Carros autônomos, robôs humanóides, um gigantesco negócio de energia
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Bloomberg Opinion — Como sentimos falta de Elon Musk. A ausência do CEO da Tesla (TSLA) na teleconferência de resultados de outubro deixou o tom da reunião bastante seco e empolado - ou, daquele jeito que todo mundo sabe como é, uma teleconferência normal sobre lucros. No entanto, seu retorno na quarta-feira (27) à noite reacendeu um pouco da velha magia.

Musk estava de volta por dois motivos óbvios. Primeiro, esses foram ótimos resultados. A Tesla deu grande importância ao fato de que os ganhos de US$ 5,5 bilhões do ano passado foram maiores do que todas as perdas acumuladas da empresa. Musk arriscou dizer que isso fez da Tesla uma “empresa real”.

A segunda razão diz respeito a uma notícia decepcionante: a Tesla não lançará nenhum novo modelo este ano, incluindo o tão esperado (e atrasado) Cybertruck. Revelar essa informação sem alarmar os fiéis exigia o toque hábil do professor.

E ele usou o seu talento para minimizar a importância do negócio principal – aquelas caixas de metal rolantes dirigidas por carne com olhos – e falar de robôs e veículos autônomos, às vezes com um ar de repreensão. Quando um analista questionou a viabilidade das metas de crescimento da Tesla, Musk desviou do assunto com a sutileza de um Cybertruck, reclamando que “a relevância da Full Self Driving não é totalmente reconhecida”. Ninguém partiu para investigar se as previsões repetidas e não realizadas de Musk sobre os robôs-táxis podem ter algo a ver com isso.

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Em outros pontos, Musk falou sobre a perspectiva tentadora de robôs sendo responsáveis pela criação de uma economia pós-trabalho e novamente previu a chegada iminente do robô-táxi. Isso vai baratear tanto o transporte ponto a ponto que os ônibus e os metrôs serão abandonados, disse ele, causando engarrafamentos horríveis (bom gancho para seu empreendimento de túneis, a Boring Company). Fiquei um pouco confuso, porém, porque Musk afirmou, por um lado, que os robôs-táxis reduziriam o custo efetivo de um veículo e, por outro, sugeriu que o Cybertruck estava atrasado em parte pela necessidade de torná-lo acessível.

Tá tudo muito bem, tá tudo muito bom… um pouco de humor não deve ofuscar as conquistas reais. A Tesla vendeu quase um milhão de veículos no ano passado, quase o dobro do ano anterior, apesar dos problemas da cadeia de suprimentos no setor automobilístico. As questões existenciais que perseguiram a empresa durante o lançamento do Model 3, em 2017, já não existem mais. Agora é o veículo elétrico mais vendido do mundo, e a Tesla tem uma reserva de caixa de quase US$ 18 bilhões (e também parece pronta para obter uma classificação de crédito de grau de investimento em breve). Pergunte às montadoras antigas, que estão enfrentando dificuldades para mudar a estratégia, se elas acham que a Tesla é uma “empresa real”.

Mesmo assim, vender a visão continua sendo primordial porque, embora o momento da Tesla seja fenomenal, seus resultados são ofuscados por seu valor de mercado de quase trilhões de dólares. Mesmo supondo que a empresa venda 50% mais veículos a cada ano ao longo desta década e ganhe uma margem líquida inédita de 20% em cada um, ainda seria necessário muito mais para justificar a valuation [1]. Essa lacuna é preenchida pela crença em Musk como um novo Edison e no futuro ele descreve: carros autônomos, robôs humanóides, um gigantesco negócio de energia. Estes são mercados viáveis do tipo “escolha sua própria aventura”. O próprio Musk disse que a Full Self Driving “se tornará a fonte mais importante de lucratividade para a Tesla”.

O argumento óbvio para qualquer ceticismo é que Musk já realizou feitos incríveis. Não há dúvidas quanto a isso, mas a valuation da Tesla sempre esteve muitos passos à frente - de fato, tinha mesmo que estar para conseguir atrair grande parte do dinheiro para financiar essas perdas acumuladas antes que os lucros chegassem. Mesmo com todos esses Teslas na rua, a esse preço dá para se agarrar a uma opção de um futuro não apenas transformado, mas também dominado pela Tesla. E junto com isso vem uma certa volatilidade; o valor de mercado da Tesla ultrapassou US$ 300 bilhões no espaço de cinco semanas.

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Se não houver novos modelos para mover o eixo este ano, o foco de Musk em produzir cada vez mais automóveis entre os que já existem parece ser a melhor maneira de continuar recebendo a aprovação dos otimistas. No entanto, esse valor de opção descomunal significa que as ações da Tesla também podem ser guiadas pelas palavras e ações de outro homem que apresentou um desempenho muito esperado na quarta-feira (26). O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, nunca gera o mesmo nível de entretenimento. Ainda menos quando ele está soando um tom mais agressivo do que nos anos anteriores desde a IPO da Tesla.

[1] Isso pressupõe um preço de venda nominal médio de US$ 50.000 e uma taxa de desconto de 10%. Seria uma suposição de que a Tesla vai vender quase 36 milhões de veículos em 2030, ou mais de um em cada três de todo o mercado global (!). Os fluxos de caixa descontados de 2022 a 2030 somam cerca de US$ 535 bilhões, 43% abaixo do valor de mercado atual.

Liam Denning é colunista da Bloomberg Opinion e cobre energia, mineração e commodities. Anteriormente, foi editor da coluna “Heard on the Street”, do Wall Street Journal, e escreveu para a coluna “Lex”, do Financial Times. Também foi banqueiro de investimentos.

Os editoriais são escritos pela diretoria editorial da Bloomberg Opinion

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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– Esta notícia foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.

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