Estilo de vida

De Porsche e Chanel a quadros: como os ultra-ricos estão investindo na crise

Mercado de colecionáveis cresce diante de alta inflação, mas não deve ser visto só como investimento, diz head global de economics & research do Credit Suisse

Um Porsche AG 911 (ao centro) em leilão em Nova York: carros clássicos são um dos ativos colecionáveis preferidos dos ultra-ricos
03 de Julho, 2022 | 10:42 am
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg — No ambiente de maior inflação em décadas, como proteger o patrimônio e ainda obter retornos consistentes? É um desafio que aflige investidores de todos os tamanhos. Mas, para aqueles que dispõem de muitos dígitos na conta, há um apelo crescente de uma classe de ativos que tem se mostrado não só uma resiliente reserva de valor como meio também de valorização do patrimônio, ainda que esse não seja o principal objetivo.

São os investimentos em ativos colecionáveis, de relógios de luxo a bolsas da Chanel, passando por carros clássicos como uma Ferrari F40 e um Porsche 911 e obras de artistas consagrados. Na lista entram também inovações como NFTs de obras contemporâneas, a despeito da virada desse mercado neste ano com a forte queda dos preços de criptoativos. É o que revela um novo estudo do Credit Suisse (CS) sobre tais ativos em tempos de elevadas incertezas e inflação.

Apesar da valorização expressiva e da fundamental propriedade - em tempos de inflação perto dos dois dígitos até nos Estados Unidos e na Europa - de funcionar como reserva de valor, há um disclaimer (aviso) importante: os ativos colecionáveis não devem ser necessariamente encarados como um investimento por si só.

“Os colecionáveis raramente são adicionados apenas por razões de investimento aos portfólios; eles refletem, em primeiro lugar, a paixão de seus proprietários por um determinado colecionável”, afirmou Nannette Hechler-Fayd’herbe, Chief Investment Officer (CIO) para Europa, Oriente Médio e África (EMEA) e Head Global de Economics & Research do Credit Suisse, à Bloomberg Línea.

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No ano passado, o preço médio de carros clássicos vendidos em leilões passou de US$ 5,327 milhões para US$ 5,939 milhões (cerca de R$ 33 milhões ao câmbio do fim do ano). Uma McLaren F1 de 1995 foi colocada à venda e negociada por US$ 20,465 milhões no ano passado. Apenas 106 unidades desse modelo foram produzidas entre 1992 e 1998, ao preço da época de US$ 1 milhão.

São ativos que, em muitos casos, mostram baixa correlação com classes mais tradicionais do mercado financeiro, como ações e títulos. Ou com ativos historicamente considerados de refúgio, como o ouro. Em alguns casos, como carros clássicos, a correlação chega a ser negativa, o que significa que em quadro de queda de ações, por exemplo, como acontece atualmente, os seus preços sobem.

Obras de artistas americanos entregaram retornos da ordem de 40% no ano passado, assim como as desejadas bolsas Birkin da marca francesa Hérmes um ano antes. Relógios da Rolex e pinturas de artistas britânicos renderam perto de 30%, e bolsas da Chanel, algumas com design Lagerfeld, 25%.

O aquecimento desse mercado se deve a uma combinação de demanda reprimida de bilionários e milionários no primeiro ano da pandemia, em 2020, com uma oferta de obras de arte e ativos colecionáveis de qualidade que foram colocados à venda em leilões e outros eventos.

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Só o mercado de arte cresceu quase 30% em 2021, para US$ 65,1 bilhões, segundo estimativas do economista Clare McAndrew para a Art Basel, segundo citado no estudo do Credit Suisse.

Nannette Hechler-Fayd'herbe, Head global de Economics & Research do Credit Suisse e Chief Investment Officer para EMEA (Emerging Markets)dfd

A executiva que lidera a área de pesquisas do banco de investimento explica que definir quais ativos podem compor um portfólio e de que maneira não é uma tarefa simples.

“Não existe uma regra única. Além disso, as propriedades muito diferentes dos variados ativos colecionáveis poderiam levar a diferentes alocações. Dito isso, colecionadores tendem a manter entre 3% e 5% de sua riqueza em colecionáveis, e alguns até de 5% a 10%.”

Para os que possuem essa paixão e, obviamente, capital para integrá-los ao patrimônio, não faltam ativos das mais variadas categorias. E alguns até com performance anti-cíclica, ou seja, que historicamente apresentam retornos maiores justamente em tempos de juros mais elevados no mundo desenvolvido, uma perspectiva que já se tornou cenário base em todo o mercado.

Tome-se como exemplo uma F40, um dos modelos mais icônicos da Ferrari. Foram produzidos apenas 1.311 exemplares entre 1987 e 1992, para celebrar os 40 anos do primeiro modelo da marca que levou o seu emblema.

No início dos anos 2000, uma unidade do F40 - quando encontrada à venda - saía em leilões por cerca de US$ 300 mil. Em março deste ano, o mesmo modelo saiu por US$ 2,5 milhões em um leilão. Uma valorização do ativo acima de 700% no período de duas décadas.

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De Patek Philippe a Bordeaux

Uma das categorias que mais crescem é a de relógios de luxo no mercado secundário, a tal ponto que a casa britânica Christie’s quebrou três vezes na sequência, no fim do ano passado, o seu recorde de vendas online, levantando US$ 7,7 milhões no último evento. O preço médio subiu cerca de 50%. A tal ponto que a marca suíça Audemars Piguet decidiu entrar há poucos anos no segmento.

Modelos da Rolex e da Patek Philippe estão entre os mais valorizados, segundo o estudo. A forte demanda tem levado muitos proprietários a colocar modelos de segunda mão à venda para aproveitar os preços elevados, dado que há mais disponibilidade do que os novos.

No caso de vinhos finos, o mercado tem atravessado por um período de diversificação, com o aumento das vendas de vinhos das regiões da Borgonha e de Champagne, na França, e da Itália. Juntos, respondem já por 55% do que é comercializado no marketplace global Liv-ex, o mais conhecido do mundo para vinhos. A região mais demandada nesse segmento ainda é a de Bordeaux, com 33%, mas o domínio era quase total há uma década.

Diante das perspectivas favoráveis, ativos colecionáveis podem atrair um número maior de investidores, mas há uma barreira importante: o conhecimento técnico e de mercado.

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Não basta (muito) dinheiro

“Construir coleções interessantes não exige grandes fortunas, mas são ativos que com frequência fazem parte delas. Coleções são um reflexo de interesses pessoais, mais do que um propósito financeiro. Além disso, colecionáveis demandam o conhecimento típico de especialista para lidar com os riscos. Portanto, exige certa sofisticação, assim como outros ativos alternativos ilíquidos”, disse a head global de pesquisas do Credit Suisse.

Nos mercados de vinhos raros, de relógios de luxo e mesmo no de artes, falsificações constituem um risco relevante no mercado secundário - e dispor de conhecimento por conta própria ou de especialistas acaba sendo fundamental para evitar cair em golpes.

Segundo o estudo do Credit Suisse, estima-se que 20% dos vinhos famosos negociados são falsificados, principalmente no Oriente. Há casos evidentes: há mais garrafas vendidas do Cheval Blanc 1947 ou do Petrus 1961 do que se sabe que houve de produção nessas duas safras específicas.

Por fim, ainda que os preços estejam convidativos para quem deseja uma eventual realização do lucro, Hechler-Fayd’herbe explicou que esse não é um comportamento comum.

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“Verdadeiros colecionadores não vendem suas obras com frequência. Isso tende a acontecer apenas em situações de mudança de vida. Portanto, a posse costuma ser longa.”

“Mas, quando um colecionador decide vender, há uma decisão consciente sobre quando exatamente levar [um ativo] para o mercado de leilões ou para venda privada”, disse.

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Marcelo Sakate

Marcelo Sakate

Marcelo Sakate é editor sênior da Bloomberg Línea no Brasil. Anteriormente, foi editor da EXAME e do CNN Brasil Business, repórter sênior da Veja e chefe de reportagem de economia da Folha de S. Paulo.

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