Bloomberg Opinion — Mais de uma semana após os Estados Unidos e Israel terem lançado ataques aéreos punitivos contra o Irã, nenhum dos lados parece disposto a interromper as hostilidades.
A República Islâmica certamente pagará um preço mais alto por sua intransigência. Mas isso não significa que os EUA possam ignorar os custos de longo prazo de uma guerra sem um objetivo final realista em mente.
Apesar de afirmar ter “já vencido de muitas maneiras”, o presidente Donald Trump disse na segunda-feira (9) que os EUA “não cederão até que o inimigo seja total e decisivamente derrotado”. Não está claro como isso se concretizará.
O Pentágono apresentou quatro objetivos táticos, dos quais apenas alguns parecem alcançáveis apenas com ataques aéreos: garantir que o Irã não possa construir uma arma nuclear, destruir sua marinha e seu arsenal de mísseis balísticos e cortar seu apoio a milícias como o Hezbollah.
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Se o governo americano tem uma estratégia de saída mais detalhada, os democratas do Congresso informados sobre seus planos dizem que não a ouviram. Enquanto isso, os esforços contínuos para desmantelar o aparato repressivo do regime são tão propensos a incentivar o caos quanto uma revolta pró-democracia.
Não há dúvida de que o mundo seria melhor se o Irã não mais ameaçasse seus vizinhos, Israel e o Ocidente. E aconteça o que acontecer, a coordenação militar, a sofisticação tecnológica e o poder de fogo já demonstrados pelas forças americanas devem fazer com que rivais como China, Rússia e Coreia do Norte, que poderiam estar inclinados a testar a vontade americana, pensem duas vezes.
Ao mesmo tempo, mesmo uma campanha bem-sucedida que termine em breve deixaria os EUA e seus aliados regionais perigosamente sem munições essenciais, especialmente interceptadores de mísseis caros que poderiam levar anos para serem substituídos.
O desgaste de aviões e navios de guerra agravará as lacunas de prontidão. Embora o Pentágono não tenha solicitado formalmente ao Congresso financiamento adicional, a conta dessa empreitada está aumentando rapidamente — em cerca de US$ 1 bilhão por dia, de acordo com uma estimativa.
Qualquer coisa que não seja uma vitória limpa e rápida, entretanto, ameaça agitar ainda mais os mercados de energia e corroer outros elementos do poder americano. O governo americano já entrou em conflito com aliados na Europa, irritou parceiros no Golfo Pérsico e causou uma confusão diplomática totalmente desnecessária com a Índia.
Os preços elevados do petróleo e o alívio das sanções à Rússia colocarão mais dinheiro nos cofres de Vladimir Putin, mesmo que a demanda por mísseis Patriot ameace limitar o fluxo de interceptores tão necessários para a Ucrânia. Os inimigos certamente estão aprendendo com as táticas exibidas na campanha dos EUA e ajustarão suas próprias estratégias militares de acordo.
Além disso, quanto mais tempo durar o conflito, maior será o risco de outros países serem arrastados para ele. Os ataques iranianos podem provocar uma retaliação por parte dos países do Golfo.
Uma revolta dos insurgentes curdos contra o regime pode espalhar o caos, que pode se estender ao Iraque, à Turquia e à Síria. Por mais distante que seja, os EUA não estariam imunes: uma região desestabilizada seria uma distração estratégica constante, mesmo que o governo afirme, como seus antecessores, querer se concentrar na China e em outras prioridades.
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Com esses riscos em mente, a Casa Branca precisa definir objetivos de guerra claros e alcançáveis. É improvável que o regime entre em colapso sem envio de tropas no território iraniano. O que é necessário é uma solução negociada — que deixe o Irã inteiro e estável, mas contido militarmente.
Mesmo após a nomeação do linha-dura Mojtaba Khamenei como líder supremo, o governo deveria trabalhar por meio de canais secretos para explorar se há figuras dentro do sistema iraniano dispostas a concordar com acordos de segurança aceitáveis e a trabalhar com a sociedade civil para implementar reformas internas.
Os diplomatas deveriam buscar apoio para tal estratégia junto aos aliados no Golfo e em outros lugares. Fundamentalmente, os funcionários da Casa Branca precisam começar a envolver o Congresso em seus planos e oferecer objetivos plausíveis ao público.
Esta guerra levanta a mesma questão que qualquer outra: “Diga como isso vai acabar.” O governo precisa encontrar uma resposta melhor, em breve.
O Conselho Editorial publica as opiniões dos editores sobre uma série de assuntos de interesse global.
—Editores: Nisid Hajari, Timothy Lavin.
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