Bloomberg — Em uma decisão incomum, uma gestora de fundos brasileira contratou uma estrela local das redes sociais como sócia para lançar um fundo de ações, aproveitando a onda de popularidade dos influenciadores que opinam sobre os mercados.
A Southtree Capital vai se juntar à Heloisa Cruz, que oferece dicas de ações e cursos online para mais de 100 mil seguidores nas redes sociais. A empresa planeja incorporar o principal fundo de Cruz, o Stoxos, após uma assembleia de acionistas no dia 8 de julho, mantendo-a como gestora, e lançar um novo fundo, deixando a influenciadora responsável pela área de ações, parte do objetivo de expandir sua base de clientes para investidores de varejo locais.
A Southtree administra cerca de US$ 150 milhões no exterior, enquanto o fundo Stoxos de Cruz tem cerca de R$ 90 milhões sob gestão.
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“Enquanto os principais fundos no Brasil tendem a fazer um tipo de coisa, eu gosto de fazer exatamente o oposto”, disse Cruz em entrevista à Bloomberg News. “Para mim, a maneira mais fácil de ganhar dinheiro com ações é comprando empresas extremamente baratas, encontrando teses de investimento que ninguém está considerando.”
Como qualquer estratégia de investimento, o Stoxos traz riscos e forte volatilidade no curto prazo. Desde 2018, o fundo apresentou um retorno de 466%, superando o ganho de 110% do índice de referência Ibovespa no mesmo período. No entanto, tem enfrentado dificuldades recentemente, com queda de 15% neste ano, em contraste com a alta de 5,4% do Ibovespa.
“Meu objetivo não é superar o Ibovespa todos os dias, mas sim possuir algumas ações que possam gerar ganhos expressivos e multiplicar seu valor no longo prazo”, disse Cruz.
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Cruz, que é analista certificada pelo CFA e possui bacharelado em engenharia química, trabalhou em bancos como Fator, JPMorgan e Itaú Unibanco. Ela disse que começou a investir seu próprio dinheiro em ações em 2008, durante a crise financeira, e que em 2013 pensou em criar um pequeno clube de investimento que eventualmente se tornaria o Stoxos.
O Stoxos se concentra em empresas de pequeno valor de mercado, como a varejista Casas Bahia, a incorporadora imobiliária Moura Dubeux Engenharia e a holding Simpar. Todas as três estão com desempenho inferior ao do Ibovespa neste ano, com a Casas Bahia caindo 63% e a Simpar, 26%.
O novo fundo que Cruz vai supervisionar deverá ter um mandato mais amplo e um perfil de risco reduzido, investindo no mercado interno e externo, inclusive em empresas relacionadas à inteligência artificial, diz Guilherme Jahic, fundador da Southtree. O tempo de resgate após o pedido será de 30 dias, em comparação com os 120 dias do fundo original, disse ele, acrescentando que o novo veículo terá entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões em capital inicial.
Ele e outro sócio fundador, Fernando Carvalho, administrarão o fundo juntamente com Cruz. Carvalho é o diretor de investimentos da Southtree e Jahic é co-diretor de investimentos.
A contratação de Cruz é um reconhecimento de que os investidores de varejo estão cada vez mais recorrendo a formas não tradicionais de aconselhamento. Ao longo de cinco anos, o público de influenciadores financeiros mais do que quadruplicou, chegando a cerca de 310 milhões em 2025, segundo pesquisa da Anbima, associação brasileira do mercado de capitais (uma pessoa que segue dois influenciadores é contabilizada duas vezes no estudo, o que explica por que esse número é maior do que a população do país).
O estudo oferece uma visão sobre influenciadores que democratizaram o acesso aos mercados — embora a maioria deles ainda não possua certificação para fazer recomendações de investimento, disse a Anbima.
“É fundamental que as pessoas observem as credenciais e a trajetória dos especialistas que acompanham, para entender o nível de conhecimento e responsabilidade por trás das orientações compartilhadas”, disse Ana Leoni, CEO da Planejar, uma organização sem fins lucrativos que oferece certificações para influenciadores.
A Southtree, fundada em 2023, é uma spin-off do family office brasileiro Centuria Investimentos, que administra fundos para um dos ramos das famílias Zogbi e Derani. A Centuria já investiu na Stoxos.
Com a chegada de Cruz à liderança da área de ações, a Southtree planeja começar a distribuir seus fundos por meio de plataformas de investimento locais e para investidores no exterior, disse Jahic.
Cruz disse que este é um momento oportuno para comprar ações brasileiras, já que as avaliações deprimidas e a perspectiva de juros mais baixos podem impulsionar fortes retornos. Ela também observa uma distorção: as ações de pequeno valor de mercado ficaram para trás, visto que os bilhões de dólares em fluxos de capital estrangeiro para o Brasil no primeiro trimestre favoreceram, na maior parte, as ações de empresas com grande valor de mercado.
“Independentemente de quem for o próximo presidente, as taxas de juros reais serão reduzidas, seja por meio de um ajuste fiscal ou pela inflação; é simplesmente impossível que essas taxas continuem tão altas”, disse Carvalho, acrescentando que isso ajudará o investimento em ações.
Os fundos de ações no Brasil sofreram anos de saídas de capital, já que as altas taxas de juros convenceram muitos investidores a deixar seu dinheiro em produtos de renda fixa. Segundo a Anbima, esses fundos registraram resgates de R$ 5,4 bilhões este ano até maio.
“Houve uma saída generalizada de capital do setor que prejudicou a todos”, disse Jahic. “Acreditamos que este é o momento certo para lançar um produto de gestão ativa, tanto no Brasil quanto no exterior.”
-- Reportagem atualizado com comentário de Carvalho sobre juros no antepenúltimo parágrafo; versão anterior corrigiu a data da assembleia no segundo parágrafo.
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