Bloomberg Opinion — As ambições de liderança do Brasil estão passando por um momento difícil.
A intervenção histórica da Casa Branca na Venezuela expôs a impotência geopolítica da maior economia da América Latina.
Os Estados Unidos não apenas destituíram o líder de um país sul-americano em questão de horas sem sofrer uma única baixa, como também instalaram efetivamente um protetorado em uma nação que compartilha cerca de 2.200 quilômetros de fronteira com o Brasil.
A resposta de Brasília resumiu-se a pouco mais do que um comunicado conjunto com cinco aliados ideológicos, expressando “profunda preocupação” com a incursão militar unilateral. Palavras cuidadosas, rancores particulares, ação mínima.
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Não precisava ser assim. Se os EUA se sentiram encorajados a realizar uma operação sem precedentes na Venezuela, desconsiderando a diplomacia e o direito internacional, foi em parte porque o Brasil passou anos interpretando mal a crise e deixando de agir sobre o conflito mais grave que a América Latina enfrentou neste século, que se desenrolava bem na sua fronteira norte.
Como autoproclamado líder da região e aspirante a potência global, o Brasil deveria ter estado na vanguarda dos esforços para conter o chavismo e responsabilizá-lo por suas flagrantes violações dos direitos humanos e pelo desmantelamento sistemático da democracia.
Em vez disso, permitiu que um regime cada vez mais autoritário se consolidasse, com um custo enorme para a estabilidade regional, o sofrimento humano e os fluxos migratórios.
Às vezes, o Brasil fez mais do que apenas se manter taticamente à margem; ele possibilitou o regime de Caracas.
O caso mais flagrante ocorreu em maio de 2023, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estendeu o tapete vermelho para Nicolás Maduro, descartando as acusações de ditadura como mera “narrativa” destinada a enfraquecer o governo da Venezuela.
Apesar de ostentar o corpo diplomático mais sofisticado da região, profundo conhecimento institucional da Venezuela e extensas redes regionais, a política externa partidária de Lula — mais sintonizada com a política interna e sua base de esquerda do que com os princípios democráticos — provou ser um fracasso espetacular.
Com o tempo, mesmo mediadores distantes, como a Noruega ou o Catar, gozaram de maior credibilidade como intermediários honestos na Venezuela do que o Brasil.
Avançando para 2026, não é exagero dizer que o Brasil, talvez ao lado de Cuba, emergiu como o maior perdedor da reorganização geopolítica orquestrada pela Casa Branca de Donald Trump.
Hoje, Brasília é pouco mais do que uma espectadora de uma complexa experiência de construção nacional que se desenrola em sua fronteira amazônica, com pouca influência e ainda menos voz.
Para um país que aspira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, esse papel diminuído deve provocar uma reflexão incômoda.
Nas últimas duas décadas, o Brasil investiu pesadamente em projetos diplomáticos grandiosos, mas ineficazes, como o Brics, abraçou slogans sobre o “Sul Global” e sediou todos os eventos internacionais de destaque, das Olimpíadas às cúpulas climáticas.
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No entanto, negligenciou o requisito mais básico da liderança: manter a ordem em sua própria vizinhança.
Pior ainda, Brasília convenientemente ignorou décadas de trabalho institucional regional destinado a oferecer respostas coletivas ao retrocesso democrático.
De fato, como outros observaram, o Brasil liderou grande parte da esquerda da região ao camuflar a indiferença à deriva autoritária com respeito à soberania, acabando por pavimentar o caminho para a intervenção direta dos EUA.
Esse erro moral é especialmente lamentável porque o Brasil tem muito a oferecer na reformulação da governança global: respeito às normas institucionais e aos valores democráticos, uma burocracia estatal competente, uma tradição de resolução pacífica de disputas e vastos recursos estratégicos.
Mas o multilateralismo não pode servir de desculpa para a paralisia ou, pior ainda, como cobertura para regimes criminosos, como a Venezuela demonstrou repetidamente.
A abordagem de Trump pode ser questionável. No entanto, para muitos na região, especialmente os milhões de venezuelanos que sofrem há muito tempo, Washington está pelo menos propondo um caminho a seguir.
O Brasil, por outro lado, ofereceu apenas mais do status quo e a pretensão de que o conflito não existia.
Mais preocupante ainda é a suspeita de que alguns formuladores de políticas estejam secretamente torcendo para que a estratégia de Trump fracasse, permitindo que o Brasil recupere sua relevância por omissão.
Isso apenas agravaria o erro original. Uma Venezuela democrática, próspera e livre deve estar entre as principais prioridades do Brasil, independentemente de cálculos geopolíticos mesquinhos. Ajudar a alcançar esse objetivo elevaria a posição do Brasil na região — e não a diminuiria.
Então, o que vem a seguir? Notavelmente, Lula optou pela cautela, concentrando-se no acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul e contendo seu instinto de longa data de recorrer à retórica antiamericana, mesmo com as eleições se aproximando.
Seja por intenção ou circunstância, a decisão de Trump de fazer as pazes com o líder brasileiro semanas antes de sua ofensiva contra a Venezuela provou ser estrategicamente astuta. Lula agora se vê encurralado, incapaz de confrontar Washington sem comprometer uma frágil distensão.
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Nesse sentido, Trump deu uma lição salutar de pragmatismo ao octogenário ex-líder sindical, que costuma ser rígido em questões de relações exteriores.
Por enquanto, Brasília deve manter a cabeça baixa e voltar aos seus pontos fortes tradicionais em matéria de política externa: defender a democracia e, ao mesmo tempo, pressionar por uma reforma significativa do sistema internacional, num momento em que o multilateralismo enfrenta seu maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial.
Como me disse Bruna Santos, diretora do Programa Brasil do Diálogo Interamericano, o Brasil não só perdeu influência e capacidade de coordenação na região, como também aumentaram os riscos de um desalinhamento estratégico em relação a Washington.
“É do próprio interesse do Brasil”, disse ela, “mostrar que o multilateralismo precisa de reformas, inclusive no Conselho de Segurança da ONU”.
O Brasil não está sozinho nessa tragédia; outros países latino-americanos compartilham da responsabilidade. Mas a liderança não é declarada, ela é conquistada. E na Venezuela, o Brasil desperdiçou sua oportunidade mais clara em uma geração de provar que merecia essa distinção.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.
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