Bloomberg Opinion — O AI Impact Summit, cúpula sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) realizada em Nova Délhi na semana passada, terminou da maneira como esses encontros costumam terminar.
Desta vez, com a “Declaração de Nova Délhi”, um hino não vinculativo à cooperação e à esperança de que “a IA possa ser feita para servir à humanidade”. É o tipo de linguagem vazia que dezenas de países e organizações internacionais podem assinar sem mudar nada.
A declaração mais reveladora veio da indústria. Horas antes da declaração ser divulgada, o CEO da OpenAI, Sam Altman, fez uma pequena conta moral em uma entrevista ao jornal The Indian Express. “As pessoas falam sobre quanta energia é necessária para treinar um modelo de IA”, disse ele, “mas também é necessária muita energia para treinar um ser humano. São necessários cerca de 20 anos de vida e toda a comida que você ingere durante esse tempo para se tornar inteligente.”
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Altman provavelmente quis fazer uma piada. No entanto, isso serviu como um lembrete preocupante de que as pessoas que conduzem a corrida pela IA estão começando a falar sobre criar filhos da mesma forma que falam sobre treinar máquinas. Lá se vai a IA com foco no ser humano.
A cúpula de Nova Délhi deveria ter sido um ponto de inflexão para as potências médias, da Índia e do Brasil ao Canadá. Em vez disso, mostrou o impasse que passou a definir a governança global da IA. As superpotências não vão se restringir de forma significativa, as empresas não vão optar por desacelerar e todos os outros estão assinando declarações vazias, impulsionados pelo medo de ficar para trás.
É possível perceber essa mudança nas próprias reuniões. O primeiro encontro em Bletchley Park, em 2023, foi chamado de cúpula de “Segurança” da IA. Esse termo foi retirado do título da cúpula de Seul, e o tema mudou para “Ação” em Paris e “Impacto” em Nova Délhi. Este ano, a Índia conseguiu que empresas pioneiras assinassem compromissos amplos para estudar o impacto da IA, mas mesmo esses compromissos são voluntários.
Enquanto isso, as potências médias não podem esperar que Washington ou Pequim assumam o controle. Só neste ano, espera-se que as gigantes americanas da tecnologia invistam coletivamente cerca de US$ 650 bilhões em IA.
Esses gastos astronômicos aceleram a implantação, mas também distorcem os incentivos, afastando-os da segurança e direcionando-os para a recuperação do retorno. E com grande parte da economia dos Estados Unidos agora impulsionada pelo boom tecnológico, a Casa Branca tem pouco interesse em regras que possam desacelerá-lo.
A China tem seus próprios laboratórios de segurança e compromissos voluntários das empresas. Mas o governo deixa pouco espaço para a pluralidade de opiniões ou o debate público sobre os riscos — especialmente se isso colidir com a ambição do presidente Xi Jinping de liderar o mundo em tecnologia. Não veremos uma liderança confiável em segurança surgir de Washington, e é improvável que ela venha de Pequim também.
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Ao mesmo tempo, os danos já se acumulam. Mulheres e meninas são despidas digitalmente, ciberataques exploram novas ferramentas em grande escala e relatórios associam suicídios de adolescentes ao uso de chatbots.
Os sistemas de IA estão se tornando exponencialmente mais poderosos, e a corrida por agentes, ou sistemas computacionais autônomos, apenas incentiva os humanos a ceder mais poder às máquinas, aumentando os temores de riscos mais existenciais.
Nessa corrida geopolítica, as esperanças de uma colaboração significativa entre os EUA e a China em matéria de segurança são cada vez mais uma fantasia.
Como foi sugerido em Davos, cada lado pode usar a aceleração do outro como álibi para justificar por que, mesmo que queiram desacelerar, não podem. É por isso que as potências médias são mais importantes do que nunca.
A Índia sediou o encontro deste ano explicitamente para se posicionar como uma ponte entre o resto do mundo e a rivalidade entre os EUA e a China.
Durante um evento paralelo sobre segurança, o cientista da computação e “padrinho da IA” Yoshua Bengio disse que, em última análise, cabe a esses governos se unirem e quebrar o impasse entre as superpotências antes que a IA concentre todo o poder. “Se você não está à mesa, você está no cardápio”, disse Bengio, citando as observações do primeiro-ministro canadense Mark Carney em Davos.
Por mais que esse apelo à ação se aplique ao comércio e à segurança, Bengio argumentou que ele também deve ser aplicado à IA. Buscar a benevolência de Washington ou Pequim em uma tentativa de sair na frente é uma estratégia contraproducente que consolida a dependência, não a soberania — muito menos a segurança.
Uma coalizão de potências médias não precisa superar os EUA ou a China na fronteira da IA. Ela só precisa condicionar o acesso a mercados de bilhões, bem como às suas escolas, hospitais, tribunais e redes elétricas, a compromissos mensuráveis de segurança.
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Elas podem começar com o essencial no curto prazo. Exigir a divulgação dos dados que alimentam essas ferramentas e o uso de energia necessário para treinar e executar modelos. Exigir avaliações de segurança padronizadas e independentes antes da implantação em domínios sensíveis, como policiamento ou política. Insistir na comunicação de incidentes e na transparência pública sobre falhas e riscos dos modelos.
A coisa mais fácil para os formuladores de políticas fazerem agora, alertou Bengio, é ouvir as vozes que os fazem se sentir bem — ou aquelas que pertencem predominantemente às pessoas que vendem a tecnologia.
Mas a reação organizada está crescendo, unindo pessoas de diferentes identidades e linhas políticas. “Os governos não farão nada até que a população em geral acorde”, disse ele.
Os famosos engarrafamentos de Delhi na semana passada se tornaram uma metáfora acidental para o debate global sobre segurança da IA: continuamos nos reunindo, todos tentam avançar e nada se move. Declarações não protegem as pessoas, regras sim.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Catherine Thorbecke é colunista da Bloomberg Opinion e cobre tecnologia na Ásia. Já foi repórter de tecnologia na CNN e na ABC News.
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