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Como receber de uma empresa estrangeira trabalhando do Brasil

Enquanto empresas de todo o mundo disputam talentos de tech, latino-americanos são opção qualificada e barata – Parte 3 de 3

América Latina lidera ranking de profissionais que solicitam parte de seus salários em criptomoedas (52%), segundo a empresa Deel
05 de Março, 2022 | 04:59 pm
Tempo de leitura: 9 minutos

Bloomberg Línea — Como pagar os trabalhadores no exterior e como receber o salário? Quando as grandes empresas contratam no exterior, elas tendem a ter subsidiárias locais no país e contratam pessoas como funcionários. Mas a maioria das empresas contrata pessoas em outros países como autônomos.

A Bloomberg Línea vai explorar os novos rumos que latinos vêm tomando para conseguir novos empregos em TI, principalmente trabalhando em sua cidade natal. Portanto, provavelmente não precisarão se mudar nem terão muitos benefícios, apenas o valor agregado de salários competitivos para gastar localmente.

“Eles são membros da equipe em tempo integral, tiram férias, às vezes até ganham dinheiro extra para o seguro de saúde, mas legalmente são contratados como contratados”, explica Alexander Torrenegra, empresário e investidor colombiano-americano que escreveu “Remoter: the why-and-how guide to building remote success teams” (ou “Trabalho remoto: guia para criar empresas remotas bem-sucedidas”, em tradução livre).

A empresa de pagamentos Deel diz que o avanço das criptomoedas é uma realidade, e o principal benefício ao realizar pagamentos desse tipo é ter essa contrapartida com os funcionários.

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Por meio de uma parceria com a Coinbase, a Deel oferece essa possibilidade a prestadores de serviços que recebem pagamentos pela fintech e lhes dá liberdade de escolha para que escolham o que faz mais sentido para eles.

“Nosso objetivo é oferecer múltiplas opções para nossa base. Não conseguimos entrar no mérito das desvantagens ou riscos, pois essa responsabilidade está concentrada no nosso parceiro”.

De acordo com o relatório da Deel, a América Latina lidera o ranking de profissionais que solicitam parte de seus salários em criptomoedas (52%), sendo Argentina, Nigéria e Brasil os países que mais movimentam os números.

A Deel lançou recentemente a opção de folha de pagamento global em criptomoedas para empresas. Anteriormente, na plataforma, os contratados podiam sacar uma porcentagem de seus salários em criptomoedas, mas a partir de agora as empresas também podem adicionar essa opção de folha de pagamento na criptomoeda USDC para pagar funcionários.

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“Escolhemos o USDC porque é menos volátil e é uma moeda atrelada ao dólar. Acreditamos que seja mais um passo para popularizar a criptomoeda e uma ótima maneira de os empregadores atraírem talentos”, diz o unicórnio de pagamentos.

A Deel ultrapassou US$ 1 bilhão em pagamentos. Entre julho e dezembro de 2021, o volume de contratados ativos no Brasil cresceu 241%.

“Os países latinos têm mão de obra qualificada e barata, por isso gestores de empresas europeias e norte-americanas estão direcionando muitas oportunidades para essa região, principalmente quando o assunto é tecnologia”, afirma a Deel. Segundo o levantamento de dados da Deel, a contratação de profissionais da América Latina por outros países aumentou quase 300% no último semestre de 2021.

De acordo com a empresa, existe uma complexidade tributária e legal nos contratos e pagamentos internacionais. A Deel diz que tem mais de 200 advogados em todo o mundo para garantir que não haja problemas legais com pagamentos de folha de pagamento.

“Automatizamos todo o processo de pagamento, eliminando grande parte da burocracia envolvida no processo. Existem vários impostos para pagamentos entre países a serem feitos, como SWIFT e IOF, mas as empresas que contratam internacionalmente não veem esse ponto como um problema, pois consideram a decisão um investimento”.

Especialmente para o Brasil, a Deel possui um mecanismo de faturamento local que permite que os brasileiros paguem as faturas em moeda local, o que, segundo a empresa, gera economia de até 50% nas despesas das empresas nacionais.

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O caso da Estônia

Dependendo do país, os funcionários sacam o salário nas contas bancárias localmente ou apenas uma parte e mantêm o restante do dinheiro na nuvem, como em criptomoedas, para que não precisem nacionalizar o dinheiro e pagar impostos.

Outros estão abrindo empresas em lugares como a Estônia, que permite residência eletrônica. Isso significa que fucnionários recebem na Estônia e depois enviam o dinheiro para o país onde moram. “Isso acabou de ser inventado”, diz Torrenegra.

A Estônia era um país independente e, então, ocorreu a Segunda Guerra Mundial. A Estônia foi ocupada pela Rússia na União Soviética. A União Soviética era uma grande federação, e, na década de 60, a Estônia tinha uma posição especial na área cibernética. O país administrava toda a unidade cibernética da União Soviética.

Nos primórdios, a história da computação antes da internet começou na área de cibernética na Estônia no início dos anos 60, segundo a chefe de relações públicas do programa de residência eletrônica na Estônia, Katrin Vaga, em entrevista à Bloomberg Línea. “Pode-se dizer que temos experiência nesse tipo de educação tecnológica antes do nascimento da World Wide Web, antes do Google, antes da popularização do ambiente digital”.

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Quando a Estônia conquistou a independência em 1991, o processo aconteceu pacificamente com o fim da União Soviética. “Mas na Europa somos um país minúsculo, temos uma história muito longa, temos nossa própria língua, nossa própria cultura, então temos uma identidade muito forte, mas somos apenas 1,3 milhão de pessoas”, diz Vaga. É por isso que o país está envidando esforços para implementar o programa de residência eletrônica, principalmente na América Latina. Em maio do ano passado, o Brasil ficou em 30º lugar entre os mais de 170 países que mais se cadastraram no programa da Estônia e, em pouco mais de seis meses, já subiu duas posições no ranking. Atualmente, existem 900 brasileiros e mais de 200 empresas criadas por brasileiros no ecossistema de startups da Estônia.

No ano passado, foi inaugurado em São Paulo um novo ponto de coleta para entrega do cartão de residência eletrônica. É o único lugar físico disponível na América Latina até agora, mas a Estônia quer ampliar isso para a região.

O programa de residência eletrônica nasceu em 2014. “Todo mundo na Estônia usava smartphones para qualquer coisa utilizando a identificação digital. No entanto, o país é pequeno e precisamos de investidores estrangeiros e bancos e empresas de telecomunicações. Não tínhamos a identificação digital para estrangeiros que moravam na Estônia e, inicialmente, a residência eletrônica estava disponibilizando a infraestrutura da identificação digital para estrangeiros que moravam fora do país”, explicou Vaga.

Mas, organicamente, os brasileiros começaram a se cadastrar na residência eletrônica, e, como um efeito dominó, o programa passou a atingir não apenas empresários que já moravam na Estônia. “As pessoas diziam: ‘Sou cidadão estoniano e nunca visitei o país. Gostaria de ir até lá e talvez abrir uma empresa na Estônia porque é um país da União Europeia’”, diz ela.

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Segundo ela, a visão da residência eletrônica hoje é tornar o empreendedorismo acessível, fácil e desburocratizado. “Nós oferecemos uma porta de entrada para o mercado da União Europeia. Nossas identificações digitais têm padrões de segurança muito altos na UE e são muito seguros”.

A residência eletrônica é um benefício do governo da Estônia no qual os estrangeiros podem criar uma empresa e não há obrigações. “Tem mais a ver com capacitar empreendedores de todo o mundo para criar e administrar seus negócios sem vínculos com uma localização. Não importa onde você está fisicamente. Os serviços comerciais da Estônia permitem que você administre seu negócio na Austrália ou no Brasil. Você não precisa vir para a Estônia”.

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Para a Estônia, trata-se muito de soft power. “Se você está em um país pequeno e sem voz ativa, isso nos ajuda a ter mais relevância no mundo. E nos ajuda a crescer, porque a residência eletrônica de certa forma é uma diáspora de fãs da Estônia. Para um país com baixa taxa de natalidade e uma população muito pequena, isso é de grande valor”.

O país diz que está aumentando seu ecossistema de startups e tecnologia e precisa de pessoas talentosas em tecnologia com novas ideias. " A residência eletrônica, o visto para startups, todos esses são programas que estão atraindo talentos estrangeiros. Não estamos atraindo pessoas para trabalho braçal, estamos atraindo os cérebros para inovação, tecnologia, para tornar nossa economia maior e mais forte”.

30% das startups da Estônia são criadas por residentes eletrônicos, e 20% de todas as novas empresas na Estônia por ano são criadas por residentes eletrônicos. “Não é que os impostos sejam mais baixos, depende também do perfil da sua empresa. Se sua empresa está na Estônia, mas seus clientes estão no Brasil, você ainda tem que pagar impostos no Brasil. Existem regras internacionais para isso, uma residência eletrônica não significa uma residência fiscal”, explica.

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Construir o próprio país da Estônia com parlamentares, cargos públicos é uma grande tarefa para um país com uma população menor do que a cidade paulista de Guarulhos. Um dos motivos pelos quais a Estônia escolheu seguir o caminho digital foi que não tinha petróleo, gás ou commodities. Os jovens líderes, ao mesmo tempo, buscam uma forma sustentável e inteligente de construir o país.

A Estônia se tornou um país moderno. “No sistema bancário da Estónia, nunca tive talão de cheques”, diz Vaga. “Passamos por cima de certos serviços manuais e os tornamos imediatamente digitais. Decidimos muito cedo que a internet deveria estar disponível gratuitamente para todos. As possibilidades digitais devem estar disponíveis para os alunos”.

A Estônia envidou esforços educacionais para lançar computadores ao público. Primeiro, os bancos chegaram à Estônia e começaram a estabelecer serviços privados online. A Estônia tinha fintechs antes mesmo de “fintech” ser um jargão. “Era fácil fazer pagamentos internacionais”.

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A infraestrutura de segurança do país é baseada em blockchain. Além disso, a Estônia criou serviços públicos – documentos de identidade, impostos eletrônicos – e as pessoas podiam declarar seu imposto de renda totalmente online. Atualmente, todos os serviços estatais são digitais, exceto casamento e divórcio.

Os setores público e privado estão trabalhando juntos para criar um ecossistema que acolha o talento estrangeiro. E incentivando a inovação, de acordo com Vaga. Os desenvolvedores da Estônia criaram o Skype e o Wise, unicórnio das remessas internacionais. “A Wise nasceu porque seu fundador foi o primeiro funcionário do Skype, é um ecossistema de startups”.

Enquanto países como a Estônia acreditam que esse tipo de abordagem também pode trazer dinheiro para o país com o trabalho remoto, outros afirmam que empresas e funcionários precisam pagar impostos sobre sua renda global.

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“Vai ser quase impossível proibir a contratação de estrangeiros. Você sempre pode criar uma subsidiária que pode contratar pessoas remotamente. É uma legislação absurda para tentar proteger os trabalhadores remotos que não estão visualizando as consequências de permitir que as empresas sejam competitivas ao poder contratar globalmente”, diz Torrenegra.

“A maioria das pessoas abre uma empresa em qualquer lugar. O fato de eu morar nos Estados Unidos não significa que eu tenha que abrir uma empresa nos EUA; posso abrir uma na Estônia. Se você mora no Brasil, às vezes é mais fácil abrir uma empresa nas Ilhas Cayman do que localmente, pois há regulamentações sobre a contratação de talentos remotos. Tudo é muito novo e os políticos estão muito atrasados em relação às tendências”.

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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Isabela  Fleischmann

Isabela Fleischmann BR

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups