Finanças pessoais

Brasileiro estoura cartão e bate recorde de endividamento em março

Percentual de famílias com dívidas a vencer alcançou 77,5%, a maior em 12 anos, segundo pesquisa

Considerando os tipos de dívida, o cartão de crédito seguiu, em março, como destaque absoluto, representando 87% do total de famílias endividadas
31 de Março, 2022 | 11:52 am
Tempo de leitura: 4 minutos

São Paulo — Os brasileiros nunca estiveram tão endividados nos últimos 12 anos em meio à combinação de inflação elevada, que corrói o poder de compra, e juros em alta, que encarece a tomada de crédito. Em março, o percentual de famílias que relataram ter dívidas a vencer alcançou 77,5%, a maior proporção já registrada nos 12 anos da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, Há um ano, essa parcela era de 67,3%, 10,3 pontos percentuais abaixo do resultado atual.

Considerando os tipos de dívida, o cartão de crédito seguiu, em março, como destaque absoluto, representando 87% do total de famílias endividadas no país. O índice retornou ao maior percentual, com aumento de 0,5 ponto percentual em relação a fevereiro e de 6,7 ponto percentual na comparação com março de 2021.

A economista da CNC responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, avaliou que a retomada do consumo, especialmente de serviços, pelo grupo de maior poder aquisitivo, em um ambiente de reajustes de preços, ajuda a explicar o maior uso do cartão de crédito por esses consumidores. Além disso, ela considera que o panorama de endividamento elevado deve se manter, dada a continuação da deterioração das condições de consumo, principalmente com inflação persistentemente alta.

Entre as famílias com ganhos acima de dez salários mínimos, o uso do cartão de crédito apresentou o maior crescimento mensal, de 2,4 ponto percentual, e anual, de 8,1 ponto percentual, alcançando a proporção de 89,3% de famílias endividadas nessa faixa de rendimentos. Já entre as famílias de menor renda, o percentual permaneceu igual ao registrado no mês anterior, 86,5%, e os avanços aconteceram nas modalidades do crédito pessoal (0,3 ponto percentual) e cheque especial (0,2 ponto percentual).

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O crédito continuará caro, com a manutenção dos juros altos por mais tempo, em razão do novo choque nos preços aos consumidores. Somando-se à fragilidade apontada no mercado de trabalho, a dinâmica da inadimplência dos consumidores nos próximos meses seguirá sendo negativamente afetada”, afirma Izis.

A proporção de famílias com dívidas ou contas em atraso também alcançou o maior patamar da pesquisa, segundo a entidade. Com crescimento de 0,8 ponto percentual em relação ao mês anterior, o percentual registrado foi de 27,8%, 3,4 pontos percentuais mais alto do que o apresentado em março de 2021 e 3,7 ponto percentual acima do apurado antes da pandemia, em fevereiro de 2020.

Essa inflação alta, persistente e disseminada mantém elevadas as necessidades de crédito para recomposição da renda, fazendo com que as famílias encontrem nos recursos de terceiros uma saída para manutenção do nível de consumo”, comentou o presidente da CNC, José Roberto Tadros, em comunicado.

A parcela de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso e, portanto, permanecerão inadimplentes também acirrou, na passagem mensal, de 10,5% para 10,8% do total de famílias, um aumento de 0,3 ponto percentual.

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No recorte por faixa de rendimentos, a Peic apontou que, entre as famílias com ganhos acima de dez salários mínimos, a proporção de endividados atingiu o maior patamar da série, 73,7%, com incremento mensal de 1,5 ponto percentual, a maior expansão desde maio de 2019.

No grupo com renda até dez salários mínimos, o percentual chegou a 78,5%. Considerando os indicadores de inadimplência, 31,1% das famílias de menor renda encerraram o primeiro trimestre com algumas contas e/ou dívidas atrasadas, outro recorde histórico. Essa proporção alcançou 13,2% do total de famílias no grupo de renda superior, o percentual mais alto desde abril de 2016.

Cartão por aproximação

O uso do cartão de crédito aumentou também com o avanço do comércio eletrônico. A pandemia impulsionou o uso de novas formas de consumo, já que por alguns meses as lojas físicas estiveram fechadas. Segundo um estudo realizado pela Mastercard, em parceria com a Americas Market Intelligence (AMI), 46% dos brasileiros aumentaram o volume de compras online durante a pandemia e 7% realizaram uma compra online pela primeira vez no período.

Por ser uma tecnologia mais rápida, o pagamento por aproximação também registrou este aumento ao longo dos últimos anos. Segundo a Mastercard, em 2021 os pagamentos por esta modalidade cresceram seis vezes, em comparação com 2020. Os estabelecimentos que mais receberam pagamentos sem a necessidade de contato foram alimentação (restaurantes), farmácias e supermercados.

Segundo a Abecs (Associação Brasileira de Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), em 2021, foram 3.9 bilhões de transações sem contato, representando um volume financeiro de quase R200 bilhões.

Transações suspeitas

Com a aceleração do e-commerce, o número de golpes também tem crescido no país. O app Confi, que monitora vendas no e-commerce, evita fraudes e é gratuito. Ele ja investigou mais de 6,8 mil transações suspeitas desde 2019 que totalizam mais de R$ 8 milhões em transações.

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De acordo com a Neotrust, em 2021 o e-commerce teve faturamento de R$ 161 bilhões, aumento de 26,9% em relação a 2020. Se comparado a 2019, o comércio eletrônico teve um salto de 113,9%. O número de pedidos também subiu, somando mais de 353 milhões de compras no ano passado.

Para ajudar o consumidor a fazer compras mais seguras com o cartão de crédito, o especialista Felipe Píris, líder da Confi, separou quatro dicas que possibilitam uma experiência no e-commerce com mais confiança e proteção.

  • Não salve dados pessoais no navegador
  • Utilize o cartão virtual em compras online
  • Esteja atento à sua fatura
  • Use aplicativos confiáveis que protejam suas compras

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Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

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