Bloomberg Opinion — Em se tratando de escândalos financeiros, este tem de tudo: um executivo extravagante e conectado politicamente enfrentando os titãs financeiros do Brasil com um banco de rápido crescimento, construído sobre táticas agressivas e engenharia financeira exótica, um colapso espetacular em meio a alegações de fraude de bilhões de dólares, e uma prisão no aeroporto justamente quando o empresário estava prestes a deixar o país em seu jato particular. Um roteiro digno de filme.
A queda de Daniel Vorcaro e de seu Banco Master agora se espalha pelos círculos empresariais e bancários do Brasil, a mais recente implosão corporativa a abalar a maior economia da América Latina. E por uma boa razão: a liquidação do banco provocou a maior intervenção da história dos mercados financeiros brasileiros.
O desastre do Banco Master encerra um ano turbulento para as empresas brasileiras. Mais cedo, neste mês, a operadora de telecomunicações Oi foi declarada falida e colocada em liquidação após duas tentativas fracassadas de recuperação judicial, entre as mais complexas da história recente (como é típico no sistema jurídico brasileiro, a decisão foi revertida poucos dias depois).
Leia mais: Daniel Vorcaro, CEO do Banco Master, nega fraude de R$ 12 bi em vendas ao BRB
Em setembro, a empresa de gestão de resíduos Ambipar Participações e Empreendimentos entrou inesperadamente em um processo semelhante a um default, fazendo com que suas ações e títulos despencassem. Quase ao mesmo tempo, a Braskem, maior petroquímica da América Latina, contratou assessores para fortalecer sua estrutura de capital, provocando rebaixamentos de notas de crédito por temores de uma iminente reestruturação da dívida. E há o caso da Raízen, a gigante dos biocombustíveis que se tornou uma penny stock.
A lista continua — e em todos os casos, estes eventos de estresse testam a resiliência das instituições de mercado e dos reguladores brasileiros, ao mesmo tempo em que desgastam a paciência (e os bolsos) dos investidores.
Há muitos fatores diferentes por trás desta onda de crises corporativas — mudanças nas condições de mercado, modelos de negócios falhos, custos de financiamento mais altos ou irregularidades flagrantes. E, para sermos justos, falências empresariais acontecem em todos os lugares.
Considere a recente falência da fornecedora de autopeças dos EUA, a First Brands, que deixou algumas das instituições mais sofisticadas de Wall Street em apuros. Ironicamente, o que estes casos têm em comum é que, uma vez que finalmente explodem, os sinais de alerta frequentemente parecem gritantemente óbvios em retrospectiva — pelo menos para quem estiver disposto a olhar atentamente.
Ainda assim, não devemos subestimar o impacto desses choques repetidos no mundo corporativo do Brasil. Não faz muito tempo, os investidores foram pegos de surpresa pelo colapso repentino da varejista Americanas, outrora uma joia da coroa do capitalismo brasileiro. E, há ainda mais tempo quem pode esquecer o colapso histórico de Eike Batista e sua sopa de letrinhas de startups de commodities com a marca X?
Todos esses casos ressaltam a necessidade de o Brasil de intensificar a supervisão, aprimorar sua abordagem regulatória aos mercados e fortalecer os direitos dos investidores, clientes e fundos de pensão.
Se os mercados de capitais funcionam com base na confiança, então episódios repetidos de quebras bancárias e corporativas inevitavelmente corroerão a confiança de que o sistema funciona para todos — especialmente para os investidores menores, sem as vantagens de escala e acesso. Num país onde os crimes financeiros raramente resultam em prisão, e onde o regulador do mercado mal age, os incentivos para infringir as regras continuam fortes demais.
Leia mais: Banco Master alugou escritório mais caro de Miami. O local está hoje abandonado
O boom do crédito privado e de outras ferramentas complexas só agrava o desafio, aumentando a opacidade no Brasil e em outros lugares, e forçando os reguladores a atualizarem suas estratégias e a destinarem orçamentos maiores.
“Os emissores corporativos brasileiros enfrentam pressão crescente devido ao financiamento por meio dos mercados de capitais de dívida locais e à sua dependência cada vez maior do crédito privado”, observou a Fitch Ratings em um relatório recente.
“O crescente estresse de crédito decorrente de falhas de governança, pressões de liquidez e baixo desempenho operacional tem levado a um aumento nas ações negativas de rating.”
O Brasil deu grandes passos na última década, incluindo uma expansão significativa dos mercados de capitais. Suas empresas são mais sofisticadas e inovadoras e, desde o escândalo de corrupção da Lava Jato em 2014, adotaram práticas mais rigorosas de compliance e de compras, além de se tornarem mais transparentes com as partes interessadas.
No entanto, as dificuldades corporativas deste ano mostram o quanto ainda precisa ser feito para construir um capitalismo resiliente. Rebeldes corporativos sempre tentarão burlar o sistema, portanto, os órgãos reguladores também devem aprimorar suas capacidades de supervisão e fiscalização, enquanto permanecem vigilantes em relação ao que não sabem.
É por isso que a investigação sobre o colapso do Banco Master não deve se limitar a examinar alegações de fraude e influência política indevida, mas também determinar como fundos de investimento que prometiam retornos impossíveis puderam ser distribuídos por meio de plataformas estabelecidas, mesmo diante de claros sinais de alerta.
Parece haver uma brecha regulatória nesse potencial conflito de interesses que o banco central está agora tentando abordar. Os parlamentares deveriam oferecer à autoridade bancária ferramentas adicionais para lidar com esses casos.
Sim, os poupadores estarão em grande parte protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — mas ao custo de mais de R$ 40 bilhões que precisarão ser repostos por outras instituições participantes. Fundos de pensão de servidores públicos talvez não tenham a mesma sorte.
Leia mais: Ascensão do Banco Master e de Daniel Vorcaro estava na mira de autoridades
Para começar, os bancos que oferecem retornos muito acima da média do mercado com a garantia implícita de seguro de depósitos deveriam, pelo menos, ser analisados mais de perto. Até mesmo Bernie Madoff ficaria impressionado com uma instituição que multiplica seus ativos por vinte vezes em apenas cinco anos, como fez o Master.
A boa notícia é que este caso não parece representar um risco sistêmico para o sistema bancário do Brasil, visto que o Banco Central, em última análise, fez o que se esperava ao liquidar o Master, apesar das pressões contra a medida.
A má notícia é que isso ainda prejudica a credibilidade do sistema como um todo em um país que vem fazendo avanços promissores em educação financeira e cultura de investimentos. Essa é uma grande lição que todos que se preocupam com um capitalismo brasileiro mais saudável deveriam ter em mente.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Juan Pablo Spinetto é colunista da Bloomberg Opinion e cobre negócios, assuntos econômicos e política da América Latina. Foi editor-chefe da Bloomberg News para economia e governo na região.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Petrobras reduz em 2% o plano de investimentos até 2030 diante de baixa do petróleo
BV aguarda queda da inadimplência para retomar expansão do crédito, diz CEO
De olho em demanda por praticidade, Unilever entra no mercado de refeições prontas