Startups

Fintech argentina chega ao Brasil e foca em rentabilidade

Com apenas 25 anos, cofundador da Lemon lidera chegada da empresa ao país e fala à Bloomberg Línea sobre o cenário para fintechs na região

Com parceria com a Visa, a Lemon consolidou seu modelo de negócios na Argentina
Por Mariano Espina (BR)
02 de Agosto, 2022 | 04:10 pm
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Línea — Com 1,3 milhão de usuários, a Lemon é uma das principais carteiras digitais da Argentina e, ao contrário da maioria de seus concorrentes – incluindo a Ualá (4 milhões de usuários na Argentina) e o MercadoPago (36 milhões de usuários na região) – oferece comércio de criptomoedas no país.

A expansão da fintech foi fortemente impulsionada por uma ferramenta de cashback, que reembolsa aos usuários 2% de cada compra em criptomoedas. Atualmente com mais de 250 funcionários e com o objetivo de se consolidar no Brasil, uma das principais metas da empresa é se tornar lucrativa.

Em um contexto de ajuste pelas empresas de tecnologia, causado pela inflação global e pelo aumento da taxa do Federal Reserve, que afetou os valuations das empresas e reduziu a liquidez do investimento em startups, a Lemon argumenta que essa dinâmica também levou a mudanças nos objetivos das empresas. Agora o foco será mais na busca de rentabilidade e menos no crescimento.

Esse é o raciocínio de Borja Martel Seward, cofundador e Chief Business Officer (CBO) da Lemon, que aos 25 anos de idade está liderando a chegada da empresa no Brasil, onde pretende alcançar o primeiro milhão de usuários até 2023.

PUBLICIDADE

Em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea, ele também analisa o contexto atual e argumenta que será benéfico para as empresas consolidadas. “Costumávamos ser uma empresa muito mais orientada para o crescimento e hoje estamos mais orientados para os negócios, porque é isso que o mercado exige”, diz Martel.

A entrevista a seguir foi editada para fins de extensão e clareza.

Bloomberg Línea: O primeiro semestre trouxe o impacto do contexto global no setor de fintechs na América Latina. Qual é sua opinião sobre o impacto em nível local?

Borja Martel Seward: O aumento das taxas de juros pelo Fed causou uma contração nos valuations das empresas. O ano de 2021 foi de mais otimismo. A receita futura das empresas tinha um peso enorme no valuation das empresas. Esse contexto levou tudo em consideração, incluindo tecnologia.

PUBLICIDADE

Atualmente, vejo que ainda há muita liquidez. O que muda é que os investidores serão mais seletivos – o que não acontecia antes. E isso é positivo para as melhores empresas, para aquelas que fazem o que devem fazer e que agora terão uma demanda muito maior.

Como cidadão da região, a situação é lamentável, pois eu gostaria de ver todas as empresas levantarem capital. Por outro lado, do ponto de vista da Lemon, ficamos em uma posição super forte de liderança de mercado que nos posiciona muito bem na busca por uma empresa sólida.

BL: E como isso afetou a Lemon?

Borja: Costumávamos ser uma empresa muito mais orientada para o crescimento e hoje estamos mais orientados para os negócios, porque é isso que o mercado exige. O que importa não é crescer a todo custo, mas ser um negócio, que é o que o mundo dos investimentos pede hoje.

Não sofremos o impacto negativo de demitir pessoas ou reduzir a equipe, mas se todas as empresas de nosso setor começarem a ter problemas, isso faz com que os investidores possivelmente tenham mais dúvidas sobre esse mercado.

BL: O gasto da empresa com marketing e cashback é sustentável neste novo contexto?

PUBLICIDADE

Borja: Sim. Além disso, assim como o investimento diminuiu, também diminuíram os preços. Investir em marketing e talento é mais acessível hoje que no passado. Este crash significou que as empresas com melhores posições são mais beneficiadas que as demais. Essa concorrência fica mais ferrenha em um bull market.

BL: O foco da Lemon é a lucratividade?

Borja: O novo objetivo é a lucratividade. O que é uma loucura, porque ao longo da história vemos empresas como o Mercado Livre (MELI) que não foram lucrativas por muitos, muitos anos. Tivemos o objetivo de ser a empresa de criptomoedas com o crescimento mais rápido da América Latina. E conseguimos. Agora temos o objetivo de ter um negócio forte e vamos atingi-lo. É uma questão de mudar objetivos e metas e trabalhar para isso.

BL: Esse objetivo é possível no curto prazo?

PUBLICIDADE

Borja: É possível e nos força a ter ideias melhores. Isso nos força a trabalhar na otimização, eficiência e aspectos que são muito saudáveis. Para uma empresa como a Lemon, que tem apenas dois anos e já está tentando ser lucrativa, é algo muito positivo.

BL: Por que você escolheu o Brasil como o mercado para expansão?

Borja: Vimos que não há ninguém fazendo o que a Lemon faz - esse modelo híbrido entre neobanco e plataforma de criptomoedas. O debate foi entre um mercado menor ou o Brasil, e analisamos o risco de que se apostássemos no primeiro, o Brasil pudesse ter um concorrente.

O fato de o Brasil ser o primeiro país para o qual estamos expandindo é um risco, mas a recompensa é assumir todo o mercado antes de outros, sermos o primeiro a chegar – isso pesou bastante. Há também um grande match cultural entre a Lemon e o Brasil, e isso também nos motiva.

PUBLICIDADE

O aplicativo já está aberto ao público e em breve vamos liberar o cartão. Temos metas muito agressivas. Gostaria de ter um milhão de usuários até 2023. Se conseguirmos isso e tivermos 100 funcionários na Lemon no Brasil, será algo positivo.

BL: Como você enxerga os regulamentos ou restrições para os criptoativos na Argentina?

PUBLICIDADE

Borja: Os que mais poderão se beneficiar dos regulamentos são os usuários e os novos empreendedores. Isso porque as regras serão claras. E isso ajuda o país a se desenvolver mais, porque mais investidores também surgirão. O que mais me anima com os regulamentos é que facilitará a vida dos empreendedores. Quando começamos a Lemon, era muito difícil, pois a falta de regras complicava.

Além disso, poderemos saber o que fazer para operar. Custou muito dinheiro até que chegássemos onde estamos do ponto de vista legal e normativo para ter tudo em ordem. Mas também vai ficar mais fácil melhorar o serviço para os usuários.

BL: As carteiras virtuais Ank e Bimo fecharam na Argentina. Você acredita que estamos caminhando para uma concentração de mercado?

PUBLICIDADE

Borja: Acredito que a chave para sobreviver neste contexto é resolver o maior número possível de problemas para seus usuários e comunidades. As empresas que mais adotam este conceito são as que vão sobreviver. Acredito que a Lemon resolve a vida de muitas pessoas, por isso a vejo como vencedora. Mas não podemos cantar vitória. Concentração de mercado é algo natural e acontece em todos os setores.

Leia também

As ações mais recomendadas pelos analistas para investir em agosto

Mariano Espina

Mariano Espina (BR)

Jornalista argentino com especialização em política. Anteriormente, trabalhou nas redações do jornal El Economista e do portal Data Clave. Graduado em jornalismo pela Universidade de El Salvador.

PUBLICIDADE