800 mil jovens em idade ativa: mundo pode escolher entre impulso produtivo ou crises

Estima-se que, nos próximos 10 a 15 anos, 1,2 bilhão de jovens estará em idade produtiva em países em desenvolvimento, que só devem ser capazes de gerar 400 milhões de empregos. É imperativo que o mundo consiga aproveitar esse motor

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Bloomberg Opinion — O mundo se move em diferentes ritmos. Alguns são mais intensos — guerras, tecnologias emergentes, pânico nos mercados —, que surgem rapidamente e dominam nossa atenção. Outros são mais lentos mas implacáveis: demografia, globalização, escassez de água e alimentos.

Os ritmos mais intensos parecem urgentes. Os mais lentos remodelam o sistema.

Isso não quer dizer que as crises não sejam importantes. Mas não podemos nos tornar vítimas da lenta combustão simplesmente porque a crise imediata é mais intensa ou domina mais as manchetes. Ignore a lenta combustão por tempo suficiente e ela se tornará um inferno.

Uma dessas forças já está em ação.

Nos próximos 10 a 15 anos, 1,2 bilhão de jovens em países em desenvolvimento atingirá a idade produtiva — uma escala que o mundo nunca viu.

Na trajetória atual, espera-se que essas economias gerem apenas cerca de 400 milhões de empregos nesse mesmo período — deixando uma lacuna de proporções impressionantes.

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Isso é frequentemente enquadrado como um desafio de desenvolvimento, e é mesmo. É também um desafio econômico. E é cada vez mais um desafio à segurança nacional.

O que chamou a atenção na conferência de Davos no mês passado foi a facilidade com que essa questão foi deixada de lado — ofuscada pela urgência do assunto do momento. Ela não deve ser ignorada em fóruns futuros, como a Conferência de Segurança de Munique, o G7 e o G20.

Se investirmos cedo nas pessoas e as conectarmos a trabalhos produtivos, essa vasta nova geração poderá construir vidas dignas e se tornar uma base para o crescimento e a estabilidade.

Se não o fizermos, as consequências são previsíveis: pressão sobre as instituições, migração irregular, conflitos e aumento da insegurança, à medida que os jovens buscam qualquer caminho disponível.

O Banco Mundial busca o primeiro caminho com urgência, reunindo finanças públicas, conhecimento, capital privado e ferramentas de gestão de risco em torno de uma estratégia de empregos baseada em três pilares.

Primeiro, criar infraestrutura — tanto humana quanto física. Sem energia, transporte, educação e saúde confiáveis, o investimento privado e os empregos nunca se materializam.

Embora o papel da infraestrutura física seja bem compreendido, o investimento nas pessoas é igualmente crítico.

Por exemplo, um centro de qualificação em Bhubaneswar, na Índia — apoiado em parceria com o governo e o setor privado — treina quase 38.000 pessoas por ano.

Como a preparação está alinhada com a demanda real do mercado, quase todos os formandos garantem um emprego — ou passam a criar empregos por conta própria, com o apoio de treinamento em engenharia, manufatura e propriedade intelectual.

Segundo, criar um ambiente favorável aos negócios.

Regras claras e regulamentações previsíveis reduzem a incerteza e facilitam a realização de negócios. Empregos são gerados quando empreendedores e empresas têm confiança para investir e expandir.

Os recursos públicos podem ajudar a desbloquear esse processo, mas a criação de empregos em grande escala depende do setor privado — especialmente de micro, pequenas e médias empresas, que geram a maior parte dos empregos.

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Isso nos leva ao terceiro pilar: ajudar as empresas a crescer.

Por meio de nossos braços do setor privado, fornecemos capital, financiamento, garantias e seguro contra riscos políticos.

Um modelo recente é uma garantia de financiamento comercial que apoia o Banco do Brasil, que vai liberar cerca de US$ 700 milhões em financiamento acessível para pequenas empresas brasileiras, especialmente na agricultura — canalizando capital para as empresas que impulsionam o crescimento local.

Nosso foco está onde o potencial de emprego é maior, nos cinco setores que geram empregos em grande escala de forma consistente: infraestrutura e energia, agronegócio, saúde primária, turismo e manufatura de valor agregado.

Isso não é uma teoria abstrata. É baseado em evidências, experiência do país e escolhas difíceis sobre onde recursos limitados geram o maior impacto.

Também não é uma proposta de soma zero.

Até 2050, mais de 85% da população mundial viverá em países em desenvolvimento.

Isso representa não apenas a maior expansão da força de trabalho global da história mas também o maior crescimento de consumidores, produtores e mercados no futuro.

Sejam as motivações o desenvolvimento, o altruísmo, os retornos ou a segurança, há um papel e uma recompensa para investir energia e recursos nesse esforço.

Os países em desenvolvimento se beneficiam porque os empregos geram renda, estabilidade e dignidade. Eles fortalecem a demanda interna e dão aos jovens uma razão para investir em seu futuro em casa, em vez de procurar em outro lugar.

Os países desenvolvidos também ganham.

À medida que as economias em desenvolvimento crescem, os países se tornam parceiros comerciais mais fortes, âncoras mais resilientes da cadeia de suprimentos e vizinhos mais estáveis.

O crescimento desses mercados expande a demanda global e reduz as pressões que impulsionam a migração irregular e a insegurança — resultados que acarretam custos econômicos e políticos reais muito além das fronteiras.

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E, para o setor privado — tanto instituições financeiras quanto operadores —, isso representa uma das maiores oportunidades das próximas décadas.

O rápido crescimento populacional significa demanda sustentada por energia, sistemas alimentares, saúde, infraestrutura, habitação e manufatura.

A restrição nunca foi a falta de oportunidades mas o risco real e percebido. É aí que as instituições de desenvolvimento podem desempenhar um papel catalisador: financiando infraestrutura, apoiando reformas regulatórias e reduzindo riscos.

Se fizermos isso da maneira certa, as forças de baixa frequência que moldam o mundo — neste caso, a demografia — se tornarão motores de crescimento e estabilidade, em vez de fontes de volatilidade e risco.

Se fizermos isso da maneira errada, continuaremos perseguindo crises — reagindo a resultados que eram visíveis anos, até décadas, antes.

A escolha não é se essas forças moldarão o futuro. Elas o farão. A escolha é se agiremos antecipadamente e as direcionaremos para oportunidades — ou se esperaremos até que elas cheguem como instabilidade.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Ajay Banga é presidente do Grupo Banco Mundial.

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