Este investidor europeu virou uma estrela do Vale do Silício. E já pensa na sucessão

Danny Rimer, da Index Ventures, transformou a gestora europeia em uma das mais bem-sucedidas da indústria, com apostas em nomes como Wiz, Robinhood, Revolut e Anthropic; aos 55 anos, avança na sucessão, de forma a perpetuar sua história

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Bloomberg — Danny Rimer, sócio da Index Ventures, acaba de ter de um dos melhores anos de sua carreira na indústria de venture capital. Agora, aos 55 anos, chegou o momento de pensar em aposentadoria.

Isso não tem relação alguma com o desempenho dele ou da gestora. Depois de começar como uma boutique de investimentos administrada por uma família, a Index evoluiu para se tornar possivelmente a mais bem-sucedida empresa de venture capital com origem na Europa.

Enquanto muitos VCs têm dificuldade para entregar retornos, a casa colheu uma sequência de saídas - “exits”- lucrativas.

O que começou como um investimento de US$ 2 milhões na empresa de design web Figma transformou-se em uma participação de US$ 2,2 bilhões após o IPO realizado no ano passado.

E a Index pode em breve gerar bilhões adicionais com sua aposta na Wiz, startup israelense de cibersegurança que o Google concordou em comprar.

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Dois fundos da Index produziram resultados muitas vezes acima da média do setor, segundo duas pessoas familiarizadas com os pagamentos feitos aos investidores que falaram com a Bloomberg News.

Os detalhes desses fundos, que não haviam sido divulgados anteriormente, mostram que a Index é um peso-pesado entre investidores em startups.

“É o único VC europeu que conseguiu vencer nos Estados Unidos”, disse Julien Codorniou, ex-executivo do Facebook e sócio da 20VC, prolífica gestora de investimentos em startups com sede em Londres. “Não era algo garantido.”

Se os reguladores aprovarem a aquisição da Wiz pelo Google, a Index deve embolsar cerca de US$ 9 bilhões em ganhos realizados e participações ainda não vendidas provenientes de seis saídas em 2025, segundo documentos públicos e uma pessoa familiarizada com as finanças da gestora.

Ao longo dos últimos 30 anos, a firma captou cerca de US$ 15 bilhões junto a investidores externos.

A permanência de sua popularidade junto a esses investidores se deve a apostas bem posicionadas em algumas das poucas empresas de tecnologia que abriram capital na última década — entre elas Roblox, Robinhood Markets e Datadog —, além da decisão de resistir à tentação de seguir concorrentes maiores para áreas como criptoativos, defesa ou gestão de patrimônio.

A Index também guarda outro trunfo: é uma das maiores acionistas da Revolut, fintech avaliada em US$ 75 bilhões - a mais valiosa do mundo que segue como empresa privada - que se prepara para abrir capital.

Gestoras de venture capital normalmente não promovem grandes mudanças quando atravessam uma fase de forte desempenho. Ainda assim, há alguns anos a liderança da Index decidiu que, quando os sócios investidores chegam à faixa dos 50 e poucos anos, precisariam abrir espaço para uma nova geração.

“Sucessão é algo que abraçamos, em vez de simplesmente torcer para que tudo dê certo”, disse Rimer em entrevista à Bloomberg News.

Agora, a questão é saber se ele fará isso em breve. A gestora se define como uma sociedade igualitária, com oito investidores dividindo o equity, as taxas de performance e as responsabilidades de decisão.

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Ainda assim, Rimer há muito tempo é o nome mais conhecido, graças ao seu histórico e ao sobrenome: ele é o membro mais jovem da família fundadora da Index.

Rimer, que nasceu na Suíça e fez aniversário em setembro, disse não ter “nenhuma intenção de se aposentar”, mas afirmou que a decisão cabe ao grupo. “Vai depender da sociedade como um todo”, disse, sorrindo.

Linha de sucessão

Ele destacou, porém, quatro colegas mais jovens como integrantes da próxima geração de liderança: Shardul Shah, Nina Achadjian, Martin Mignot e Jan Hammer.

Caso assumam mais protagonismo, eles terão de imprimir sua própria marca à gestora. Também precisarão manter o ritmo em um momento em que o setor enfrenta dificuldades para captar recursos, bancos avançam sobre o mercado e a corrida por investimentos em inteligência artificial muda a forma de investir.

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Neil Rimer, irmão mais velho de Danny, fundou a Index em 1996, em Genebra, na Suíça,, a partir da empresa do pai, redirecionando a corretora familiar de títulos em francos suíços para startups de tecnologia.

Depois de uma passagem pela Califórnia como analista de investment banking, Danny entrou na firma em 2002. Três anos depois, a Index teve seu primeiro grande acerto, quando o eBay comprou o serviço de chamadas digitais Skype, fundado na Estônia, por US$ 2,6 bilhões.

Na época, o continente europeu tinha poucas startups de tecnologia capazes de atrair a atenção do Vale do Silício — e ainda menos investidores dispostos a financiá-las.

“Venture capital na Europa era algo muito novo naquele período”, disse Kathryn Mayne, diretora-gerente da Horsley Bridge Partners, investidora da Index. “Eles foram verdadeiros pioneiros.”

Danny Rimer voltou à Califórnia em 2011 e abriu o escritório da Index em San Francisco, ao norte das áreas tradicionalmente ocupadas por VCs.

Colecionador de arte, apoiou empresas com apelo criativo, como Patreon e Glossier, e investiu cedo na então promissora startup de design Figma, passando depois a integrar seu conselho.

No início, Rimer sentia que os concorrentes não levavam sua obscura firma europeia muito a sério. “Foram tempos assim”, disse.

Dylan Field, CEO da Figma, descreveu o estilo da Index como algo “muito focado em relações pessoais”, lembrando-se de quando Rimer apareceu para cantar karaokê na comemoração do IPO da empresa.

Shah, sócio da Index baseado em Nova York, afirmou que a gestora tem talento para “conectar o Vale do Silício e a Europa” ao buscar startups com laços transatlânticos, como a Datadog, cujos fundadores franceses lançaram a empresa nos Estados Unidos.

Achadjian, principal sócia da Index em San Francisco, destacou que os funcionários da firma falam mais de 40 idiomas.

O sucesso da Index sugere que essa abordagem funciona.

Um indicador-chave para medir o sucesso de uma gestora de venture capital é o DPI (distributions to paid-in capital), que mostra quanto um fundo devolve aos investidores.

Em 2024, a empresa de pesquisa Cambridge Associates informou que o DPI médio de fundos iniciados em 2012 era de 1,5 — ou US$ 1,50 devolvido para cada dólar investido.

O fundo da Index de 2012, que incluía participações na Figma, tinha um DPI de 11 no ano passado, segundo duas pessoas familiarizadas com os números. Um fundo de growth de US$ 780 milhões levantado pela Index em 2015 registrou DPI de 5,1, segundo as mesmas fontes.

A Index se recusou a comentar seu desempenho financeiro.

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Apesar dos retornos extraordinários, a Index não é um nome conhecido fora do Vale do Silício — ou mesmo dentro dele.

A gestora não levantou fundos gigantescos e seus sócios em geral evitam autopromoção nas redes sociais. Achadjian descreveu a marca da empresa assim: “Quem sabe, sabe”.

Algumas das mais proeminentes firmas de venture capital não fracassaram por maus investimentos mas por um planejamento de sucessão deficiente.

A Kleiner Perkins Caufield & Byers, que já foi a mais lendária gestora de venture capital do Vale do Silício, perdeu relevância depois que líderes veteranos não passaram o bastão a sócios mais jovens, que acabaram migrando para concorrentes.

“Foi basicamente um desastre”, disse Sebastian Mallaby, senior fellow do Council on Foreign Relations e autor de The Power Law, livro de 2022 sobre o setor (um porta-voz da Kleiner Perkins se recusou a comentar).

Mallaby contrapôs o exemplo da Kleiner Perkins ao de outra gestora do Vale do Silício, a Sequoia, onde líderes costumam atuar por um período definido ou são afastados por votação.

Em novembro, sócios da Sequoia destituíram o então líder da firma, Roelof Botha, após apenas três anos no cargo, depois de disputas políticas e divergências estratégicas. Segundo Mallaby, a capacidade da Sequoia de conduzir essas transições de liderança foi essencial para sua continuidade.

Na Index, a velha guarda de sócios ainda domina boa parte dos negócios. Rimer liderou o investimento na Discord, plataforma de mensagens que, segundo reportagem recente da Bloomberg News, busca um IPO de forma confidencial.

Mike Volpi, sócio veterano em San Francisco que se aposentou da Index em 2023, liderou o investimento na Scale AI, que vendeu 49% de participação à Meta no ano passado. O negócio gerou ganhos de US$ 1,8 bilhão para a Index, segundo uma pessoa familiarizada com os números.

As outras saídas da firma em 2025 — na Nexthink, empresa suíça de software; na Dream Games, desenvolvedora turca de aplicativos; e na Wealthfront, robô-advisor — também envolveram Volpi e os irmãos Rimer, que juntos elaboraram o plano de sucessão da Index.

Aposentar-se antes dos 60 anos é incomum em um setor baseado em relacionamentos como o venture capital, no qual alguns investidores seguem ativos até a sétima década de vida (Volpi, que segundo a Index manteve assentos em conselhos, fundou sua própria gestora após deixar a firma aos 56 anos).

Retenção de talentos

A abordagem da Index, porém, reflete menos uma questão etária e mais um esforço para evitar problemas de transição. “Se você não abrir espaço, vai perder gente excelente”, disse Mayne, investidora dos fundos da Index.

Como a Index é estruturada como uma sociedade igualitária, não há um líder formal. Embora algumas firmas de venture capital façam esse modelo funcionar, normalmente contam com uma figura de referência — como Bill Gurley, da Benchmark — para atrair capital e startups.

Com base nos negócios recentes, esse papel pode caber a Shah. Depois de ingressar como estagiário em 2008, ele se especializou em cibersegurança e software corporativo e hoje codirige o escritório de Nova York.

Shah liderou as rodadas iniciais da Wiz, empresa de cibersegurança de Assaf Rappaport, investindo ao longo do tempo mais de US$ 240 milhões.

“Não importava qual empresa ele estivesse criando”, disse Shah sobre Rappaport, cujo projeto anterior ele também financiou. Com a venda ao Google, a participação da Index na Wiz agora vale US$ 4,1 bilhões, segundo uma pessoa familiarizada com as finanças da gestora.

Shah, que deixou de tomar decisões de investimento por Zoom e passou a priorizar reuniões presenciais, descreve o estilo da Index como “centrado em pessoas”.

Em uma rara entrevista, o investidor de 42 anos reconheceu, porém, que pode soar enigmático ou direto demais, dependendo de quem o escuta.

“Os israelenses acham que sou educado demais e os americanos acham que não sou educado o suficiente”, disse. “A verdade está em algum ponto intermediário.”

Outros nomes em ascensão na Index incluem Mignot, investidor francês radicado em Nova York que liderou a grande participação da firma na britânica Revolut, operação que pode render ainda mais do que a Wiz.

E Hammer, sócio tcheco baseado em Londres, que se destacou por apostas iniciais em fintechs como a Robinhood.

Ambos ingressaram na Index em 2010 e são próximos de Rimer, mas não são muito conhecidos no Vale do Silício, o que os mantém um pouco afastados do epicentro da febre de investimentos em IA.

Aumentar a visibilidade da gestora na Califórnia pode ficar a cargo de Achadjian, que entrou na Index vinda do Google em 2017. Ela reconheceu que a competição acirrada e os valuations elevadíssimos e imprevisíveis associados a startups de IA criaram “um dos ambientes de investimento mais difíceis” até hoje.

Dada a rapidez com que a sorte de uma startup de IA pode mudar, afirmou, “é preciso escolher pessoas extremamente resilientes”.

Até agora, a Index adotou uma postura relativamente cautelosa — a firma não financiou nenhuma startup da moda voltada a programação com IA e, antes do último verão nos EUA, havia investido apenas em dois concorrentes de alto risco da OpenAI: a canadense Cohere e a francesa Mistral.

Agora, para alguns observadores, a gestora parece correr atrás do prejuízo. Achadjian, Mignot e Shah lideraram recentemente investimentos em startups de IA em early stage.

Em setembro, a Index participou de uma rodada de financiamento da Anthropic com avaliação de US$ 183 bilhões, negócio que lhe dá exposição a um dos principais desenvolvedores de IA, mas dificilmente renderá um retorno de 11 vezes o capital.

Com a indústria de venture capital em transformação, Achadjian descreveu a filosofia de transição da Index como um sinal de foco no longo prazo. “É uma questão de clareza”, disse. “Há muita ambiguidade no venture capital.”

Ela ainda tem quase duas décadas até completar 55 anos.

-- Com a colaboração de Neil Callanan.

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