O começo mais desafiador do Nubank no México, segundo o Bradesco BBI

Analistas do banco destacam em relatório que o crescimento do crédito está abaixo da média do mercado, enquanto a inadimplência é mais alta

Sede do Nubank em São Paulo
27 de Abril, 2023 | 12:33 PM

Bloomberg Línea — Os principais indicadores de crédito para a operação do Nubank (NU) no México parecem indicar um “começo desafiador”. Essa é a análise de Gustavo Schroden, Otavio Tanganelli, Eric Ito e Camila Koga, do Bradesco BBI, em relatório distribuído a clientes nesta quarta-feira (26).

Para os analistas do BBI, que analisaram dados de dezembro passado a fevereiro deste ano, o crescimento dos empréstimos do Nubank no México é mais lento do que o da indústria e a fintech tem níveis mais altos de empréstimos inadimplentes (chamados de NPLs, non-performing loans), menor índice de cobertura de empréstimos, custo considerável de risco e margens negativas após as provisões.

O Nubank é o maior banco digital do mundo listado em bolsa e virou uma referência para análises de fintechs bancárias. A fintech brasileira fundada pelo colombiano David Vélez junto com a brasileira Cristina Junqueira e o americano Edward Wible em 2014 enfrenta o ambiente de juros mais altos, assim como todos os players do setor financeiro, o que encarece os custos de funding.

As ações do banco na Bolsa de Nova York acumulam ganhos acima de 20% neste ano - até o fechamento na quarta-feira (26) a US$ 4,94 -, mas ainda estão 45% abaixo dos US$ 9 no IPO em dezembro de 2021.

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“É importante ressaltar que ainda são apenas três meses de análise e que a operação está em estágio inicial. Dito isso, os números iniciais do Nu México indicam para nós que a monetização na região pode ser desafiadora”, dizem os analistas no relatório.

Segundo o BBI, esses indicadores sugerem que a subsidiária do Nubank no México se comporta mais como uma “sociedade financeira popular” (SOFIPO) do que como um banco (Banca Múltiple).

Em comunicado, o Nubank disse que os primeiros três meses de 2023 representaram grande avanço do Nu México e Nu Colômbia, que juntos somaram mais de 3,8 milhões de clientes, uma alta de 66% no período de um ano.

Segundo o Nubank, para além do cartão de crédito, a fintech passou a disponibilizar gradativamente a Cuenta Nu para a base de clientes mexicana. Neste mês, a empresa anunciou que a Cuenta Nu agora conta com as Cajitas (Caixinhas), um recurso dentro do aplicativo em que os clientes podem separar o dinheiro que desejam economizar e gerar um rendimento anual de 9%, sem perder liquidez.

Essa estratégia foi adotada em 2022 também no Brasil, com resultados considerados positivos por analistas do mercado, porque induz os clientes a manterem os recursos em conta, reduzindo o custo de captação.

O Nu Colômbia, por sua vez, “segue trabalhando no desenvolvimento de novos serviços financeiros”.

O banco digital divulgou nesta semana que atingiu 80 milhões de clientes na primeira semana de abril, considerando as operações no Brasil, México e Colômbia. O total de clientes no fechamento do primeiro trimestre de 2023 foi de 79,1 milhões, uma alta de cerca de 33% em 12 meses.

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Crescimento mais lento

“O Nu México está crescendo mais devagar do que a indústria, surpreendentemente”, apontou o relatório do Bradesco BBI.

Os empréstimos totais ao consumidor do Nu México diminuíram 1,6% no mês contra mês em fevereiro de 2023, para MXN 13,2 bilhões (US$ 730,2 milhões), após contração de -0,7% no mês a mês em janeiro de 2023, para MXN 13,5 bilhões (US$ 755,9 milhões). Isso mesmo levando em conta que, como a operação está começando, em tese o Nu México contaria com bases mais baixas para favorecê-lo.

Enquanto isso, os empréstimos totais ao consumidor das SOFIPOs, espécie de instituições de pagamento mexicanas, diminuíram -0,4% mês a mês em fevereiro de 2023 e permaneceram inalterados na comparação mensal em janeiro de 2023.

Para os bancos tradicionais mexicanos, os empréstimos totais ao consumidor expandiram 1,1% no mês a mês em fevereiro de 2023, após crescimento de 1,0% no mês a mês em janeiro de 2023, superando as entidades financeiras e o Nu México, segundo dados do Bradesco BBI com a Comissão Nacional Bancária e de Valores do México.

“Em relação à qualidade do ativo, também observamos números desafiadores para o Nu México, com índices de inadimplência piores do que a média da indústria”, ressaltou o relatório.

De acordo com o Bradesco BBI, os indicadores de qualidade de ativos mostram que a base atual de clientes do Nubank no México oferece neste momento mais risco do que a de bancos tradicionais.

Enquanto o NPL do Nu México para empréstimos ao consumidor foi de 12,2% em fevereiro de 2023 (12,3% em janeiro de 2023 e 12,4% em dezembro de 2022), o NPL para outras entidades financeiras ficou em 11,4% em fevereiro de 2023 (11,5% em janeiro de 2023 e 11,4% em dezembro de 2022).

Enquanto isso, os bancos apresentam o melhor índice de NPL para empréstimos ao consumidor no México, em 3,0% em fevereiro de 2023 (3,0% em janeiro de 2023 e 2,9% em dezembro de 2022).

Em comparação com outras entidades financeiras e bancos, o Nu México possui a menor taxa de cobertura para empréstimos ao consumidor no país, em 91,0% em fevereiro de 2023 (88,8% em janeiro de 2023 e 84,5% em dezembro de 2022).

O custo de risco do Nubank no México em fevereiro foi de 31% contra 15,8% para a fintech como um todo, que tem o Brasil como seu maior mercado.

Assim, os analistas acreditam que a subsidiária do Nubank no México continue pesando contra a lucratividade consolidada do Nubank por um período mais longo.

O Nubank vai divulgar seus resultados para o primeiro trimestre de 2023 no dia 15 de maio após o fechamento do mercado.

Operação brasileira

No Brasil, o Nubank encerrou o mês de março com crescimento de 31,5% em 12 meses, chegando a mais de 75,2 milhões de clientes, incluindo o segmento de PMEs (Pequenas e Médias Empresas). O número de empreendedores com conta PJ do Nubank superou 2,7 milhões, um crescimento de 66% em um ano.

“Adicionamos cerca de 5 milhões de clientes à nossa base em pouco mais de um trimestre, sempre com grande contribuição da operação brasileira e cada vez mais aderência de mexicanos e colombianos”, disse o CEO e fundador David Vélez, em comunicado.

“A marca de 80 milhões de usuários revela a eficiência operacional e a capacidade do Nubank em equilibrar a expansão global e diversificação de portfólio para termos cada vez mais clientes engajados.”

O Nubank disse que viu seu número de clientes investidores no Brasil aumentar 130% no comparativo entre o primeiro trimestre de 2023 e o mesmo período de 2022, com mais de 9,2 milhões de usuários ativos em investimentos. A fintech tem mais de R$ 47,6 bilhões de ativos sob custódia.

Durante o primeiro trimestre de 2023, o Nubank ampliou sua estratégia de crédito com mais um passo nos testes do NuConsignado, o programa de empréstimos consignados, uma modalidade explorada por bancos incumbentes e digitais porque oferecem menor risco, dada a garantia do salário.

A fintech disse que o produto está sendo disponibilizado gradativamente para a base de clientes servidores públicos federais. De acordo com um levantamento interno, mais de 30% do volume financeiro de crédito consignado, seja no âmbito público ou privado, no mercado brasileiro é movimentado por clientes que já possuem relacionamento com o Nubank.

O Nubank também disse que está “avançando” na concessão de crédito colateralizado (com garantia) para aumentar o limite de cartão de crédito a partir de diferentes investimentos. Em novembro passado, a fintech anunciou uma primeira versão de empréstimo em que a garantia vem de aplicações de clientes elegíveis ao empréstimo pessoal na função resgate planejado, em que os valores seguem rendendo.

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Isabela  Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups