‘Trump não tem plano’: guerra dos EUA contra o Irã expõe improviso na Casa Branca

Custos humanos, econômicos e geopolíticos potenciais do conflito são altos, mas não surpreendem por conta da condução apressada, tumultuada e sem prazo definido, o que está totalmente de acordo com a personalidade do presidente

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Bloomberg Opinion — “A verdade é que esses homens não são muito inteligentes, e as coisas saíram do controle.” — Todos os homens do presidente, filme de 1976.

O senador americano Chris Murphy, democrata e membro do Comitê de Relações Exteriores, acessou as redes sociais na noite de terça-feira (10) para compartilhar conclusões de uma reunião confidencial que a Casa Branca teve com ele e outros legisladores sobre a guerra no Irã.

“Obviamente, não posso divulgar informações confidenciais, mas vocês merecem saber que esses planos de guerra são incoerentes e incompletos”, observou ele, enfatizando que a mudança de regime no Irã não está mais nos planos. “Eles vão gastar centenas de bilhões de dólares dos contribuintes, causar a morte de muitos americanos e um regime linha-dura — provavelmente um regime linha-dura ainda mais antiamericano — continuará no poder.”

Murphy também disse que o governo do presidente Donald Trump não pretende mais destruir o programa de armas nucleares do Irã. Em vez disso, prefere eliminar mísseis, barcos e fábricas de drones.

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“A pergunta que os deixou perplexos: o que acontecerá quando vocês pararem de bombardear e eles reiniciarem a produção”, compartilhou Murphy. “Eles sugeriram mais bombardeios. O que, é claro, significa uma guerra eterna.”

Uma última observação de Murphy: ele afirmou que a Casa Branca “NÃO TEM UM PLANO” para garantir a segurança do Estreito de Ormuz para a passagem segura de petroleiros e outros navios.

Cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo transita pelo estreito. Como observado pela Bloomberg News recentemente, Trump tem dias, não semanas, para resolver esse problema. Caso contrário, os preços do petróleo, que estavam em cerca de US$ 71 por barril antes do início da guerra e se estabilizaram na faixa dos US$ 90, dispararão, provocando turbulências.

Os custos humanos, econômicos e geopolíticos potenciais desse derrame de destruição são angustiantes e perigosos, mas nada disso deve ser surpreendente. “NÃO TEM UM PLANO” poderia virar um outdoor fixado no topo do salão de festas de 8.361 metros quadrados que Trump quer anexar à Casa Branca.

E sua condução apressada, tumultuada e sem prazo definido da guerra contra o Irã até agora está totalmente de acordo com seu caráter. O presidente — como herdeiro de uma fortuna considerável, incorporador imobiliário aleatório, empresário de cassinos disfuncional, astro de reality show, autopromotor onipresente e força política tectônica — passou a maior parte de seus quase 80 anos voando sem rota.

As implicações da incompetência de Trump tinham menos gravidade antes de ele entrar no Salão Oval. Agora, suas ações frequentemente colocam pessoas, a sociedade civil e meios de subsistência em risco.

Como diz o ditado, com grande poder vem grandes responsabilidades. E também sofisticação, racionalidade, perspicácia — e um ótimo planejamento. Planejar pode ser chato e demorado, mas é tudo. A dedicação ao planejamento separa adultos funcionais de crianças e estrategistas eficazes de incendiários desequilibrados.

Os republicanos apoiaram a guerra contra o Irã e a garantia do presidente de que ela “terminaria rapidamente”. Eles rejeitaram a legislação que teria suspendido os ataques e parecem acreditar na palavra da Casa Branca de que ela “tinha um plano de ação sólido” antes de os EUA se aliarem a Israel nos bombardeios.

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Trump alimentou essa narrativa. “Tenho um plano para tudo, OK?”, disse ele recentemente a um repórter quando questionado sobre as implicações da alta nos preços do petróleo. “Tenho um plano para tudo. Você ficará muito feliz.”

Muitos ficariam felizes de fato, e o mundo seria um lugar melhor, se as capacidades nucleares e militares do Irã fossem total e finalmente dizimadas. Fomentar uma mudança duradoura no regime também seria bem-vindo. O Irã exporta terrorismo junto com petróleo, mantém rotineiramente o Oriente Médio em pontos de inflexão desconcertantes e suprime a democracia em seu território. Se Trump conseguir tirar um coelho da cartola no Irã, bravo.

A realidade, porém, se intromete na narrativa. Incapacitar totalmente o Irã não parece estar nos planos, e um novo linha-dura, Mojtaba Khamenei, sucedeu seu falecido pai como líder supremo do país. O Estreito de Ormuz continua sendo um ponto de estrangulamento. Trump, que raramente aceita conselhos, está ouvindo muitos conselhos de um grupo de amadores, entre eles o secretário de Defesa Pete Hegseth; Steve Witkoff, seu enviado especial ao Oriente Médio; e seu genro, Jared Kushner.

Trump e seus apoiadores gostam de promover o presidente como um grande estrategista. “Como sempre, o chefe está jogando xadrez tridimensional” no Irã, disse Peter Navarro, consultor sênior de comércio e ex-presidiário, à Newsmax.

Infelizmente, isso é abertamente e irremediavelmente falso.

Embora alguns analistas políticos e outros observadores tenham passado a última década tentando tranquilizar a si mesmos e ao mundo ao discernir inúmeras “estratégias” nas divagações tragicômicas de Trump, ele nunca foi um estrategista capaz ou dedicado. Ele certamente tem objetivos, e eles geralmente assumem a forma de autopreservação ou engrandecimento.

Nesse contexto, uma explicação direta para sua autodenominada “excursão” ao Irã é que ela lhe pareceu uma demonstração de poder — e ele não se preocupou com os impactos existenciais ou com a forma como as peças seriam remontadas depois que as bombas parassem de cair.

Mas ter objetivos não é o mesmo que ter uma estratégia.

Trump se apresenta como um grande negociador, embora sua carreira empresarial tenha sido marcada por falências. Ele diz ser um administrador astuto da economia, embora tenha adotado políticas tarifárias autodestrutivas e prejudiciais.

Ele prometeu redimensionar o governo federal, mas, em vez disso, deu origem ao circo conhecido como DOGE. Ele prometeu fechar as fronteiras dos Estados Unidos e o fez, mas depois lançou uma campanha de deportação letal e grotesca que deixou marcas em comunidades em todo o país. Ele quer que os EUA sejam mais acessíveis para os eleitores em dificuldades, mas agora está travando uma guerra que pode devastar suas carteiras.

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Nada disso é obra de um estrategista astuto e comprometido, que desenvolve planos bem elaborados. Infelizmente, é a marca registrada de alguém eternamente indiferente à vasta destruição que deixa em seu rastro.

Há dois meses, o New York Times perguntou a Trump se ele achava que havia forças que poderiam restringir seus poderes globais.

“Sim, há uma coisa. Minha própria moralidade”, respondeu a pessoa que não é conhecida por ser particularmente moral ou capaz de se autocontrolar. “Minha própria mente. É a única coisa que pode me impedir.”

“Não preciso do direito internacional”, disse ele também. “Não busco machucar as pessoas.”

Enquanto isso, sete soldados americanos morreram, dezenas ficaram feridos, muitos outros estão em perigo e centenas de iranianos morreram, incluindo crianças em idade escolar.

As consequências dessa guerra ecoarão por anos, e a segurança nacional dos EUA pode acabar sendo enfraquecida por ela. Mas não espere que Trump, que conseguiu vários adiamentos do serviço militar para evitar servir na Guerra do Vietnã, traça um plano confiável para conter o caos e os perigos que ele desencadeou no Irã e arredores.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Timothy L. O’Brien é editor executivo sênior da Bloomberg Opinion. Ex-editor e repórter do New York Times, ele é autor de “TrumpNation: The Art of Being the Donald”.

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