Bloomberg — Os Estados Unidos são o epicentro do boom de inteligência artificial.
O país concentra a maior parte dos data centers especializados em IA do mundo e abriga as sedes das empresas que desenvolvem os chips e os grandes modelos de linguagem mais avançados.
Mas os investidores já incorporaram isso aos preços dos ativos — e até mais do que isso.
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Os mercados emergentes, por outro lado, contam com uma narrativa atraente ligada à IA e negociam com um desconto expressivo em relação aos pares dos mercados desenvolvidos, uma combinação promissora para os próximos anos.
Os índices de mercados emergentes, surpreendentemente, têm exposição ainda maior ao setor de tecnologia do que os Estados Unidos, em torno de 40%, como apontam Que Nguyen e Mario Albuquerque, da consultoria de investimentos Research Affiliates, em um excelente relatório recente.
“Uma das coisas que estamos percebendo é que, se você acredita nessa história da IA, ela não ficará restrita a apenas algumas empresas nos Estados Unidos”, disse Nguyen nesta semana.
O mundo em desenvolvimento talvez não produza a próxima Anthropic PBC, mas certamente oferece ampla exposição a semicondutores, além de empresas como a Alibaba Group Holding, criadora do modelo fundamental Qwen.
Índices de referência de mercados emergentes, como o Bloomberg Emerging Markets Large & Mid Cap Index e o MSCI Emerging Markets Index, também têm peso acima da média em matérias-primas essenciais para sustentar a IA.
O Oriente Médio e o Brasil abrigam gigantes do setor de hidrocarbonetos, enquanto minas no Chile e no Peru produzem o cobre que leva energia das usinas aos data centers e, depois, por toda a sua infraestrutura.
A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo de eletricidade dos data centers mais do que dobrará até 2030, alcançando cerca de 945 terawatts-hora, volume superior ao consumo total do Japão.
No curto prazo, o gás natural ajudará a atender essa demanda, enquanto avançam iniciativas para ampliar a participação da energia nuclear na matriz elétrica, o que poderá beneficiar produtores de urânio em países como o Cazaquistão. A demanda por cobre também deve crescer de forma significativa. A Wood Mackenzie afirma que os data centers são um “fator imprevisível de volatilidade” que pode esgotar estoques e provocar disparadas de preços.
Participar das operações ligadas à IA tem dependido tanto de acertar o momento do ciclo de entusiasmo do mercado quanto de estar “certo” sobre a tese. Nos últimos três anos, o mercado migrou rapidamente de um subtema para outro.
Entre eles, em ordem cronológica aproximada:
- O momento inicial da Nvidia Corp. (em 2022 e no início de 2023)
- A dominância das Sete Magníficas
- A segunda grande disparada da Nvidia (um ano depois, em 2024)
- A febre das ações de refrigeração
- A aposta em IA e defesa
- A forte valorização da Oracle Corp. no verão de 2025
- O apocalipse do software como serviço
- O boom das empresas de memória em 2026
E, mais recentemente, a operação baseada na ideia de que “fomos rápidos demais ao descartar o software”.
A lição é que os mercados incorporam com extrema rapidez o potencial de valorização ligado à IA assim que identificam um vencedor.
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Investidores que esperam pela confirmação de suas teses perdem a primeira grande perna de alta — quando não perdem toda a valorização. Não sou melhor do que qualquer outro apostador para prever quando chegará o “momento dos mercados emergentes”, mas o índice de emergentes parece ter entrado em uma trajetória de aceleração neste ano, e a experiência recente sugere que é hora de prestar atenção.
Os mercados emergentes são negociados com um desconto relevante em relação aos pares desenvolvidos, mesmo após o desempenho superior registrado neste ano. Pelos meus cálculos, o Bloomberg Emerging Markets Large & Mid Cap Index é negociado a cerca de 64% do múltiplo equivalente dos mercados desenvolvidos (gráfico abaixo).
A média foi de aproximadamente 74% na década anterior ao ChatGPT.
As empresas de tecnologia dos emergentes podem não parecer uma pechincha à primeira vista, especialmente após as valorizações extraordinárias das fabricantes de semicondutores neste ano, mas continuam muito mais baratas do que as equivalentes dos mercados desenvolvidos.
Os setores de energia, materiais básicos e utilities também permanecem baratos, tanto em termos absolutos quanto em comparação com os pares desenvolvidos.
E se o boom da IA perder força? As matérias-primas extraídas do solo da América do Sul e do Oriente Médio provavelmente continuarão necessárias para sustentar a próxima fase de crescimento global, independentemente de qual setor a impulsione.
Ações de energia e materiais também funcionam como proteção contra tensões geopolíticas persistentemente elevadas e contra o risco de novos choques de oferta.
Vale lembrar que as ações de mercados emergentes tiveram desempenho inferior durante anos na década de 1990, enquanto a bolha das empresas ponto com se formava. Depois, ressurgiram e se transformaram em grandes vencedoras no início dos anos 2000.
O estouro da bolha redirecionou investimentos para commodities e outros bens físicos, impulsionado principalmente pelo desenvolvimento da China.
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A taxa composta de crescimento anual de 15% dos mercados emergentes entre 1999 e 2007 foi um excelente antídoto para o que, na prática, foi uma década perdida para os Estados Unidos.
É compreensível que investidores frequentemente ignorem os mercados emergentes hoje em dia.
O superciclo de commodities dos anos 2000 já parece história distante, e as gerações mais jovens de investidores só conheceram a dominância da tecnologia americana.
Mas os Estados Unidos hoje são precificados como se tudo tivesse de dar certo, mesmo quando a revolução da IA depende da capacidade do mercado de fornecer grandes quantidades de cobre, gás natural e, futuramente, urânio.
E isso pode significar que a próxima grande operação ligada à IA tenha tanto a ver com as minas do Chile e do Peru quanto com as salas de reunião do Vale do Silício.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Jonathan Levin é um colunista com foco nos mercados e na economia dos EUA. Anteriormente, trabalhou como jornalista da Bloomberg nos EUA, no Brasil e no México. É analista financeiro com certificação CFA.
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