Bloomberg Opinion — Será que alguém gostaria de ser aliado dos Estados Unidos em 2026?
Donald Trump entrou em guerra ignorando os conselhos e os interesses de alguns dos amigos mais próximos dos EUA, e isso está trazendo consequências que parece que só ele não conseguiu prever. Agora, depois de ter ignorado esses aliados — ou, no caso do Reino Unido, de tê-los menosprezado como inúteis — o presidente dos EUA está exigindo que eles o socorram no Estreito de Ormuz.
Tudo indica que eles concordarão. O Reino Unido, a França e a União Europeia estão analisando o que podem fazer para ajudar. Trump disse ao Financial Times que, se eles não ajudarem, “será muito ruim para o futuro da Otan”.
O Japão e a Coreia do Sul também estão de olho; embora nenhum dos dois países seja membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), eles sabem que dependem, no mínimo, igualmente da segurança dos EUA e, portanto, são igualmente vulneráveis a retaliações.
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Todos esses países têm grande interesse na reabertura de uma via navegável pela qual, em tempos normais, 20 milhões de barris de petróleo devem passar todos os dias. Os preços do petróleo estão subindo e, quanto mais isso continuar, maiores serão os danos às suas economias.
Mas Trump precisa que o estreito seja aberto ainda mais do que eles. Não apenas por razões econômicas, mas também para evitar “perder” uma guerra por opção que ele mesmo iniciou. Os aliados dos EUA deveriam estabelecer condições para sua ajuda e exigir uma contrapartida.
Nada disso se aplica à China, a quem Trump também pediu ajuda. Os próprios petroleiros do Irã continuam passando pelo Estreito de Ormuz e fornecendo petróleo barato à China; portanto, é improvável que Pequim se ofereça para transportar combustível para outras nações.
O presidente dos EUA adiou sua viagem planejada para se encontrar com o presidente Xi Jinping, mas é mais provável que isso seja visto como um presente do que como uma ameaça: o Irã é um aliado da China e a guerra torna Trump um convidado indesejado.
Os países mais afetados têm sido os aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. As bases militares americanas que essas nações abrigam deveriam proporcionar-lhes segurança contra exatamente essas ameaças do Irã. Em vez disso, a presença americana as transformou em alvos de um conflito que tentaram evitar.
O fracasso do governo Trump em priorizar os aliados do Golfo terá consequências duradouras, levando a uma reavaliação de suas políticas de segurança. Mas, por enquanto, eles também precisam que o Estreito de Ormuz permaneça aberto.
Isso não é uma questão de aliança, mesmo que Trump queira torná-la uma. A Otan tem uma cláusula de defesa coletiva, mas nada obriga os aliados a se juntarem às aventuras militares legalmente questionáveis uns dos outros — ou “excursões”, para usar a terminologia de Trump. Isso vale igualmente para os aliados dos tratados bilaterais dos Estados Unidos no Leste Asiático.
No entanto, Trump se vê na necessidade de recorrer às capacidades militares que passa tanto tempo ridicularizando, o que significa que esses aliados têm poder de barganha.
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O Reino Unido, a França e o Japão são líderes em remoção de minas, inclusive por meio de drones controlados remotamente, uma tecnologia projetada precisamente para esse tipo de ambiente de conflito. Essa é uma missão à qual o Reino Unido está disposto a aderir, afirmou o primeiro-ministro Keir Starmer em uma coletiva de imprensa na segunda-feira (16). Escoltar navios, reconheceu ele, será mais difícil.
Proteger petroleiros requer navios com capacidade de defesa aérea, e os navios americanos com esse armamento já estão ocupados nos dois grupos de ataque de porta-aviões que atacam o Irã. Portanto, a menos que se redirecione essa frota, os EUA precisam de outra fonte de navios. E enquanto não houver um acordo entre os EUA e o Irã, esses navios estarão em risco.
Não se poderia apresentar um argumento melhor a favor dos aliados como multiplicadores de força. Esse é um fato que Trump nunca compreendeu e que os aliados deveriam agora usar para fazer exigências.
Para entender quais condições os aliados dos EUA deveriam estabelecer, perguntei a Kevin Rowlands, um ex-oficial da Marinha que, até o ano passado, dirigiu o Centro de Estudos Estratégicos da Marinha Real Britânica e agora é editor da revista do Royal United Services Institute, um think tank britânico especializado em defesa.
A primeira condição, segundo ele, deveria ser que qualquer operação fosse visivelmente independente do esforço de guerra dos EUA. Os europeus, asiáticos e os países do Golfo não devem permitir que Trump use o problema que ele mesmo criou em Ormuz para arrastá-los para uma guerra à qual eles e a maioria de seus eleitores se opõem. Isso é algo que Starmer também enfatizou na segunda-feira.
É certo que isso exige uma disciplina incomum de Trump. Também é improvável que faça muita diferença para os líderes do Irã por enquanto, já que fechar o estreito de Ormuz é fundamental para sua estratégia de guerra. Eles estão interrompendo o fluxo pelo estreito para elevar os preços globais do petróleo o suficiente para que Trump encerre a guerra nos termos deles, em vez de enfrentar punição nas urnas por aumentar o custo de vida nos EUA. Eles tratarão qualquer interferência nessa estratégia como um ato hostil.
Mas os europeus precisam pensar em um, dois ou seis meses a partir de agora, disse Rowlands. É quando o conflito de alta intensidade terá diminuído, mas o Irã e seus aliados poderão querer continuar a guerra por meios assimétricos, incluindo ataques terroristas. Navegar com navios da Arábia Saudita ou do Paquistão, e sem a bandeira dos Estados Unidos, seria importante para essa guerra mais longa.
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Dito isso, quaisquer navios de guerra ou navios de remoção de minas que navegassem pelo Estreito de Ormuz precisariam que os EUA fornecessem informações de inteligência em tempo real e cobertura aérea de apoio. Não há como negar que os EUA controlam o espaço de batalha.
Além dessas questões operacionais, os participantes também deveriam definir um preço. Para o Reino Unido, diz Rowlands, isso poderia incluir uma mobilização dos EUA para o alto Atlântico Norte.
A Grã-Bretanha vem reduzindo sua presença naval no Golfo e em outros locais mais remotos para se concentrar — em parte a pedido de Trump — em assumir mais responsabilidade pela defesa do território nacional. Portanto, se o Reino Unido vai remanejar recursos para o Golfo, deve pedir aos EUA que preencham as lacunas que isso deixa em suas defesas contra a Rússia.
Um acordo com o plano do Reino Unido para legitimar sua presença nas Ilhas Chagos, onde fica a base americana em Diego Garcia, seria outra possível exigência.
Trump inicialmente apoiou o acordo, mas depois se voltou contra ele, usando-o como arma para punir Starmer politicamente. E para todos os participantes europeus, deveria haver uma exigência de um compromisso concreto em relação à Ucrânia: um contrato assinado para manter Kiev abastecida com mísseis interceptadores Patriot seria uma boa solução. Esse abastecimento, sempre um desafio, estará em risco após o rápido esgotamento dos estoques no Golfo.
O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que qualquer operação de escolta provavelmente terá de esperar até que a operação militar dos EUA e de Israel contra o Irã tenha terminado. Esse momento pode não ser bem definido, no entanto, e a pressão de Trump será intensa. Isso significa assumir riscos, e esses riscos devem vir acompanhados de condições e de um preço. Trump vai entender — é exatamente o que ele faria.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Marc Champion é colunista da Bloomberg Opinion e cobre a Europa, a Rússia e o Oriente Médio. Já foi chefe do escritório de Istambul do Wall Street Journal.
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