Apex Partners chega a R$ 17,5 bi em investimento regional e mira crédito privado

Em entrevista à Bloomberg Línea, o fundador e presidente da empresa de investimentos com sede em Vitória, no Espírito Santo, fala da aquisição da Contea Capital como parte da estratégia de ecossistema regional

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Bloomberg Línea — O desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil ao longo das duas últimas décadas ajudou a descentralizar a frente de distribuição de produtos financeiros e o seu acesso a milhões de investidores, mas não a forma como eles são estruturados, o que continua concentrado no eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Com a visão de que existe uma oportunidade e uma necessidade de disseminar essa geração de riqueza para outros polos regionais do país, a Apex Partners - fundada e comandada por Fernando Cinelli em Vitória, no Espírito Santo - ergueu nos últimos anos um ecossistema de investimentos que já soma R$ 17,5 bilhões em ativos e atraiu o interesse de gigantes como o BTG Pactual, parceiro estratégico da empresa.

Um novo passo acaba de ser dado com a recém-anunciada aquisição integral da Contea Capital, gestora especializada em crédito privado com foco em FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e sede na cidade de São Paulo.

“Temos uma relação com a Contea e seus sócios desde que realizamos o nosso primeiro deal de expansão em 2023 e nos aproximamos cada vez mais com o tempo, a ponto de nos tornarmos primeiro sócios minoritários - e agora veio o M&A completo”, disse Fernando Cinelli em entrevista à Bloomberg Línea.

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O presidente da Apex Partners fez referência à combinação de negócios com a Forever Capital, escritório de assessores de investimento com sede em Londrina, no interior do Paraná, em que atuou o atual diretor de crédito privado, Wagner Kronbauer.

Segundo Cinelli, Kronbauer já tinha uma relação de anos com os sócios da Contea, que acabou assumida de forma mais ampla pela Apex com um alinhamento em relação à estratégia para ativos privados e alternativos com visão de longo prazo.

Ele citou também o início de atuação da Apex em fundo PIPE (Private Investment in Public Equity), com a participação na CVC como um caso já em prática.

“A aquisição representa a incorporação de uma competência nova para nós em ativos alternativos, em que já temos uma atuação forte em real estate há mais tempo e relevante em private equity e em venture capital”, disse Cinelli.

“Nós vimos que poderíamos encurtar esse caminho em crédito privado tanto em conhecimento e know-how, derivado dos sócios fundadores, que seguem no negócio, enquanto eles tiram proveito da capilaridade que a Apex ganhou.”

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O presidente da Apex fez referência aos cinco estados - São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul - em que a empresa está presente no Brasil, além de Portugal.

“A grande força da Apex é a sua presença regional, com sócios locais, o que proporciona um efeito de rede e uma conexão na ponta com os clientes”, disse Wagner Kronbauer na mesma entrevista.

“E o crédito privado tem sido uma demanda forte dos clientes, ao mesmo tempo em que faz parte da estratégia da Apex em busca de ser referência como principal banco de investimento regional do Brasil”, afirmou o executivo.

Para Kronbauer, de forma semelhante à visão da Apex, o FIDC é possivelmente o principal instrumento para descentralização do crédito no Brasil nos próximos anos, algo que ele disse já ver atestado pela demanda de clientes corporativos por novas soluções de produto estruturado.

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Cinelli defendeu a visão de que o desenvolvimento regional é um caminho natural necessário dentro do processo de evolução do mercado de capitais no país e apontou para benchmarks em outras economias de dimensões como o Brasil.

“Em outros mercados, banqueiros de investimento não ficam tão concentrados em poucos locais. Nos Estados Unidos, por exemplo, em Nova York, você encontra de tudo, mas se você quer falar com um banqueiro especializado em óleo & gás, vai para Houston e consegue ter essa conversa; se quer falar sobre tecnologia, vai para San Francisco, e assim por diante”, completou o investidor.

“Vimos que no Brasil ainda há uma carência de uma plataforma que tenha o capital humano nas pontas para ajudar a desenvolver o mercado de capitais regionalmente” disse o presidente e fundador da Apex Partners sobre a sua visão.

O mercado de capitais, por sua vez, alavanca a economia local de forma ampla, de forma regional - uma tese validada inicialmente na capital capixaba e depois estendida para outros polos regionais que apresentam potencial, segundo avaliação.

Um exemplo do impacto perseguido pela Apex via mercado de capitais se deu em Vitória no funding para novos projetos imobiliários, que acontecia essencialmente via emissão de dívida e passou a incluir equity com a atuação da empresa no setor.

Com a tese consolidada, a Apex desenvolveu ao longo dos últimos anos um ecossistema com base em quatro pilares: uma gestora de ativos, uma área de IB (Investment Banking), um advisory tanto para wealth como para corporate e um time de research para prover dados microeconômicos regionalizados, o que inclui pesquisas políticas que sejam relevantes para o mesmo público regional.

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No médio prazo, com vistas a 2030, o plano é que a Apex se consolide como principal banco de investimento regional do país, com R$ 45 bilhões em ativos sob supervisão, dos quais R$ 30 bilhões em advisory e R$ 15 bilhões na gestora - plano que dialoga diretamente com o avanço em crédito privado com a Contea.

“Quando montamos nosso modelo de replicabilidade, partimos para uma segunda camada, que é a expansão regional”, disse o executivo e empreendedor, ao se referir à estratégia de crescimento orgânico e inorgânico por meio de M&As.

“Passamos a agir em busca de efeito de rede, não só por meio das plataformas de negócios como também do nosso posicionamento geográfico.”

Cinelli fez referência à atuação voltada para hubs regionais, como Maringá, no Paraná, e Florianópolis e Joinville, em Santa Catarina, entre outros.

Como parte da estratégia, a Apex também organiza eventos denominados BRM (Brazilian Regional Markets), em localidades como São Paulo, Brasília e Nova York, com o objetivo de promover a discussão de oportunidades desses mercado e de levar a tese para um público investidor mais amplo - sob a liderança do sócio Rafael Andaku na vertical de research.

Ao longo do processo, um ponto considerado fundamental, segundo Cinelli, é o capital humano. “Tem gente [capacitada] no mercado. Mas buscamos gente [capacitada] com a nossa cultura. Preferimos avançar de forma estratégica e manter o alinhamento do que sair espalhando escritórios pelo país”, completou o empreendedor.

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