Opinión - Bloomberg

Por que o consumidor pode ser o grande perdedor da crise, com ou sem recessão

Investimentos em infraestrutura, produção, automação e gastos com defesa colocam em jogo recursos antes acessíveis para o consumo

Boom no mercado de trabalho da indústria de produção de bens pode favorecer o consumo menos do que se imagina
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Opinion — As razões para se preocupar com uma recessão não param de crescer. Temos a luta contra a inflação por parte do banco central americano, um mercado imobiliário desaquecido, as seguidas advertências de varejistas e analistas de risco e anúncios constantes de demissões.

Mas uma parte do mercado de trabalho está emitindo um sinal oposto. As vagas de emprego na produção de bens, que inclui setores como manufatura, construção e extração de petróleo e gás, vem acelerando em vez de recuar, como ocorrido em recessões anteriores.

E existem alguns desdobramentos possíveis. Se a parte industrial da economia avançar enquanto outros segmentos recuam, isso pode significar uma mudança na atividade enquanto o Federal Reserve tenta controlar a inflação. Do outro lado, é possível que a força industrial force o Federal Reserve a continuar aumentando as taxas de juros a ponto de a economia entrar em recessão, seja ela leve ou não.

Mas ambos os cenários são más notícias para os consumidores.

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As indústrias de bens de produção respondem por 21 milhões de trabalhadores americanos e incluem a maioria dos negócios cíclicos afetados pelas crises. Essas empresas eliminaram três milhões de empregos no início dos anos 2000 e, após uma recuperação modesta, outros cinco milhões durante a recessão de 2008. O segmento perdeu ao todo pelo menos um milhão de empregos em cada recessão desde a Segunda Guerra Mundial.

Portanto, vale ressaltar que nos últimos 12 meses as indústrias de bens de produção criaram quase 800 mil empregos, o que não acontecia desde o início dos anos 1980 - até a pandemia chegar. Ainda mais significativo é que o nível de vagas de emprego nessas indústrias atingiu um recorde. Mas como podemos conciliar isso com todas as manchetes econômicas negativas que temos visto?

Há três setores principais em desaceleração neste exato momento: o setor de varejo, com os consumidores transferindo seus gastos de bens para serviços; áreas mais especulativas do setor de tecnologia; e habitação, com os valores crescentes das casas e das taxas de hipoteca em alta. Os dois primeiros têm muito pouco a ver com a economia industrial. A habitação é mais uma questão de preço porque a procura ainda supera a oferta, enquanto a produção de novas habitações continua forte.

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Já na economia de bens de produção, há a necessidade de mais petróleo e seus derivados refinados à medida que os preços continuam subindo. As montadoras estão tentando acompanhar a demanda enquanto lidam com a escassez de chips semicondutores, e a indústria está embarcando em uma transição dos veículos movidos a gasolina para veículos elétricos.

As empresas estão investindo em automatizar a produção enquanto lutam com a escassez de mão de obra. Há também o já mencionado déficit habitacional. A incerteza da cadeia de suprimentos está levando algumas empresas a trazer a produção estrangeira de volta para a América do Norte. E as empresas de defesa estão ocupadas enquanto os EUA e seus aliados europeus gastam dinheiro em suprimentos militares para ajudar a Ucrânia em sua guerra contra a Rússia.

A quantidade de aumentos nas taxas de juros já precificadas nos mercados – cerca de 3% para o início de 2023 – ainda não desacelerou essas áreas mencionadas da economia. Isso deve dar aos economistas e investidores a confiança de que as chances de entrar em recessão em 2022 ainda podem ser baixas.

Mas a maioria das pessoas só se preocupa com quanto custa comprar um carro, uma casa ou encher o tanque de gasolina – mas há ainda menos boas notícias pela frente. À medida que empresas e governos investem em infraestrutura, produção, automação e gastos com defesa, eles acabam colocando em jogo recursos antes acessíveis aos consumidores. E é bem improvável que qualquer coisa que faça uso intensivo de recursos ou mão-de-obra volte a ser “barata” enquanto esse boom na economia industrial continuar.

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Mas infelizmente esse ainda é um bom cenário. O ruim é esse aqui: digamos que o núcleo da inflação caia de seu pico de 5,3% em fevereiro para 3,5% no início do próximo ano. Isso parece melhor, mas não o suficiente para o Fed - o que pode significar outra rodada de aumentos nas taxas de juros além do que está atualmente precificado nos mercados.

Isso poderia finalmente ser suficiente para reduzir o boom industrial. Mas provavelmente também prejudicaria a economia o suficiente para causar os tipos de perdas de empregos como nas recessões passadas.

O boom na fabricação e na construção é tudo menos especulativo – sem dúvida, tudo isso representa investimentos necessários. Mas se o melhor cenário é manter esse boom industrial para evitar uma recessão, os consumidores precisam estar preparados para que as coisas continuem caras.

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– Esta notícia foi traduzida por Melina Flynn, Content Producer da Bloomberg Línea.

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