Bloomberg — A resiliência da economia global nas próximas décadas dependerá da geopolítica, da evolução das cadeias de suprimentos, da tecnologia — e da demografia.
Ao contrário de algumas interpretações alarmistas, a queda das taxas de natalidade não significa necessariamente um crescimento econômico permanentemente menor. Tampouco precisa levar a uma deterioração inevitável dos padrões de vida ou ao fim da inovação. Alguns acadêmicos de destaque têm apresentado uma visão surpreendentemente mais otimista.
As taxas de fecundidade vêm caindo de forma acentuada em muitos países. O recuo é particularmente marcante na Ásia, onde as economias mais dinâmicas tentaram — e, em grande parte, fracassaram — estimular famílias maiores.
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Japão e Singapura registraram recentemente níveis recordes de baixa fecundidade. Em Taiwan, o número de nascimentos despenca, enquanto a população da China sofreu sua maior queda anual desde a grande fome de 1960.
Todos esses países adotaram uma série de incentivos para tornar a parentalidade mais atraente e aliviar o impacto financeiro da chegada dos filhos sobre o orçamento das famílias.
Nenhum, porém, conseguiu avanços significativos. Barreiras culturais também pesam: as mulheres precisam ter a garantia de que poderão colher os benefícios financeiros de construir uma carreira e criar filhos, e de que contarão com o apoio dos homens.
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Mas entrar em pânico é contraproducente. Um contraponto bem-vindo às narrativas mais pessimistas vem de um grupo de quatro acadêmicos, entre eles o vencedor do Nobel Daron Acemoglu, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e David Autor, conhecido por seu trabalho de uma década atrás que documentou o esvaziamento de regiões industriais dos Estados Unidos após a disparada das importações da China.
Longe de representar um prenúncio de colapso econômico, o estudo concluiu que a produção por trabalhador aumentou entre 1970 e 2020. “Nossas conclusões desafiam o pessimismo predominante: as menores taxas de natalidade, e o envelhecimento e a redução populacional delas decorrentes, elevaram — e não reduziram — o PIB por trabalhador ao longo dessas décadas.”
A redução da força de trabalho pode, na verdade, fazer parte da explicação desse sucesso. No modelo apresentado pelos autores, a escassez de mão de obra acelera a adoção de tecnologias que economizam trabalho, o que pode aumentar tanto o PIB por empregado quanto, em alguns casos, o PIB total.
Entre os países analisados, uma queda de um ponto percentual na taxa de natalidade está associada a um aumento de cerca de 27% na produção por trabalhador.
O investimento em tecnologia é essencial. Isso é uma boa notícia para potências exportadoras como a Coreia do Sul, cuja taxa de fecundidade está entre as mais baixas do mundo. As tecnologias voltadas à economia de mão de obra deverão representar uma parcela cada vez maior de suas exportações.
É hora de rever algumas ideias. As políticas públicas mostraram grande eficácia para reduzir a natalidade. Durante boa parte do período pós-Segunda Guerra Mundial, controlar o crescimento populacional foi considerado um dos pilares do desenvolvimento de nações recém-independentes. Reverter essa tendência, porém, é muito mais difícil.
Singapura não desistiu dessa agenda, mas o primeiro-ministro Lawrence Wong trouxe uma perspectiva valiosa no mês passado. “Devemos ter alguma humildade”, afirmou. “Isso está acontecendo no mundo inteiro. Ninguém tem as respostas neste momento.” Os incentivos continuam tendo um papel importante, mas o objetivo deve ser garantir uma vida melhor para as famílias que já existem.
Dizer que o estudo contesta a narrativa dominante e negativa sobre a mudança demográfica seria pouco. Os autores têm o cuidado de não extrapolar excessivamente suas conclusões para o futuro e reconhecem que o ritmo das transformações demográficas tende a acelerar, trazendo novos desafios.
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Ainda assim, é reconfortante ouvir uma análise alternativa ao pessimismo que acompanha cada novo indicador de fecundidade ou cada novo marco no processo de envelhecimento acelerado das sociedades. É compreensível que formuladores de políticas públicas olhem para esses números e enxerguem o fechamento de escolas, pressões sobre os sistemas de saúde e de previdência.
Também se preocupam com a capacidade de uma população em idade ativa cada vez menor gerar arrecadação suficiente para sustentar políticas fiscais generosas. Essas preocupações têm fundamento: o sistema previdenciário da China sofre com insuficiência de recursos; nos Estados Unidos, o fundo fiduciário da Previdência Social deixará de pagar benefícios integrais a partir do fim de 2032, caso o Congresso não encontre uma solução. Já mercados emergentes como a Tailândia envelheceram antes de se tornarem ricos.
Tão presente nesse debate é uma certa nostalgia. Como se fosse possível fazer a taxa de fecundidade voltar ao chamado nível de reposição, geralmente definido como 2,1 filhos por mulher. Mas esse momento já passou.
É verdade que a combinação adequada de políticas públicas e mudanças graduais de comportamento pode tirar a taxa do piso. Na Coreia do Sul, por exemplo, onde o número de casamentos voltou a crescer desde 2023, a taxa de fecundidade avançou ligeiramente por dois anos consecutivos. Ainda assim, permanece em um nível extremamente baixo, de 0,8 filho por mulher. Ninguém fala em retornar a 2 filhos — nem a algo próximo disso.
No fim das contas, os formuladores de políticas públicas terão de recorrer às soluções que sempre estiveram disponíveis: imigração e automação. A primeira costuma enfrentar forte resistência política.
A segunda está em sintonia com o atual boom da inteligência artificial. A Coreia do Sul pode estar em uma posição privilegiada. Segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional, suas exportações de tecnologia a colocam entre os grandes vencedores da economia global no primeiro semestre do ano.
A tecnologia não precisa servir apenas para compensar a escassez de mão de obra ou o encolhimento da população. Ela pode aumentar a produtividade das pessoas que vivem hoje e das famílias menores que virão depois delas.
Pode até estimular a inovação. O planeta ainda está longe de ficar vazio, por mais marcantes que sejam essas tendências. A população mundial só começará a encolher — e de forma gradual — daqui a pelo menos meio século. As pesquisas mais recentes sugerem que, ao menos parte dessa ansiedade, é prematura. Isso, por si só, já representa um avanço.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Daniel Moss é colunista de opinião da Bloomberg, onde cobre as economias da Ásia. Atualmente baseado em Singapura, foi anteriormente editor-executivo da Bloomberg News.
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