de 12 pontos na preocupação com o meio ambiente.
Pesquisas na Áustria e no Reino Unido seguiram a mesma tendência, que pesquisadores da empresa austríaca de pesquisa de mercado INTEGRAL atribuíram às experiências diretas das pessoas com o calor e à sensação de que o país estava mal preparado.
E há alguns sinais de que os governos estão dando mais atenção às mudanças climáticas em suas políticas. Na Alemanha, o ministro do Meio Ambiente está pressionando por uma mudança na Constituição e pelo aumento da responsabilidade do governo central pela adaptação climática, depois que os governos locais afirmaram não ter recursos para gerenciá-la de forma eficaz.
Na Espanha, autoridades anunciaram mais recursos para abrigos climáticos, onde as pessoas podem se refugiar do calor, e para a instalação de ar-condicionado nas escolas. No Reino Unido, o secretário da Saúde afirmou que o Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) precisa se preparar para um aumento na demanda no verão, da mesma forma que atualmente se planeja para o inverno.
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Mas, na maioria dos casos, mudanças tangíveis levarão mais tempo. Os hospitais da Europa são um exemplo. Muitos estão localizados em prédios antigos em áreas urbanas densamente povoadas e não possuem ar-condicionado abrangente, o que os deixa particularmente vulneráveis ao superaquecimento. No Reino Unido, enfermeiras desmaiaram no trabalho e a equipe médica alertou que as condições são inseguras.
“Estou otimista de que veremos a adaptação às ondas de calor se tornar uma prioridade maior no NHS”, afirma Chris Naylor, pesquisador sênior em políticas de saúde do King’s Fund, uma organização sem fins lucrativos dedicada à pesquisa. “Quanto a isso acontecer a tempo para o verão de 2027, não estou tão confiante.”
Algumas cirurgias foram adiadas durante o verão devido ao calor. Isso chamou a atenção dos profissionais do serviço de saúde, acrescentou ele, já que os prestadores de serviços estão sob pressão para esvaziar uma lista de espera significativa. Mesmo assim, os gestores de hospitais e outras unidades de saúde têm muitas outras demandas que ocupam seu tempo e orçamentos.
O NHS afirmou em um comunicado de agosto que implementou “uma série de medidas para tornar as condições mais confortáveis para os funcionários”. Essas medidas incluem a instalação de aparelhos de ar-condicionado portáteis e a adaptação dos uniformes, informou o serviço de saúde.
A instalação de ar-condicionado e o melhor isolamento em centenas de hospitais podem não ocorrer no curto prazo, diz Naylor, mas medidas como vidros com controle solar, revestimentos reflexivos nos telhados dos prédios e melhor ventilação à noite ajudariam e são mais rápidas de implementar.
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O que deve prejudicar os esforços de adaptação em vários setores são os orçamentos nacionais apertados e as muitas demandas que disputam a atenção dos governos europeus, incluindo as guerras no Irã e na Ucrânia, as relações tensas com os Estados Unidos e os eleitores frustrados com a inflação e a instabilidade política.
A forma de lidar com o calor também é motivo de controvérsia. Políticos populistas de direita têm usado o ar-condicionado como uma questão política polêmica, acusando os formuladores de políticas de priorizarem as metas de emissões líquidas zero em detrimento do conforto dos cidadãos, em alguns casos negando, contra o consenso científico, que os seres humanos estejam causando as mudanças climáticas.
A adaptação também pode trazer novos desafios. O clima do verão provocou uma corrida para instalar aparelhos de ar-condicionado na Europa, o que significa que muito mais pessoas terão acesso ao resfriamento. Mas isso cria uma nova vulnerabilidade: as redes elétricas europeias agora precisam lidar com picos de demanda no verão. Durante o verão, a rede elétrica do Reino Unido emitiu vários alertas sobre um desequilíbrio entre oferta e demanda.
Esta não seria a primeira crise a ser aclamada como um alerta para o mundo, mas que, no fim das contas, produz poucas mudanças concretas.
Mas também poderia ser aquela que faz a diferença, afirma Emma Howard Boyd, presidente da Comissão Nacional Independente de Riscos de Calor do Reino Unido, dada a persistência do calor deste ano e seus efeitos, incluindo incêndios, interrupções no comércio, cortes de energia e água e espaços públicos visivelmente ressecados por semanas sem chuva.
Na quinta-feira (3), a Comissão afirmou que o Reino Unido demorou a se adaptar ao calor e solicitou evidências que ajudem a explicar por que não houve mais avanços.
“A consciência de que as coisas só vão ficar mais quentes precisa ser realmente internalizada em todos os níveis do governo”, diz ela. “Ainda cabe a todos nós”, à medida que o verão chega ao fim e as temperaturas caem, “não esquecermos disso, para que estejamos mais bem preparados no ano que vem.”
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