Bloomberg — John Ternus, o próximo CEO da Apple, ingressou na fabricante do iPhone há 25 anos e foi escolhido para o cargo máximo aos 50 anos. Embora essa trajetória fosse comum para CEOs de uma geração atrás, o caminho típico para chegar ao topo do poder no mundo dos negócios é mais longo agora, com mais reviravoltas e desvios ao longo do percurso.
Os CEOs nos Estados Unidos agora têm em média 61 anos — dez anos a mais do que em 2000. O tempo de mandato e a aposentadoria cada vez mais tardia são apenas parte da explicação. Os executivos assumem o cargo máximo cada vez mais tarde. A idade média na nomeação é agora de 55 anos, ante pouco menos de 48 anos em 2000.
Esse envelhecimento da sala do chefe, evidenciado em um working paper do National Bureau of Economic Research (NBER) que analisou os padrões de contratação e carreira de mais de 50.500 CEOs nos Estados Unidos entre 2000 e 2023, reflete “mudanças fundamentais” na forma como os executivos constroem carreiras e como as empresas selecionam seus líderes, segundo os autores do estudo — com experiência variada nos negócios sendo mais valorizada do que a capacidade bruta.
“A demanda se deslocou para habilidades generalistas”, disseram os pesquisadores Valentin Kecht e Farzad Saidi, da Universidade de Bonn, e Alessandro Lizzeri, de Princeton. “Como os executivos precisam de trajetórias de carreira mais longas para desenvolver essas capacidades diversas, as empresas nomeiam CEOs mais velhos.”
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A tendência é mais pronunciada entre empresas menores e de capital fechado, disseram os pesquisadores.
Isso ocorre porque as grandes empresas conseguem oferecer a candidatos internos uma gama mais ampla de atribuições, cultivando uma versatilidade que as empresas menores “só conseguem acessar contratando executivos que acumularam essa experiência transitando por muitas empresas e setores.”
Isso também ajuda a explicar por que a idade média dos CEOs de empresas do índice S&P 500 está abaixo da média geral e avança mais devagar, subindo de cerca de 56 anos em 2000 para 58,5 anos em 2023.
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Executivos com experiência em consultoria estratégica — que “acelera a acumulação de habilidades generalistas”, observam os pesquisadores — conquistaram uma fatia maior dos cargos de CEO, segundo análise separada da Live Data Technologies para a Bloomberg.
No artigo do NBER, os pesquisadores constataram que pessoas com experiência em uma das três maiores consultorias estratégicas (McKinsey, Bain e Boston Consulting Group) tendem a ser nomeadas CEOs em idades “substancialmente” mais jovens.
Executivos que ascendem por outros setores “levam mais tempo para adquirir as mesmas habilidades”, disseram os pesquisadores.
Para ganhar essa versatilidade, alguns líderes topam aceitar um passo atrás em remuneração ou senioridade por um cargo que acreditam que os tornará candidatos a CEO mais competitivos no futuro, segundo o artigo, que ainda não passou por revisão por pares.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores estudaram o que aconteceu com funcionários que trabalharam ao lado de alguém que depois se tornou CEO em outra empresa. Esses executivos tinham mais chances de trocar de emprego, constataram os pesquisadores.
“Quando alguém na rede de um executivo chega ao topo, ele observa a trajetória de carreira que essa pessoa percorreu e atualiza sua visão sobre o que é necessário”, disseram os autores do estudo à Bloomberg News por e-mail.
Por exemplo, um executivo sênior de uma pequena empresa de biotecnologia pode migrar para um cargo mais júnior em uma grande farmacêutica, apostando que a combinação das duas experiências o torna um candidato a CEO mais atrativo no futuro.
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A análise converge com outras pesquisas que mostram o envelhecimento dos CEOs. A Revelio Labs, que fornece inteligência sobre força de trabalho, identificou um aumento de três anos na idade média dos CEOs no início de seus mandatos entre 2018 e 2024.
Os pesquisadores do artigo do NBER se basearam em parte nos dados de histórico profissional da Revelio, mas analisaram um período mais amplo, de 2000 a 2023.
O início desse período coincidiu com o fim da era das pontocom, da qual emergiram muitos jovens CEOs-fundadores, como Jeff Bezos, da Amazon, que estava na casa dos 30 anos na época. Mas os pesquisadores afirmaram não haver evidências de um “efeito rebote” de CEOs ficando mais velhos, em média, após o boom do setor de tecnologia do final dos anos 1990.
O artigo também abordou as implicações para os negócios de ter mais CEOs sexagenários, que tendem a dirigir empresas com crescimento mais lento e menos inovadoras.
Embora preocupante em certo nível, a abordagem mais avessa ao risco desses executivos pode representar “uma resposta racional a ambientes de negócios em transformação, caracterizados por maior incerteza e complexidade”, disseram os pesquisadores.
Com mais anos de experiência em decisões difíceis, executivos mais velhos também podem ser mais capazes de aproveitar oportunidades, lidar com ambiguidades e resistir às inseguranças comuns no emprego apresentadas pela inteligência artificial.
Líderes experientes “que conseguem aproveitar essas tecnologias com eficácia podem se tornar mais valiosos”, disseram os pesquisadores à Bloomberg por e-mail. Além disso, suas habilidades de “coordenação, adaptação e tomada de decisão sob incerteza são também o tipo de habilidades que provavelmente são difíceis de codificar e automatizar.”
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