Bloomberg — O plano do Banco Central Europeu (BCE) de aumentar as taxas de juros em mais meio ponto percentual nesta quinta-feira (16) é agora questionado por conta da turbulência bancária que começou nos Estados Unidos, mas que desde então chegou à zona do euro.
A crise no Credit Suisse Group (CS) que se seguiu ao colapso do Silicon Valley Bank deixou os analistas menos certos de que o aumento pretendido de fato se materializará. Os investidores estão precificando 40 pontos-base, enquanto a Bloomberg Economics e o Deutsche Bank preveem apenas 25.
Embora as preocupações com a inflação não tenham desaparecido, o desafio é combater os ganhos elevados de preços com a estabilidade financeira já em jogo. É o mesmo para os Estados Unidos.
Mas com a reunião de juros do Federal Reserve (Fed) apenas na próxima semana, o BCE dará a primeira indicação do que a explosão bancária significa para a política monetária.
No período de silêncio que antecede as reuniões de juros, os ex-dirigentes do BCE Vitor Constancio e Lorenzo Bini Smaghi ponderaram aconselhar um aumento de até 0,25 pp. O ex-vice-presidente do Federal Reserve, Alan Blinder, pensa da mesma forma, dizendo à Bloomberg TV que deixaria os custos de empréstimos intocados este mês devido às possíveis consequências para a Europa caso o Credit Suisse viesse a quebrar.
O banco central da Suíça veio em socorro, oferecendo liquidez por meio de um empréstimo de até US$ 54 bilhões. O anúncio do BCE – previsto para as 10h15 no horário de Brasília – pode depender de como os mercados receberão a notícia.
Os formuladores de políticas também considerarão novas previsões econômicas trimestrais para a zona do euro, que devem mostrar a inflação retraída mais rapidamente do que o visto anteriormente – mesmo quando os ganhos de preços subjacentes se mostrem mais rígidos.
Taxa de juros
Após sua reunião de fevereiro, o BCE praticamente prometeu um aumento de 50 pontos-base na taxa de depósito para 3% este mês, dizendo que então “avaliará o caminho subsequente” da política monetária.
Os maiores riscos bancários, no entanto, podem fornecer motivos para aumentar menos os custos dos empréstimos – ou não aumentar – enquanto convencem os diretores mais agressivos a falarem menos sobre quantos aumentos serão necessários nos próximos meses.
A relativa harmonia que prevaleceu no Conselho do BCE durante a campanha de aperto mais agressiva da história do BCE já estava se desfazendo. Os comentários do austríaco Robert Holzmann, na semana passada, defendendo maiores medidas para elevar os juros para 4,5% até julho, foram criticados pelo italiano Ignazio Visco.
“A incerteza é tão alta que o Conselho de Governadores concordou em decidir ‘reunião por reunião’, sem ‘orientação futura’”, disse Visco antes mesmo de surgirem os problemas no SVB. “Portanto, não aprecio declarações de meus colegas sobre aumentos futuros e prolongados das taxas de juros.”
Também será interessante a visão de Lagarde sobre os mercados monetários, comparando suas apostas com os custos dos empréstimos. Os investidores atualmente veem a taxa de depósito atingindo um pico de cerca de 3,35% no segundo semestre do ano – abaixo dos mais de 4% – enquanto as expectativas de inflação não mudaram.
Estabilidade financeira
Os ministros das finanças da zona do euro, que se reuniram na segunda-feira (13), destacaram a “estrutura regulatória e de resolução muito forte” da região ao argumentar que qualquer queda do SVB será limitada.
Entre as autoridades do BCE, apenas o grego Yannis Stournaras se mostrou confiante, dizendo que ele e seus colegas “não veem nenhum impacto” nos bancos da zona do euro.
Lagarde certamente enfrentará dúvidas sobre se a experiência do Credit Suisse na vizinha Suíça – cujas ações caíram até 31% apenas na quarta-feira (15) – pode ser um prenúncio de uma crise financeira total.
Ela também pode ser questionada sobre como o BCE pode equilibrar os esforços para garantir a estabilidade de preços e, ao mesmo tempo, proteger a estabilidade financeira, já que o aumento das taxas expõe vulnerabilidades que se acumularam durante anos de custos de empréstimos recordes.
-- Com a colaboração de James Hirai
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