Nelson Tanure desfaz posição na Prio para pagar seus credores, segundo fontes

Investidor abriu mão de quase toda a sua participação na petrolífera considerada a joia da coroa de seu império, segundo pessoas a par do assunto que falaram com a Bloomberg News; Tanure não respondeu a pedido de comentário sobre o caso

O investidor Nelson Tanure tem participações em empresas listadas em bolsa e também de capital privado, montadas ao longo de anos
Por Cristiane Lucchesi - Rachel Gamarski - Vinicius Andrade - Matheus Piovesana
14 de Janeiro, 2026 | 05:51 PM

Bloomberg — O veterano investidor brasileiro Nelson Tanure abriu mão de quase toda a sua participação em uma petrolífera considerada a joia da coroa de seu império para pagar credores, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que falaram com a Bloomberg News.

Tanure detinha cerca de 20% da Prio (PRIO3), disse uma das pessoas, que pediu para não ser identificada porque a informação não é pública.

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Mais de 17% da empresa foi dada como garantia para um empréstimo do Credit Suisse, disseram as pessoas, e essa posição foi desfeita no ano passado pelo UBS quando comprou o banco e buscou reduzir a exposição ao empresário.

Quase todas as ações restantes de Tanure na Prio foram vendidas para pagar outras dívidas, acrescentaram as pessoas.

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A venda forçada de sua participação na Prio é mais um revés para Tanure. Conhecido por suas investidas oportunistas em ativos problemáticos, ele enfrenta uma crise de crédito devido à queda do valor das ações de muitas de suas empresas e ao escrutínio sobre seus laços com o Banco Master, liquidado em novembro de 2025 sob acusação de fraude.

Tanure não respondeu a um pedido de comentário da Bloomberg News sobre a Prio.

Seu advogado divulgou um comunicado em que diz que não tem relação de natureza societária com o Banco Master, do qual foi cliente nos últimos anos.

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A Prio disse que, na qualidade de companhia aberta, não comenta participações individuais de acionistas, exceto nos casos de divulgação previstos na regulamentação aplicável. O UBS não quis comentar.

Tanure ajudou a transformar a Prio em uma das maiores petrolíferas do Brasil.

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Seu envolvimento começou em 2013, quando adquiriu uma participação na produtora em dificuldades HRT. A empresa mudou seu nome para Petro Rio em 2015, antes de adotar seu código de negociação na bolsa como nome oficial em 2022. O filho de Tanure, Nelson Queiroz Tanure, é o presidente do conselho da Prio e mantém uma participação acionária de mais de 1%.

Quando Tanure investiu na Prio, a empresa era avaliada em cerca de R$ 200 milhões. A Prio agora vale mais de R$ 38 bilhões, e suas ações subiram cerca de 5,5% neste ano.

Ainda no ano passado, Tanure tentava comprar o controle de uma das maiores empresas petroquímicas do mundo, a Braskem (BRKM5), bem como de uma das maiores redes de supermercados do Brasil, o GPA (Grupo Pão de Açúcar, PCAR3).

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Mas ele está atualmente no centro das atenções por causa do Banco Master, cujo então acionista controlador e CEO foi preso em novembro em uma investigação por suspeita de fraude.

Uma nova fase da investigação sobre o banco foi iniciada nesta quarta-feira (14), com a Polícia Federal mirando especificamente Tanure, entre outros executivos.

O advogado de Tanure disse em comunicado que a única medida que lhe foi imposta foi a apreensão de seu aparelho de telefone celular, acrescentando que, “no decorrer das apurações promovidas pelo STF, restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita.”

As altas taxas de juros no Brasil também estão afetando Tanure e algumas de suas empresas.

As ações da Alliança Saúde (AALR3), da qual ele é acionista, caíram mais de 80% desde o pico em agosto de 2023, enquanto as da Gafisa, da qual ele é também um dos principais investidores, estão próximas de mínimas históricas.

Tanure possui participação na Ligga, que não tem ações negociadas em bolsa, mas vem registrando prejuízos, bem como na Light (LIGT3), que luta para sair do processo de recuperação judicial iniciado em meados de 2024.

Ele também havia acumulado uma posição acionária na Ambipar (AMBP3), de gestão de resíduos, antes que ela entrasse com pedido de recuperação judicial em outubro passado.

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A situação na Ligga tornou-se tão difícil que Tanure teve que renegociar uma dívida com o BTG Pactual e o Santander, bem como com os fundos de investimento Prisma Capital e Farallon Capital Management em dezembro, disseram as pessoas.

Tanure vendeu ações da Prio para quitar cerca de R$ 1,5 bilhão em principal e juros do empréstimo, disseram as pessoas, mas foi então obrigado a oferecer imóveis pessoais como garantia para adiar pagamentos adicionais de R$ 1,4 bilhão a esses credores.

Tanure não respondeu a um pedido de comentário da Bloomberg News sobre a Ligga. O Prisma não quis comentar. BTG Pactual (BPAC11), Santander (SANB11) e Farallon não responderam imediatamente às mensagens solicitando comentários.

Tanure também ofereceu ações da Empresa Metropolitana de Águas e Energia, a Emae, como garantia em uma emissão de títulos locais que não foi paga no ano passado. Essas ações foram tomadas pelos credores e a Emae foi vendida para a Sabesp (SBSP3).

Em um esforço para obter liquidez, Tanure tem trabalhado com o Rothschild como assessor para tentar vender a Ligga e com o BTG Pactual na venda da Alliança, de acordo com as fontes.

O Rothschild não quis comentar e o BTG não respondeu ao pedido de comentário.

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