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Oferta que privatiza a Eletrobras é a segunda maior do ano no mundo

Operação deverá movimentar R$ 34 bilhões e diluirá a participação do governo para menos de 50% do capital votante

Privatização da Eletrobras sai do papel depois de anos de tentativas, desde o governo Temer na fase mais recente
Por Vinícius Andrade e Martha Beck
09 de Junho, 2022 | 01:53 pm
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg — O governo brasileiro está perto de abrir mão do controle da Eletrobras (ELET3; ELET6) por meio de uma oferta de ações que pode levantar até R$ 34 bilhões e figurar como a maior privatização do país em mais de duas décadas.

A Eletrobras está emitindo papéis novos, enquanto o BNDES – acionista vendedor – ofertará ações existentes em uma transação cujo preço será definido após o fechamento dos mercados nesta quinta-feira (9).

Em uma rara entrega concretizada entre as promessas de privatizações do presidente Jair Bolsonaro, os recursos provavelmente serão usados para financiar subsídios e outras medidas de alívio antes das eleições de outubro.

A participação do governo será diluída para abaixo de 50% do capital votante após a venda. A oferta pode movimentar até R$ 34 bilhões, com base no fechamento das ações em 8 de junho e considerando que o lote suplementar seja colocado integralmente, emergindo como a segunda maior oferta de ações ao redor do mundo no ano. O IPO da LG Energy Solution, da Coreia do Sul, movimentou perto de US$ 10,8 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões ao câmbio da época) em meados de janeiro.

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A privatização da Eletrobras é um passo importante no plano do ministro da Economia, Paulo Guedes, de reduzir o tamanho do Estado na economia, depois de diferentes projetos que ficaram no meio do caminho, como a venda dos Correios.

Também chega em um momento em que Bolsonaro, atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas para a eleição presidencial, precisa tranquilizar os investidores que questionam seu compromisso com a agenda liberal e, ao mesmo tempo, recuperar sua popularidade entre os brasileiros que o culpam pela alta inflação do país. O acordo pode ajudá-lo em ambas as frentes.

“É uma surpresa positiva”, disse Sylvio Castro, sócio-fundador e diretor de investimentos da Grimper Capital em São Paulo, ressaltando que a janela para a venda estava se fechando rapidamente à medida que o país se aproxima das eleições. “Pode abrir espaço para o debate sobre privatizações ganhar força.”

Os recursos levantados devem financiar uma redução nas contas de luz e, possivelmente, uma série de medidas propostas por Bolsonaro para reduzir os preços dos combustíveis e conter a inflação. Os preços ao consumidor, que subiram quase 12% na taxa em 12 meses até maio, tornaram-se uma questão decisiva para a campanha de reeleição de Bolsonaro.

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O governo revelou planos para privatizar a Eletrobras em 2017, sob a presidência Michel Temer. O processo só ganhou força nos últimos meses, no entanto, depois que o governo cedeu a várias demandas de parlamentares, como concordar com a construção de usinas termelétricas a gás natural, o que exigirá dutos e linhas de transmissão.

“Ironicamente, a privatização avançou pela frustração com a agenda liberal”, disse Elena Landau, que liderou o processo de privatização na década de 1990 enquanto trabalhava no BNDES. “É uma resposta ao mercado.”

Políticas divergentes

A venda da Eletrobras também ressalta um grande desacordo ideológico entre os candidatos à presidência. Enquanto Bolsonaro se comprometeu a avançar com o programa de privatização se reeleito, colocando a Petrobras na mira, Lula criticou duramente o processo e prometeu revertê-lo se vencer a eleição.

Privatizações adicionais seriam suspensas com Lula na presidência, mas sua ameaça de cancelar a venda da Eletrobras é considerada uma retórica por analistas, pois exigiria que o governo obtivesse autorização do Congresso para gastar uma grande soma de dinheiro para recomprar as ações. Também levantaria questões sobre a disposição do novo governo de respeitar os contratos, possivelmente assustando os investidores.

O negócio, que recebeu a aprovação do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Congresso, provavelmente se tornará a segunda maior oferta de ações do país já registrada após a capitalização da Petrobras para investir no pré-sal em 2010, que chegou a US$ 70 bilhões, segundo dados da Bloomberg. Provavelmente será a maior privatização brasileira desde a venda da Telebras em 1998.

Apesar das tentativas legais de última hora para inviabilizar a operação, há apetite suficiente dos investidores para que o negócio seja bem-sucedido, segundo duas pessoas com conhecimento do assunto. O preço das ações discutido está acima do valor mínimo estabelecido pelo TCU, acrescentaram as pessoas, pedindo para não serem identificadas porque as informações não são públicas.

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Os bancos coordenadores da oferta são BTG Pactual, Bank of America, Goldman Sachs, Itaú BBA, XP Investimentos, Bradesco BBI, Caixa Econômica Federal, Citigroup, Credit Suisse, JPMorgan Chase, Morgan Stanley e Safra.

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