Mulheres, baixa renda e evangélicos: os eleitores no alvo de Bolsonaro e Lula

Presidente tenta recuperar parte dos votos que teve nos dois primeiros estratos em 2018, enquanto ex-presidente busca avançar em grupo dominado pelo rival

Líderes nas pesquisas buscam ganhar votos entre estratos específicos da população brasileira no mês final antes do primeiro turno
28 de Agosto, 2022 | 07:38 PM

Bloomberg Línea — O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Lula (PT) entram no último mês antes do primeiro turno diante de duas missões: para o atual comandante do país, crescer nas intenções de voto a ponto de entrar em condições de igualdade para um esperado segundo turno; para o petista, ampliar a vantagem que carrega nas pesquisas a ponto de conseguir vencer a disputa no dia 2 de outubro.

Ambos têm tarefas complicadas, mas o desafio para chegar lá são em certa medida diferentes. E as consequências também.

Enquanto Bolsonaro precisa reconquistar parte dos eleitores que perdeu de 2018 para cá e melhorar seu desempenho entre as mulheres, Lula precisa conquistar os eleitores evangélicos e convencer os mais ricos de suas propostas para a economia - ou de que pode ser uma alternativa moderada melhor para o país do que o adversário, inclusive no campo da corrupção.

Lula já foi presidente duas vezes e elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, também do PT, duas vezes. Na campanha deste ano, usa os números da economia e dos avanços sociais de seus governos para mostrar que é a melhor opção para derrotar o atual presidente.

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Votos dos evangélicos

Um de seus desafios é crescer entre parte do público cativo de Bolsonaro. O petista vence em quase todos os segmentos recortados pelas pesquisas eleitorais. Mas perde entre os evangélicos.

De acordo com a última pesquisa Datafolha, divulgada em 18 de agosto, Lula está 15 pontos à frente de Bolsonaro no quadro geral. Entre os que se declaram evangélicos, no entanto, perde por 48% a 32% para o atual presidente. A pesquisa foi feita de maneira presencial e ouviu 5.744 pessoas.

Nas pesquisas feitas por telefone e divulgadas na semana passada, o quadro é parecido. Na da Quaest, divulgada em 17 de agosto, Lula tem 25% dos votos dos evangélicos, enquanto Bolsonaro tem 46%. É a maior vantagem do presidente nessa pesquisa, que ouviu duas mil pessoas por telefone.

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A campanha petista reconhece a dificuldade de falar com o público evangélico. Na primeira peça para a TV, divulgada no sábado (27), Lula fez um aceno discreto a esses eleitores: “Peço a Deus que ilumine esta nação e nos ajude a reconstruir o Brasil”, disse, já no início do discurso.

Em pronunciamentos, Lula tem procurado mostrar que sua defesa do Estado laico significa também respeito aos cristãos. Em reunião no Rio de Janeiro, disse: “Não sou daqueles que misturam política. Mas nós precisamos esclarecer algumas coisas. As pessoas não sabem que quem criou a lei da liberdade religiosa foi o meu governo, em 2003. O Dia Nacional da Marcha para Jesus, em 2009, o Dia Nacional do Evangélico, em 2010, ainda no meu governo. E o Dia Nacional da Proclamação do Evangelho foi no governo da Dilma Rousseff, em 2013″, conforme a Folha de S.Paulo.

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O ex-presidente não quer que seus assessores confessem a intenção de vencer no primeiro turno, segundo um de seus articuladores. O objetivo é evitar transformar a ida para um eventual segundo turno com ampla vantagem em revés simbólico, o que poderia desmobilizar a militância e contaminar os eleitores. Para vencer as eleições, o candidato precisa de 50% dos votos válidos mais um.

Mas a campanha faz contas. Os que não votam nem em Lula nem em Bolsonaro são 26% ou 27%. O objetivo dos petistas é conquistar uma fração do público evangélico. A conta é a seguinte: se conseguir três ou quatro pontos percentuais, Lula conseguiria sair vencedor já no primeiro turno. A chave para isso estaria nos evangélicos, de acordo com integrantes da campanha petista.

Voto de quem elegeu Bolsonaro

Já Bolsonaro depende do sucesso de sua estratégia para continuar presidente. E ele não está em posição de poder cometer erros: desde o pleito de 1989, o candidato que acabou vitorioso e eleito presidente da República nunca chegou à data da eleição atrás nas pesquisas eleitorais.

Nem mesmo Dilma Rousseff (PT), reeleita por margem apertada no segundo turno de 2014, chegou a figurar em segundo lugar nas pesquisas - embora ela tenha chegado a empatar tecnicamente com Marina Silva (Rede) no fim de agosto daquele ano. Marina terminou a eleição em terceiro lugar.

O foco do atual presidente tem sido recuperar uma parte de seus eleitores de 2018, além de melhorar o seu desempenho em duas frentes: no voto feminino e dos mais pobres.

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A primeira parte parece que vem dando certo: segundo a última pesquisa do Datafolha, 63% dos que votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2018 disseram que vão votar nele neste ano. Na pesquisa anterior, a cifra era 56%. No mesmo período, a preferência por Lula no grupo de eleitores de Bolsonaro em 2018 recuou de 21% para 19%.

Voto da base da pirâmide

Para conquistar os mais pobres, a estratégia parece ainda não ter surtido efeito - não na magnitude esperada - apesar da liberação de dezenas de bilhões de reais. O governo apostou na aprovação de uma emenda constitucional que permitiu aumentar os gastos orçamentários no ano eleitoral, sem se submeter ao teto. Usou a brecha para aumentar o valor do Auxílio Brasil, versão bolsonarista do Bolsa Família, de R$ 400 para R$ 600.

O novo valor começou a ser pago em 8 de agosto, mas até aqui não parece não interferido no desempenho de Bolsonaro nas pesquisas nesse estrato. Lula continua à frente entre os que ganham dois salários mínimos, por 55% a 23%, conforme o último Datafolha. Esse estrato da população representa cerca de metade da população que vota, segundo a amostra do Datafolha - em outros institutos, essa fatia estimada do eleitorado é menor.

Há quatro anos, a desvantagem de Bolsonaro para o candidato do PT às vésperas do primeiro turno nesse estrato era muito menor, de 22% para 28% de Fernando Haddad, segundo o Datafolha.

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Entre os que recebem o dinheiro ou moram com alguém que recebe o Auxílio Brasil, a preferência dos eleitores por Lula também é muito ampla: ele vence por 56% a 28%.

Não por acaso, a primeira peça de campanha de Bolsonaro para a TV focou no pagamento do auxílio como um dos pontos fortes do seu governo para os mais pobres.

Voto feminino

Um desafio ainda maior para o atual presidente é em relação às mulheres. Bolsonaro está 18 pontos atrás de Lula no segmento (47% a 29%), ainda segundo a última pesquisa do Datafolha. Esse estrato da população representa 52% da amostra da pesquisa, em linha com o que foi em 2018.

Há quatro anos, às vésperas do primeiro turno, Bolsonaro liderava em intenção de votos sobre Fernando Haddad também entre as mulheres, com vantagem de 30% a 21%, segundo o Datafolha.

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E o presidente também é mais mal avaliado entre elas do que entre os homens. De acordo com a pesquisa da Quaest, 43% das mulheres acham o governo ruim ou péssimo - embora tenha sido de 48% na pesquisa anterior, de duas semanas antes. Entre os homens, essa cifra é 38%.

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Pedro Canário

Repórter de Política da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero em 2009, tem ampla experiência com temas ligados a Direito e Justiça. Foi repórter, editor, correspondente em Brasília e chefe de redação do site Consultor Jurídico (ConJur) e repórter de Supremo Tribunal Federal do site O Antagonista.