Governos suspenderam medidas restritivas, mas não é hora de relaxar nos cuidados
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Bloomberg Opinion — Estamos em um momento bem estranho da pandemia. No Twitter, médicos e especialistas emitem alertas sobre as últimas subvariantes da ômicron. Fora da internet, as pessoas estão de volta a festas, bares e restaurantes e logo estarão viajando ao redor do mundo sem nenhuma exigência de testes para retornar aos Estados Unidos. Parece que as coisas não estão mais coerentes. Não há estratégia ou orientação discernível sobre quais precauções ainda deveríamos estar tomando contra covid.

O cientista social dinamarquês Michael Bang Petersen, da Universidade de Aarhus, me disse que a familiaridade com a covid está mudando as atitudes das pessoas. Muitos perderam o medo do vírus após contraí-lo e se recuperarem. Segundo ele, na Dinamarca, estudos apontam que 80% das pessoas foram infectadas. Nos EUA, um estudo semelhante constatou que cerca de 60% já tiveram covid até fevereiro – antes do início da última onda.

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E as pessoas estão recebendo sinais de todos ao seu redor. Os sinais sociais são realmente importantes, disse ele, por isso é muito difícil manter o alerta quando outros estão voltando ao normal. O comportamento pode mudar em efeito cascata. As pessoas se perguntam por que deveriam se preocupar se ninguém mais liga. “Isso é psicologia básica da ação coletiva”, disse Bang Petersen.

É claro que algumas pessoas ainda estão sendo cautelosas e ainda não pegaram covid, como o epidemiologista Michael Osterholm do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas.

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Ele usa máscara N95 em público, limita seus contatos sociais, às vezes pede aos convidados que façam o teste, e evita ir a restaurantes. “Provavelmente houve mais transmissão do SARS-CoV-2 nos últimos 30 dias do que em qualquer período de 30 dias em toda a pandemia”, disse ele.

Ele admite que os dados vieram de suas próprias observações anedóticas. O que importa é que ninguém faz ideia de quantos casos estão por aí porque estamos vendo apenas uma fração dos testes feitos. Muitas pessoas estão fazendo testes em casa, e outras podem até dispensar o teste.

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E isso significa que fica difícil adaptar nosso comportamento à situação – como as autoridades de saúde pública nos incitaram durante as ondas anteriores. Osterholm acrescentou que, comparado com os surtos anteriores, há relativamente poucos óbitos desta vez, portanto a taxa de mortalidade está se aproximando da que as pessoas estão acostumadas a ver na gripe. “Não sabemos ao certo como agir”, disse Osterholm. Nunca precisamos mudar nossas vidas por conta da gripe. Mas tudo isso pode mudar novamente se a próxima variante for mais perigosa.

Repórteres de uma conferência de imprensa da Johns Hopkins Bloomberg School of Health esta semana quiseram saber se a pandemia havia acabado. A resposta do Dr. Tom Inglesby, diretor do Centro de Segurança da Saúde, foi que não. A outra pergunta foi se ainda fazia sentido tentar conter os casos. Inglesby disse que sim – mas parou de recomendar o uso de máscaras ou o distanciamento social. Ele enfatizou a ventilação, o que poderia suprimir eventos de contágio em massa, assim como garantir que máscaras de alta qualidade estivessem disponíveis para quem as quisesse.

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Bang Petersen disse que, no futuro, as autoridades de saúde pública precisam reconhecer que essas e outras restrições eram dispendiosas, e não apenas em termos econômicos ou educacionais. “Sabemos pelas pesquisas que o isolamento social é algo que tem uma série de custos em termos de bem-estar”. Faz mal para nossa saúde mental e física. E o constante uso de máscaras é isolante. É difícil ouvir, conectar-se e comunicar-se com os outros.

Esse é um argumento muitas vezes cientistas e especialistas em saúde pública deixam passar. O fato de as pessoas estarem socializando novamente – e sem máscaras – não significa que tenham deixado de se preocupar com sua saúde ou com a saúde dos mais velhos e mais vulneráveis. Para muitos, socializar não é algo frívolo; é essencial para a saúde mental.

Portanto, há esperança de um futuro mais coerente, disse Bang Petersen, desde que as autoridades de saúde pública considerem os custos sociais e emocionais e imponham apenas regras ou recomendações que tragam um benefício substancial e sustentado pela ciência. Isso significa pressionar pela melhor ventilação nos edifícios, criar campanhas de vacinação de reforço mais convincentes e emitir diretrizes mais claras para ajudar os mais velhos e mais vulneráveis a evitar riscos desnecessários. E também se preparar para outras variantes ao fazer continuamente o sequenciamento genético necessário para encontrá-las e planejar as ações no caso de uma cepa mais mortal.

O fim da pandemia não vai acontecer de forma comemorada como deveria ter ocorrido no ano passado, quando a Casa Branca planejou declarar a independência da covid em 4 de julho – mesmo dia em que o país comemora sua independência do Reino Unido.

“Acredito que as pessoas estejam psicologicamente fartas da covid”, disse Osterhom. Se você analisar a experiência de 1918... Em 1918 e 1919, foram múltiplas ondas, não foi apenas em 1918. E as pessoas cumpriam as recomendações de saúde pública, limitando as reuniões públicas, etc. Na primavera de 1920, logo após a marca de dois anos, as pessoas diziam: “Ah, tudo bem, vamos seguir em frente”.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Faye Flam é colunista da Bloomberg Opinion e fala sobre ciência. Ela apresenta o podcast “Follow the Science”.

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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