Bloomberg — Seu horizonte de investimento é infinito. Seu capital é permanente. E as recompensas, segundo ele, devem ser enormes.
Esse é o argumento que Bill Ackman apresenta ao avançar com o plano de levar a Pershing Square à bolsa ao lado de um novo fundo fechado, em uma operação que pode levantar até US$ 10 bilhões e atrair milhões de investidores de varejo para mais perto de seu universo.
Para Ackman, trata-se de um retorno após uma tentativa anterior frustrada de listar um grande fundo fechado nos Estados Unidos. Mas é também algo maior: um marco em seu projeto de vários anos para transformar a Pershing Square em uma versão moderna da Berkshire Hathaway de Warren Buffett.
Leia também: Bill Ackman de volta à bolsa: bilionário mira até US$ 10 bi em IPO da Pershing Square
O que está sendo oferecido são ações da Pershing Square USA (PSUS), o seu fundo fechado. Mas, para cada 100 ações da PSUS compradas, os investidores receberão automaticamente 20 ações da gestora Pershing Square Inc.
A estrutura significa que o fundo terá uma base de capital mais permanente, o que, segundo Ackman, permitirá escolher vencedores e deixá-los prosperar sem a preocupação de que investidores retirem seus recursos.
“Nosso objetivo de longo prazo para a Pershing Square Inc. é construir uma das empresas mais valiosas do mundo ao gerar um dos melhores históricos de desempenho de longo prazo já registrados por um investidor”, escreveu Ackman, que tem um patrimônio superior a US$ 8 bilhões, em carta aos investidores divulgada esta semana.
Momento oportuno
A proposta surge em um momento oportuno. O boom dos mercados privados deu origem a uma série de produtos que prometem liquidez ocasional enquanto investem em ativos difíceis de vender, como empréstimos privados e imóveis.
Agora, porém, uma onda de resgates por parte dos investidores tem obrigado gigantes como a Blackstone e a BlackRock a equilibrar pedidos de retirada com a necessidade de manter saudáveis as carteiras subjacentes.
Leia também: Citi nomeia André Cury como o novo presidente da operação do Brasil
Esse é exatamente o tipo de aperto que Ackman afirma que seu modelo de negócios evita. Os investidores da Pershing teriam liquidez ao vender suas ações, e não ao solicitar o resgate do dinheiro diretamente ao gestor.
“Pensamos em nosso modelo de negócios como algo semelhante a possuir um royalty sobre o efeito de capitalização dos ativos investidos em estratégias de alto retorno”, disse Ackman, que ganhou destaque como investidor ativista à frente de um hedge fund tradicional.
“Se você entende a matemática de longo prazo dos juros compostos, consegue perceber o potencial extraordinário do modelo de negócios da Pershing Square Inc.”
Um obstáculo para Ackman é o fato de que os fundos fechados perderam popularidade nos últimos anos e, em sua maioria, são negociados com desconto em relação ao valor de seus ativos.
A Pershing Square Holdings Ltd., o fundo fechado listado em Londres da gestora, com mais de US$ 17 bilhões em ativos, é negociada cerca de um quarto abaixo de seu valor patrimonial líquido, segundo dados compilados pela Bloomberg.
Embora os investidores ainda debatam se o novo fundo fechado será negociado abaixo do preço de US$ 50 pago pelos compradores no IPO, seu equivalente europeu não tem despertado muito entusiasmo quando comparado ao mercado de alta nos Estados Unidos.
A Pershing Square Holdings ficou atrás do índice S&P 500 tanto no horizonte de cinco anos quanto no de um ano, segundo dados compilados pela Bloomberg.
BTG Pactual entre os investidores
Parte dos recursos do IPO do fundo fechado virá de uma colocação privada, com US$ 2,8 bilhões provenientes de investidores como family offices, fundos de pensão e seguradoras, de acordo com documentos regulatórios.
Entre eles estão o Teacher Retirement System of Texas, a Arch Capital Group, o BTG Pactual e a Marlton LLC, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que falaram com a Bloomberg News.
A gestora não receberá recursos com o IPO. A Pershing Square espera que as duas empresas passem a ser negociadas de forma independente após a definição do preço da oferta.
Representantes das quatro instituições, assim como um porta-voz da Pershing Square, se recusaram a comentar.
Retorno de Ackman
O IPO representaria um grande triunfo para Ackman. Um plano apresentado dois anos atrás para listar um veículo na Bolsa de Nova York foi reduzido de US$ 25 bilhões para US$ 4 bilhões, depois para US$ 2 bilhões, antes de ser totalmente cancelado.
O episódio deixou muitos em Wall Street perplexos e representou um grande tropeço para um investidor que já enfrentou perdas devastadoras ao longo da carreira.
Apostas malsucedidas em Herbalife e Valeant Pharmaceuticals custaram bilhões de dólares ao fundo entre 2015 e 2017 — um período tão turbulento para a Pershing que é citado explicitamente nos documentos do IPO.
Leia também: Apex Partners chega a R$ 17,5 bi em investimento regional e mira crédito privado
Desde então, a Pershing entrou no que chama de sua “era de capital permanente”, com foco na expansão de sua base de ativos e na reorganização do negócio.
Uma parte importante dessa transição ocorreu em maio, quando a Pershing e seus fundos fecharam um acordo para ampliar sua participação na empresa imobiliária Howard Hughes Holdings para 47%.
A operação se encaixa em um plano mais amplo de transformar a Howard Hughes em um conglomerado com participações de controle em diversas empresas, incluindo uma seguradora que poderia fornecer ainda mais capital à Pershing.
Ackman comparou o modelo à Berkshire, o gigante de US$ 1 trilhão que Buffett levou décadas para construir. Ackman e o diretor de investimentos da Pershing Square, Ryan Israel, chegaram até a mencionar a ideia de realizar uma reunião anual presencial que lembraria o encontro anual da Berkshire em Nebraska.
Ele pouco fez para desencorajar essas comparações nos documentos do IPO divulgados esta semana. Embora Buffett não seja mencionado nominalmente, os textos estão repletos de vocabulário típico da estratégia de value investment associado à escola de Buffett e da Berkshire.
Há referências a “vantagens competitivas duráveis”, ênfase em geração de caixa e preferência por negócios simples e previsíveis.
Mas estilos de investimento e estruturas corporativas não explicam por completo o que transformou Buffett no “Oráculo de Omaha”. Ele conquistou a confiança de longo prazo dos investidores e reúne uma combinação singular de franqueza, lealdade e paciência — além do capital permanente, disse Lawrence Cunningham, professor emérito de direito da Universidade George Washington.
Cunningham organizou, em 1996, um simpósio sobre as cartas de Buffett aos acionistas no qual Ackman, então um jovem aspirante, conheceu Buffett. Ele lembra que o evento reuniu algumas centenas de convidados — modesto em comparação com o público que algo assim atrairia hoje.
“Ele precisa que os investidores sejam pacientes e estejam dispostos a se comprometer”, disse Cunningham sobre o argumento de Ackman aos investidores. “Isso não é fácil. Existe uma enorme pressão por resultados de curto prazo.”
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Seneca Evercore avalia se tornar banco ao ampliar área de crédito, diz sócio-fundador
De Itaú a Petrobras: as apostas do maior fundo soberano do mundo na América Latina