Negócios

Bancos de investimento sentem pressão global e perdem receita no Brasil

Nervosismo em relação à inflação global, desaceleração do crescimento econômico e aumento dos juros influenciaram nas negociações no primeiro semestre

O banco estava empatado no primeiro lugar com o Itaú BBA no ranking de receitas de comissões até 23 de junho, de acordo com a Dealogic.
Por Cristiane Lucchesi e Vinícius Andrade
28 de Junho, 2022 | 08:14 am
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg — A receita com comissões pagas aos bancos de investimento no Brasil encolheu 38% até agora neste ano em meio ao nervosismo em relação à inflação global, desaceleração do crescimento econômico e aumento dos juros. Alguns executivos estão mais otimistas com o segundo semestre.

“Podemos esperar alguma melhoria nos negócios para o restante de 2022, mas provavelmente o total de comissões não ultrapassará US$ 1 bilhão, em comparação com mais de US$ 1,4 bilhão no ano passado”, disse Bruno Saraiva, co-chefe do banco de investimento do Bank of America no Brasil. O banco estava empatado no primeiro lugar com o Itaú BBA no ranking de receitas de comissões até 23 de junho, de acordo com a Dealogic.

A alta de juros nos EUA e no Brasil reduziu a atividade do mercado de capitais, e o total de comissões recebidas com assessoria em fusões e aquisições e liderança na emissão de dívida e ações caiu para US$ 443 milhões. Isso apesar de a receita de M&A dobrar em relação ao ano passado, passando a responder por cerca de metade do total, disse Saraiva.

“A atividade de fusões e aquisições é menos volátil e impulsionará os volumes de banco de investimento este ano”, disse ele.

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Grande parte da força das receitas com M&A deste ano se deve às transações negociadas em 2021 que estão sendo concluídas agora, disse Cristiano Guimarães, diretor de banco corporativo e de investimento global do Itaú BBA, o primeiro em número de negócios de banco de investimento neste ano no Brasil, com cerca de 100 transações.

Muitas empresas de private equity que levantaram fundos nos últimos anos estão aproveitando a oportunidade para investir agora que os preços das empresas estão mais atraentes, disse Eduardo Miras, chefe de banco de investimento do Citi no Brasil, que subiu para o quinto lugar no ranking de comissões da Dealogic, em relação à décima posição em 2021.

“O M&A está bastante ativo neste momento, mas os compradores estão pedindo novas avaliações”, disse Miras. “Você não pode simplesmente ignorar a queda dos preços das ações nos mercados.”

As transações de aquisição privadas podem sobreviver a mercados difíceis porque permitem ajustes sob medida negociados entre comprador e vendedor, disse Fernando Iunes, vice-chairman de bancos, mercado de capitais e assessoria no Brasil do Citigroup.

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Uma das maiores transações de M&A foi a venda de R$ 3,57 bilhões em ativos pelas locadoras de carros Localiza e Unidas, incluindo cerca de 49.000 veículos, para um fundo de investimento administrado por afiliadas da Brookfield Asset Management.

“No caso do Itaú, a queda na receita com emissão de ações é compensada por uma posição realmente forte no mercado de capitais de dívida local, onde estamos muito à frente dos concorrentes nos rankings, com mais do que o dobro do número de negócios”, disse Guimarães.

O Itaú liderou R$ 33,8 bilhões em 105 operações de emissão de títulos de dívida corporativa no mercado local neste ano até o dia 27, ante R$ 17,3 bilhões em 48 negócios do segundo colocado, o Bradesco BBI, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Muitos investidores que buscam ganhar com juros mais altos saíram dos fundos de ações em busca dos fundos de renda fixa, que atingiram um recorde histórico de R$ 2,8 trilhões, segundo a Anbima, associação do mercado de capitais. Enquanto as vendas de ações caíram 42% este ano, para R$ 45,8 bilhões, a emissão de títulos corporativos no mercado doméstico brasileiro - principalmente com taxas flutuantes ou indexadas à inflação - subiu 20%, para R$ 117,7 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg até o dia 27.

As comissões recebidas pelos bancos com ofertas de ações caíram 80%, mesmo com a transação de R$ 33,7 bilhões que privatizou a Eletrobras, na segunda maior transação deste ano no mundo, segundo a Dealogic.

Dúvidas sobre a eleição presidencial de outubro também contribuem para o estresse do mercado, ajudando a explicar por que não houve uma única oferta pública inicial de ações este ano. Os IPOs normalmente pagam aos bancos líderes mais do que as ofertas subsequentes de ações de empresas públicas já conhecidas. A emissão de títulos no mercado internacional caiu também, cerca de 66%, para US$ 5,3 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg.

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“O ano continuará sendo fraco para a atividade de banco de investimento, com os mercados de capitais de renda variável concentrados principalmente em ofertas adicionais”, disse Guimarães, acrescentando que a emissão de títulos locais deve continuar a ajudar a compensar a fraqueza em outros mercados.

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