Bloomberg Opinion — Poderia Elon Musk ser salvo da loucura de seu acordo com o Twitter (TWTR) por pura paranoia? A Bloomberg News recebeu um furo na noite de quinta-feira (20), relatando que os funcionários do governo Biden, ao considerar Musk um pouco pró-Rússia demais, estão intensificando as análises de segurança de seus vários empreendimentos. A Space Exploration Technologies – ou SpaceX – poderia ser um alvo óbvio, assim como a rede social que ele está prestes a comprar. Mas e a Tesla (TSLA)?
Parece improvável que isso poderia de fato degringolar o acordo com o Twitter e não está claro qual agência teria jurisdição para realizar essa análise, embora o Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos, ou CFIUS, seja citado como um candidato. Por outro lado, as ações do Twitter caíam 5% na manhã desta sexta-feira (21). E nos EUA, o momento é de paranoia. Portanto, se o órgãos federais acabassem com o negócio por razões de segurança nacional, isso poderia piorar as coisas para a empresa de veículos elétricos de Musk.
Afinal, como Musk nunca se cansa de explicar, a Tesla não é apenas uma montadora. Segundo ele, é uma potência de energia, tecnologia e inteligência artificial, tudo isso em uma empresa só. Essa é a justificativa para a capitalização de mercado de US$ 650 bilhões da Tesla. Além de baterias, atualizações de software via aérea e o conjunto de tecnologias de assistência ao motorista em expansão, apelidado de Autopilot and Full Self Driving, a Tesla indica que está desenvolvendo um robô humanoide chamado Optimus. De fato, caso a Tesla consiga decifrar a direção autônoma, seus carros seriam essencialmente um tipo especializado de robô.
Veículos autônomos e IA andam lado a lado e há muito despertaram o interesse de planejadores estratégicos em todo o mundo. A Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa), começou a trabalhar em veículos terrestres não tripulados nos anos 80. Além da direção autônoma, a IA toca numa gama crescente de aplicações, tanto militares quanto civis – tudo desde aspiradores de pó a drones. À medida que os veículos se tornam mais conectados e mais inteligentes, eles se tornam não apenas uma fonte de força competitiva nacional, mas também um alvo para invasões de hackers potencialmente perigosas e vigilância em massa. A China chegou a banir a presença de Teslas em suas instalações militares no ano passado.
Se tudo isso parece meio paranoico, bem-vindo aos EUA, onde a paranoia é um vírus político resiliente: nunca morre, às vezes fica adormecido e ocasionalmente ressurge. Uma agência como a CFIUS, originalmente habilitada a rejeitar acordos nos anos 80, é a própria encarnação da paranoia. Dois marcos recentes da legislação americana, a CHIPS, a Lei de Ciência e a Lei de Redução da Inflação, estão fundamentados em graus variados no combate à China. E também há uma guerra velada com o antigo inimigo, a Rússia.
Ainda parece besteira acreditar que as artimanhas de Musk a respeito do acesso da Ucrânia ao serviço de internet por satélite da Starlink e que sua simpatia com autoridades do Kremlin no Twitter – embora moralmente repugnante – levem ao cancelamento do acordo. Mais uma vez, não está claro para mim quem realizaria estas análises. Mas a questão, como em tantas outras vezes, é: por que Musk corre esses riscos desnecessários? Suas relações anteriores com a Securities and Exchange Commission e várias agências estaduais e federais de segurança foram totalmente espontâneas.
De todos os ramos do governo com os quais Musk precisa lidar, o complexo de segurança nacional é provavelmente o mais arriscado. Enquanto o jogo interminável de xadrez de oito dimensões do Twitter abre a possibilidade de que Musk está esperando que a cavalaria vá a seu resgate no Twitter, as cavalarias tendem a passar impiedosamente sobre muitas outras coisas. Independentemente de isso acontecer neste caso, a proeminência e a fortuna de Musk estão ligadas à promessa de desenvolver e possuir tecnologias que definirão a vida no século XXI – e a rivalidade geopolítica. Ele já normalmente seria uma pessoa de interesse para os defensores ferrenhos da segurança. Seu hábito no Twitter, seja ele financeiro ou apenas a expressão de suas curtidas, é uma boa fonte de preocupação para eles.
Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Liam Denning é colunista da Bloomberg Opinion e cobre energia, mineração e commodities. Ex-banqueiro de investimentos, foi editor da coluna “Heard on the Street”, do Wall Street Journal, e escreveu para a coluna “Lex”, do Financial Times.
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