Não é só o hotel: Civitatis foca em personalização e quer planejar viagens completas

Empresa espanhola que elegeu o Brasil como uma das prioridades quer ser menos transacional e entender o contexto e os anseios de quem viaja para oferecer uma experiência mais completa, conta o novo CEO Andrés Spitzer à Bloomberg Línea

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Bloomberg Línea — Depois de quase duas décadas de crescimento acelerado, a empresa espanhola de excursões turísticas Civitatis virou o ano com uma aposta para acelerar o avanço internacional. A mudança de comando, oficializada no início do ano, foi o marco mais visível dessa virada.

Para Andrés Spitzer, que assumiu o cargo de CEO após um processo planejado de transição, a empresa chega a um novo estágio, menos focado apenas em escala e mais atento à relação com o viajante.

“Gostamos de dizer que neste ano a Civitatis chegou à maioridade, completou 18 anos”, disse Spitzer em entrevista à Bloomberg Línea.

“Depois de quase duas décadas de crescimento, acreditamos que a empresa entra em uma nova etapa de escala global, em que produto, tecnologia e, sobretudo, execução ganham mais peso.”

O executivo evitou caracterizar a mudança como uma ruptura. Segundo ele, o processo foi discutido ao longo de meses com o fundador Alberto Gutiérrez e refletiu a necessidade de adaptar a companhia a um novo patamar de complexidade operacional.

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“A troca de CEO foi algo planejado. Foi um processo natural”, afirmou.

Hoje, a Civitatis atende mais de 1,2 milhão de viajantes por mês, com crescimento de dois dígitos a cada ano e presença global. “Isso reflete a solidez do modelo e a confiança crescente dos viajantes”, disse.

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A principal aposta estratégica dessa nova fase está na personalização das experiências. A empresa lançou recentemente um novo aplicativo que marca uma mudança estrutural no produto.

“Até agora éramos muito transacionais”, disse Spitzer. “O viajante buscava uma atividade em um destino e pronto. Hoje, o usuário quer mais. Quer ajuda com personalização, quer que a gente entenda seu estilo de viagem e o contexto em que ele viaja.”

O novo app introduz o conceito de viagem como eixo central da experiência. “Antes, a ‘viagem’ não existia formalmente no nosso produto”, explicou. “Agora queremos acompanhar o viajante desde a inspiração até o retorno.”

Essa mudança é sustentada por um motor de recomendação baseado em dados e inteligência artificial. “Criamos um novo motor de recomendação, suportado por IA”, afirmou. “À medida que adicionamos mais contexto sobre o usuário, as recomendações ficam cada vez melhores.”

A ambição, segundo ele, é que o viajante use a plataforma para planejar itinerários completos, organizar atividades, receber sugestões de serviços complementares e, em breve, contar com soluções como conectividade móvel por eSIM durante a viagem.

A personalização também tem como objetivo aumentar a relevância da plataforma ao longo de toda a jornada do cliente. Spitzer afirmou que a maioria dos usuários da Civitatis já é recorrente, mas que há espaço para aprofundar essa relação.

“A maioria dos nossos clientes repete o uso da plataforma”, disse. “O que queremos agora não é só que repitam, mas que façam toda a viagem com a Civitatis.”

Segundo ele, quando o turista reserva várias experiências com a empresa, a percepção é de que a viagem foi mais bem aproveitada. “Se o viajante reserva várias experiências conosco, sabemos que ele vai conhecer melhor o destino”, afirmou.

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Esse movimento se apoia em uma estratégia de curadoria considerada rigorosa. Spitzer disse que a empresa rejeita entre 75% e 80% das experiências propostas por operadores. “Menos é mais. Nosso catálogo tem o que realmente ajuda a conhecer um destino”, afirmou.

Brasil como aposta estrutural

Dentro desse plano, o Brasil ocupa posição central. A América Latina é apontada como uma das principais alavancas de crescimento para os próximos anos, e o mercado brasileiro aparece como prioridade.

“O Brasil é um mercado fundamental para nós”, disse Spitzer. “A América Latina é uma aposta de futuro, e o Brasil tem uma oportunidade enorme.”

Ao longo do ano passado, a empresa já registrou um aumento de 31% no número de reservas de excursões feitas por brasileiros, além de uma alta de 22% no número de reservas de estrangeiros em visita ao Brasil. O crescimento acelerado justifica a atenção dada ao país e a ideia de buscar ainda mais nos próximos anos.

A empresa diz já ser líder na região no canal B2B, com uma rede de mais de 23.000 agências parceiras, e vem reforçando acordos estratégicos no país. Spitzer disse que novos anúncios devem ser feitos nos próximos meses.

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Além da escala, o executivo vê no Brasil uma conexão direta com a proposta de valor da companhia. Ele citou dados internos que indicam a existência de mais de 33 milhões de brasileiros com condições financeiras para viajar, mas que ainda enfrentam barreiras relacionadas ao idioma.

“Esse dado conecta muito bem com a nossa proposta de valor”, disse. “Não é só oferecer o tour em português. É entender a cultura, o humor e a forma de viajar do brasileiro.”

Por eassa razão, segundo ele, a estratégia passa por fortalecer a presença local. “Não queremos ser vistos como uma empresa espanhola no Brasil”, afirmou. “Queremos ser percebidos como uma empresa local.”

A Civitatis mantém equipes em diferentes países da América Latina e tem ampliado a operação no Brasil, com o objetivo de adaptar o produto ao mercado e, no médio prazo, ampliar também a oferta voltada ao turismo doméstico.

Curadoria importa

O novo CEO também vê a evolução tecnológica como resposta a transformações mais amplas no comportamento do turista. Ele disse que o modelo tradicional de busca está em contínua mudança, com usuários cada vez mais recorrendo a assistentes de inteligência artificial para planejar viagens de forma contextualizada.

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“As pessoas não esperam mais só resultados. Elas esperam respostas”, afirmou. Segundo ele, isso exige que plataformas como a Civitatis reorganizem seus conteúdos para permanecer relevantes.

Nesse contexto, o executivo posiciona a empresa como parte da solução para problemas como o overtourism.

“Plataformas como a nossa são parte da solução”, disse. “Ajudamos o viajante a descobrir destinos menos conhecidos mas que valem a pena.”

Segundo ele, há uma mudança clara na ordem de decisão do viajante.

“Cada vez mais as pessoas decidem primeiro o que querem fazer e só depois organizam a logística”, afirmou. “Isso abre espaço para mostrar destinos e experiências que antes ficavam fora do radar.”

Para Spitzer, a combinação de curadoria, tecnologia e personalização é o caminho para sustentar o crescimento da empresa em um setor que segue em expansão, mas que enfrenta desafios crescentes. “Queremos continuar crescendo”, disse. “Mas crescer ajudando quem viaja a ter experiências melhores.”

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