Viagens

Trabalho remoto de uma ilha? Países turísticos atraem nômades digitais

Nova categoria de pessoas que viajam para trabalhar remotamente pode trazer benefícios para economias que dependem do turismo

Turismo de negócios-lazer é nova modalidade do mundo corporativo atual: trabalho remoto de um destino turístico
Por Michelle Jamrisko, Suttinee Yuvejwattana e Claire Jiao
03 de Julho, 2022 | 04:11 pm
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg — No novo mundo do trabalho, há um novo tipo de funcionário: o viajante de negócios-lazer.

Essa é a mais recente tentativa de encontrar um meio termo entre acordos de trabalho como o do Airbnb (ABNB) – no qual uma equipe pode trabalhar em qualquer lugar, a qualquer hora – e aqueles em empresas como a Tesla (TSLA), cujo CEO Elon Musk comunicou recentemente por Twitter que, a menos que os funcionários voltem para o escritório, “vamos pressupor que você se demitiu”.

Os viajantes de negócios-lazer são uma subcategoria de nômades digitais, que vivem e trabalham no exterior por um período mais longo do que férias comuns, mas sem residência permanente. Eles geralmente passam semanas ou meses no exterior antes de voltar para casa, ao passo que outros nômades digitais podem passar anos na estrada.

David Abraham percebeu que havia um mercado para esse tipo de trabalho remoto enquanto trabalhava em seu laptop em uma unidade da Starbucks (SBUX) em Tóquio. Quando percebeu que os clientes ao seu redor também estavam trabalhando, se perguntou “por que não poderiam estar em um lugar incrível como Bali? Abraham agora administra a Outpost, uma empresa que oferece espaços de trabalho temporário na Indonésia e no Sri Lanka.

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O entusiasmo dos funcionários por viagens de negócios-lazer está sendo recebido com um impulso político. Diferentes governos estão tentando elaborar regulamentos sobre vistos e impostos enquanto as empresas se preocupam com compliance e cultura corporativa.

As autoridades de grandes países turísticos como Tailândia e Indonésia consideram a tendência de viagens de longo prazo favorável – se todos elaborarem as regras certas.

Na ilha indonésia de Bukabuka, que fica a mais de quatro horas de avião e barco da capital Jacarta, o resort ecológico Reconnect está recebendo uma onda de reservas de estrangeiros. Agora que as fronteiras foram reabertas, turistas estrangeiros com planos de trabalhar remotamente estão reservando estadias de diversas durações, que vão de um a seis meses.

O resort possui grandes espaços comunitários e estações de trabalho, prontos para acomodar a nova corte de viajantes de negócios-lazer. Na maioria dos dias, a internet fica estável.

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“Mas o principal atrativo é a própria ilha”, disse Thomas Despin, fundador do Reconnect. Entre reuniões do Zoom, os hóspedes podem mergulhar, aprender a pescar com lanças e até mesmo curtir um churrasco no meio do mar.

Há uma desvantagem: “os possíveis hóspedes nos perguntam sobre a legalidade do trabalho no país”, disse Despin. “No momento, não temos uma resposta específica.”

Segundo a lei indonésia, qualquer pessoa que ficar no país por 183 dias em um período de 12 meses é legalmente considerada um residente fiscal. Mas o pagamento de impostos requer uma permissão de trabalho chamada de KITAS, que não está disponível para quem viaja com visto de turista. Isso deixa alguns viajantes de negócios em um limbo de legalidade.

Em abril de 2021, a Indonésia lançou a ideia de um visto especial de cinco anos que isenta trabalhadores remotos de pagar impostos locais se não ganharem a renda dentro do país. Mas ainda não há um plano.

“Você não deve esperar o melhor quando se trata da situação do seu visto”, disse Despin. “É necessário saber as regras.” Seus colegas deixaram a Indonésia e foram para México, Portugal e Tailândia, onde as leis de imigração e fiscais são mais favoráveis e claras.

Desde 2019, mais de duas dezenas de países introduziram esquemas para nômades digitais que permitem às pessoas viver e trabalhar remotamente por um período de meses ou mesmo anos, segundo Kate Hooper, analista do Instituto de Políticas Migratórias. Ela analisou dados do escritório de advocacia Fragomen.

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Países com programas para nômades digitaisdfd

A Tailândia começou a realizar experimentos no início da pandemia com programas destinados a atrair viajantes de longo prazo, como quarentenas em campos de golfe e acordos “de experiência”. O país obtinha cerca de um quinto de sua receita no setor de turismo antes da chegada da covid-19.

Atualmente, com a intenção de atrair mais nômades digitais e viajantes de negócios-lazer, o governo aprovou incentivos fiscais para os portadores de vistos de longo prazo e encerrou todas as restrições de entrada relacionadas à covid em 1º de julho.

O país tem várias vantagens para turistas de longo prazo que também planejam trabalhar, de acordo com o ministro do turismo, Phipat Ratchakitprakarn. “A Internet em Bangkok e em muitas grandes cidades é rápida”, disse ele, e a Tailândia também oferece serviços e um custo de vida relativamente baixo.

Também acrescentou que “nós não taxamos os nômades digitais. Sua renda é gerada no exterior”.

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A próxima rodada de mudanças tributárias está tardando para um país com um setor hoteleiro que ainda está sofrendo dos efeitos da pandemia.

“Tenho certeza de que somos páreo em termos de fundamentos; o problema é a implementação da política”, disse Bhummikitti Ruktaengam, presidente da Associação de Turismo de Phuket. Ele argumenta que é necessário um processo simples de solicitação de visto para atrair viajantes de negócios-lazer.

“Eles não virão se precisarem preencher um monte de papelada”, disse.

Visitantes com estadia mais longa poderão trazer benefícios econômicos, mas também podem criar problemas para a população local, segundo um relatório do Instituto de Políticas Migratórias do país. Visitantes ricos trazem como efeito o aumento dos custos de vida, aumentando a competição por recursos, além de tensões associadas, “como evidenciado nos polos existentes, como Goa e Bali”.

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Enquanto governos enfrentam diversos desafios ao juntar o renascimento do turismo com a facilidade de fazer negócios, empresas têm sua própria lista de preocupações.

Nas empresas estabelecidas, os CFOs (executivos-chefe financeiros) raramente têm apetite pela liberdade do trabalhador no estilo do Airbnb devido a questões tributárias e outras responsabilidades, de acordo com Simon Hayes, diretor da Rede de CFOs da Ásia.

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Mesmo assim, vários líderes empresariais estão aceitando o que seus departamentos de recursos humanos já sabem: a maioria dos empregadores será forçada a acompanhar as mudanças.

Viajantes de negócios-lazer à parte, mercados de trabalho apertados - mais vagas abertas do que candidatos - ao redor do mundo estão dando aos trabalhadores o poder de exigir mais flexibilidade. Nos próximos três a seis meses, Hayes espera que mais empresas criem opções de trabalho remoto para que funcionários confiáveis possam fazer seu trabalho na praia ou em outro lugar.

Há uma vontade clara de pelo menos considerar afrouxar políticas de trabalho remoto, de acordo com uma pesquisa da Rede de CFOs da Ásia com 31 empresas multinacionais em toda a região da Ásia-Pacífico. No entanto há algumas preocupações significativas: questões tributárias e “diluição da cultura corporativa” estão no topo da lista.

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“Um dos problemas é navegar pelas disposições fiscais, previdenciárias e trabalhistas de ambos os países para garantir o cumprimento em todos os locais”, disse Hooper, do Instituto de Políticas Migratórias. Outro é o risco de desencadear regras de residência permanente que podem incorrer em obrigações tributárias corporativas, disse ela.

Embora as viagens de negócios-lazer não estejam prestes a ultrapassar outros modelos de viagens, ainda é uma oportunidade para as economias que dependem muito do turismo.

“É um segmento cada vez maior, mas continuará sendo um ‘nicho’”, disse Margaux Constantin, sócia da McKinsey que lidera o trabalho da consultoria na área de turismo. Segundo ela, o potencial de gastos mais altos em viagens mais longas torna os viajantes de negócios-lazer um mercado atraente.

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“Não será nenhuma surpresa ver que alguns destinos estão priorizando ativamente esse segmento como parte de sua estratégia de turismo.”

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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