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Como a grande indústria da carne alimenta a destruição da Amazônia

O maior produtor de carne bovina do mundo diz não tolerar o desmatamento da floresta tropical. Não é o que mostra a análise da Bloomberg

Gado supera o número de pessoas em quase 20 para 1 na cidade
Por Jessica Brice
27 de Janeiro, 2022 | 06:08 am
Tempo de leitura: 20 minutos

Bloomberg — São Félix do Xingu é um Velho Oeste moderno no meio da selva amazônica brasileira povoado por habitantes que têm pouco a perder. O gado supera o número de pessoas em quase 20 para 1 e, depois do anoitecer, as estradas de terra cheias de crateras são ocupadas por grandes guindastes que transportam os troncos gigantescos de árvores roubadas. É um lugar que os forasteiros não têm muitos motivos para visitar, onde os motociclistas não usam capacete porque as pessoas querem saber quem está indo e vindo. Quase todo mundo conhece todo mundo, especialmente Stanisley Ferreira Sandes.

Quatro meses por ano, Ferreira Sandes, 47 anos, cruza os quase 85 mil quilômetros quadrados de São Félix em um Chevrolet quatro por quatro com um chapéu de cowboy no painel e um revólver sob o banco. Ele está em busca de 5.000 cabeças de gado para alimentar um canal que fornece carne bovina por meio de frigoríficos de propriedade da gigante brasileira de proteínas JBS (JBSS3) e outros, depois para mercados de Miami a Hong Kong. Quanto mais rápido ele atingir sua marca, mais cedo vai para casa. Mas a concorrência é acirrada e o andamento lento. Ele visita três fazendas por dia – quatro, se ele for rápido – pegando 23 vacas aqui, 68 ali. Para compradores como Ferreira Sandes, não há lugar melhor do que São Félix do Xingu. Com 2,4 milhões de cabeças, abriga o maior rebanho do Brasil. “Se o que você procura é gado”, diz ele, “não precisa ir a nenhum outro lugar”.

Mas o município, que é do tamanho da Irlanda, também reivindica um título mais notório. É a capital mundial do desmatamento. Entender como a indústria de carne bovina do Brasil e a destruição da floresta tropical estão inextricavelmente interligadas revela uma verdade que a JBS não reconhece: como o maior produtor de carne bovina da região, sua cadeia de fornecedores, também está entre os maiores impulsionadores do desmatamento da Amazônia que o mundo já conheceu. Embora se venda como amiga do meio ambiente, a JBS abocanhou mais gado vindo da Amazônia do que qualquer outro frigorífico em um setor que é o principal culpado pelo fim da floresta tropical. Isso ajudou a levar a maior floresta tropical do mundo a um ponto de inflexão em que já não desempenha mais o papel de limpar o ar da Terra, porque grandes áreas agora emitem mais carbono do que absorvem. No final do ano passado, na cúpula climática COP26, em Glasgow, governos e instituições financeiras – incluindo investidores da JBS – assumiram compromissos verdes ambiciosos para alterar drasticamente seus modelos de negócios para salvar o meio ambiente. Com o desmatamento da Amazônia no nível mais alto dos últimos 15 anos, a JBS é um estudo de caso que ilustra como é difícil cumprir tais promessas.

Há mais de uma década, a JBS se compromete a não incluir em sua cadeia de fornecedores animais nascidos ou criados em terras desmatadas. A Bloomberg analisou cerca de 1 milhão de registros de entrega que a JBS publicou acidentalmente na internet para mostrar até que ponto chegou a sua atuação na Amazônia nesse período. Uma viagem de 10 dias ao coração da pecuária do Brasil mostrou a facilidade com a qual animais de terras desmatadas ilegalmente entram nas cadeias de abastecimento. A JBS diz que estabelece os mais altos padrões para seus fornecedores, mas está usando uma versão inautêntica da origem de um animal - que passa por um processo de greenwashing - e trabalhando dentro de um sistema legal tão cheio de brechas que promotores, ambientalistas e até mesmo fazendeiros consideram isso uma farsa.

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Solicitada a responder a este artigo, a JBS disse que “não tolera desmatamento ilegal”. A empresa sediada em São Paulo acrescentou que “mantém, há mais de 10 anos, um sistema de monitoramento geoespacial que utiliza imagens de satélite para monitorar seus fornecedores em todos os biomas” no Brasil.

Os moradores de São Félix do Xingu marcam a passagem do tempo da mesma forma que os moradores de um centro urbano – por tudo o que mudou. Mas, em vez de falar sobre o que foi construído – um arranha-céu ou um shopping center – falam sobre o que foi derrubado. Algumas décadas atrás, era tudo floresta tropical; agora, a maior parte do que você vê ao passar por lá é pastagem. Quase nenhum gado pastava na terra; hoje, mais de um milhão de hectares de mata de São Félix foram substituídos pelos animais. Naquela época, o mundo não sabia da ligação catastrófica entre carne bovina e desmatamento. E então um promotor novato relutante chamado Daniel Azeredo desembarcou no estado do Pará, onde fica São Félix.

Clarão próximo a estrada que leva a São Félix do Xingudfd

O cargo estava longe de ser a primeira escolha de Azeredo, mas nenhum de seus colegas mais antigos do Ministério Público Federal queria ocupá-lo. Em uma nação devastada pela violência e corrupção, o estado do Pará é particularmente sem lei. “Coloque desta forma”, diz o advogado de 40 anos, “quando cheguei em 2007, havia cerca de 30 mil a 40 mil incêndios individuais em toda a Amazônia a cada ano, e os reguladores e a polícia não tinham ideia de quem era o responsável.”

Assim que sujou as botas, viu que aquilo era obra da pecuária. Mais de 70% das terras desmatadas na Amazônia se transformam em pastagens, o primeiro passo de uma cadeia produtiva que está entre as mais complexas do mundo.

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Desmatamento avança com o gado

Proprietários de fazendas na Amazônia estão legalmente autorizados a desmatar uma parte de suas terrasdfd

Cadeia de fornecedores

Em uma extremidade da cadeia de fornecimento de carne bovina brasileira estão 2,5 milhões de criadores de gado, muitos em cantos distantes da Amazônia, sem repartições públicas, escolas ou mesmo telefones. Do outro estão compradores corporativos em 80 países, incluindo redes de fast-food, supermercados e fabricantes de sapatos e bolsas de couro. “No meio estão os frigoríficos”, diz Azeredo. “Então eu pensei: ‘Bem, é isso. É atrás deles que temos que ir.’”

Em junho de 2009, ele fez justamente isso. Uma investigação de dois anos culminou com promotores federais sinalizando frigoríficos que compravam gado de terras desmatadas ilegalmente. O Greenpeace aproveitou o trabalho de Azeredo e publicou um relatório histórico que mudou a compreensão do mundo sobre o desmatamento. O grupo ativista criticou marcas globais por comprar carne bovina e couro de um trio do que disse serem os piores infratores da Amazônia: JBS, Marfrig Global Foods (MRFG3)e Bertin. Clientes corporativos ameaçaram boicotar as empresas se não limpassem suas cadeias de fornecedores, e a equipe de Azeredo elaborou um acordo e um cronograma para fazê-lo.

Sem nenhuma lei na constituição brasileira que proíba especificamente a compra de bens de terras desmatadas, o acordo com os promotores estabelece as únicas diretrizes que os frigoríficos seguem na Amazônia – mas são voluntárias e, na opinião do próprio Azeredo, muito fracas. A crescente pressão de investidores e clientes levou os grandes exportadores a assinarem o contrato, mas vários outros simplesmente se recusaram e continuaram comprando abertamente os animais sem se preocuparem com a origem deles.

A JBS foi uma das primeiras a assinar, em julho de 2009. Mas também se expandiu agressivamente na Amazônia nos anos seguintes. Ela comprou rivais, incluindo a Bertin, para se tornar a maior produtora de couro do mundo, e atraiu o escrutínio de promotores e ambientalistas.

A empresa se sentiu injustamente apontada. Quatro executivos da alta gerência da gigante da carne bovina disseram em entrevistas no ano passado, concedidas sob condição de anonimato, que o gado que passa pelo processo de “greenwashing”, ou seja é criado em terras desmatadas e depois levado para fazendas “limpas” ou legais e tem sua origem registrada a partir dali, é um problema de todo o setor. Dado que muitos frigoríficos não assinaram o acordo dos promotores, os padrões da JBS são muito mais altos do que muitos, dizem eles. A JBS diz que verifica dezenas de milhares de fazendas diariamente e bloqueou mais de 14 mil fazendas fornecedoras por não cumprirem suas políticas.

“Fazemos isso há mais de 10 anos”, disse Wesley Batista Filho, chefe de operações na América Latina e Oceania, em entrevista coletiva por vídeo no final de 2020 sobre o monitoramento da empresa. “Cem por cento dos nossos fornecedores do bioma seguem esses critérios, ou seja, desmatamento zero”, disse Batista, de 30 anos, neto do fundador.

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A JBS fez tais declarações repetidamente, mas elas vêm com uma ressalva. A cadeia de fornecedores é dividida em dois grupos: fornecedores diretos e indiretos, e a JBS verifica apenas a legalidade dos primeiros, sem saber quase nada sobre o segundo grupo, o que é uma violação dos acordos que assinaram. É como dizer que o dinheiro lavado está limpo porque o banco que supervisiona a conta corrente não cometeu o crime. As instituições financeiras não são liberadas tão facilmente desse compromisso; os frigoríficos da Amazônia são.

Mesmo alguns dos maiores investidores da JBS parecem não perceber a distinção. “Não entendemos a polêmica”, disse João Carlos Mansur, diretor geral da REAG Investimentos, que é o quarto maior investidor da empresa, com participação de R$ 5,66 bilhões (US$ 1 bilhão). “Eles já têm toda a sua cadeia produtiva mapeada, desde a origem do bezerro até o abate.”

Mas o gado no Brasil é transferido, em média, duas ou três vezes, chegando até a seis, dependendo do caso, antes de ser abatido, segundo o Laboratório Gibbs de Uso da Terra e Meio Ambiente da Universidade de Wisconsin, em Madison. A JBS monitora sistematicamente apenas a última fazenda ou rancho de confinamento na vida de uma vaca.

"Todos os dias há vacas indo e vindo"dfd

Compra de gado

Ferreira Sandes, o comprador de gado, começa sua manhã em São Félix do Xingu com um misto quente e um telefone cheio de mensagens. Os fazendeiros locais lhe enviaram uma dúzia de vídeos de vacas em oferta. Ele observa os animais trotando pela tela, anota os lotes que lhe interessam, depois atravessa a cidade até chegar a uma pequena fazenda no final de uma estrada de terra.

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Em um pequeno lote cercado, 20 bovinos o aguardam. São o que se conhece em português como “gados magros”, vacas magras, com as costelas visíveis através da carne tão solta que balança quando andam. Ferreira Sandes fechou o negócio com o grupo por cerca de R$ 70 mil. Tudo o que resta agora é marcá-los. Com um grunhindo gutural — “Oooooi! Uuuuuuu-ia! Vaaaai!” — um vendedor de gado conduz as vacas em fila única através de um curral estreito. Ferreira Sandes enfia um ferro em brasa incandescente por entre as ripas de madeira. Uma fração de segundo no traseiro, sobe a fumaça e uma letra T - para transporte - enegrecida está queimada acima da perna esquerda do animal, ao lado de meia dúzia de outras marcas. Cada um representa um passo diferente em sua jornada até agora.

As vacas estão no rancho atual há apenas alguns dias. O dono da fazenda, um homem de passos lentos que diz se chamar Tonico Nogueira, ganha a vida vendendo gado. “Todos os dias, há vacas indo e vindo”, diz ele. “O gado chega, fica um ou dois dias e depois parte novamente em um caminhão.” Estações de passagem e intermediários como Nogueira são pontos-chave de discórdia para ambientalistas e pesquisadores, que dizem ser o cerne da farsa que garante o fornecimento constante de animais de terras desmatadas. Para provar isso, grupos ativistas como o Greenpeace e pesquisadores do Wisconsin à Bélgica examinam centenas de milhares dos chamados GTAs – documentos de sanitização animal que autorizam o transporte de gado – para montar a jornada de uma vaca tão claramente quanto está marcada em seu couro.

O Ciclo de vida do Gadodfd

Documentos ocultos

O governo brasileiro mantém os documentos ocultos, alegando preocupações com a privacidade. Alguns grupos ativistas acumularam bancos de dados, por meio de ferramentas de extração de dados da internet, que estão em execução há anos, usando uma técnica conhecida como força bruta, para adivinhar aleatoriamente identificadores alfanuméricos com muitos caracteres. Armados com os bancos de dados, os ativistas às vezes podem conectar os pontos de uma fazenda desmatada onde um animal nasce ao matadouro onde é abatido.

Ferreira Sandes não pergunta onde esteve o gado antes de comprá-lo e diz que a papelada está sempre em ordem. Tudo o que ele precisa é de um GTA listando o pequeno terreno de Nogueira como origem e a Fazenda Lageado, a fazenda 10 horas a sudeste para a qual Ferreira Sandes trabalha, como destino. Em um ou dois anos, uma vez que as vacas tenham ganhado metade do peso corporal novamente e seu couro tenha ficado retesado sobre a carne e a gordura acumulada, outro GTA será emitido para que possam ser enviados para o abate, e uma nova fazenda de origem documentada. Quando Batista Filho disse que 100% dos fornecedores da JBS estão livres de desmatamento, ele estava falando apenas dessa versão editada de sua jornada.

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“Fomos informados de que a JBS está usando (sua auditoria anual) como prova de que suas práticas totais de abastecimento de gado são livres de desmatamento”, diz DNV GL, ex-auditor de cadeia de fornecedores da JBS, em carta de julho de 2020 à JBS. “Dado que não houve rastreamento de fornecedores indiretos, a JBS não pode utilizar o laudo de avaliação como comprovação de boas práticas em toda a sua cadeia de fornecedores.

A empresa disse que deixa claro em suas comunicações aos investidores e em declarações públicas que não está falando sobre toda a cadeia de fornecedores. “A JBS reconhece que as verificações da cadeia de fornecedores ainda não incluem fornecedores indiretos”, disse à Bloomberg. Na mesma coletiva de imprensa em que Batista Filho falou, ‘fornecedores de fornecedores’ são mencionados em várias ocasiões, disse a empresa.

No terreno de Nogueira, a marcação do gado termina em meia hora e Ferreira Sandes está de volta em sua camionete, atravessando um rio imenso de balsa, dirigindo tão rápido por estradas de terra que a poeira vermelha bloqueia a visão à frente. Quando seu dia terminar, 12 horas depois, ele terá visitado três outras fazendas, nenhuma das quais está em conformidade com as regras e regulamentos do Brasil, de acordo com entrevistas e uma verificação cruzada das coordenadas de GPS das propriedades e registros públicos. Um proprietário foi embargado pelo regulador ambiental do Brasil; o segundo foi sinalizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por desmatamento. Seu gerente falou livremente sobre levar o gado para um terreno ao lado para fazer uma venda. A dona do último rancho, uma matriarca com cheia de auto-confiança chamada Divina, trata abertamente os registros de vacinação com a ajuda de um funcionário do governo local e um balconista de uma loja de suprimentos para animais antes que ela possa emitir seu GTA. Acordos paralelos, soluções alternativas, confusão – é assim que sempre foi no país do gado, diz Divina. “Não temos governo, educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de fornecedores da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento.

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Se alguma das vacas que Ferreira Sandes compra vai ou não parar nos frigoríficos da JBS é impossível saber. A origem dos animais da fazenda Lageado, assim como milhares de outros fornecedores diretos do ecossistema da empresa, é incerta. Um estudo de 2020 publicado na revista Science descobriu que essa mistura significa que mais da metade de todas as exportações de carne bovina da região para a União Europeia podem ser contaminadas pelo desmatamento.

Ciclo da carnedfd

Nuances da lei

A JBS não divulga números específicos de produção, mas números incluídos em uma investigação do Congresso em Mato Grosso, o maior estado da Amazônia produtora de gado do Brasil, mostra que a demanda da JBS por si só impulsionou o crescimento do abate entre 2009 e 2015.

As leis e regulamentações anti-desmatamento no Brasil são cheias de nuances, e a JBS é uma empresa que vive nas letras miúdas. Os proprietários de fazendas na Amazônia estão legalmente autorizados a desmatar uma parte de suas propriedades, e aqueles que exageram no corte de árvores antigas podem retomar as vendas de gado apelando ou prometendo replantar. Por décadas, o governo também faz vista grossa quando as terras da Amazônia são invadidas e arrasadas, estabelecendo mecanismos para que os posseiros possam vender gado legalmente e também perdoando os grileiros, concedendo-lhes títulos de propriedade. “Os grandes frigoríficos estão sempre reclamando de ter que liderar essas iniciativas, quando na verdade o governo deveria liderar”, disse Azeredo, procurador federal. Ele disse que a marcação comum brinco na orelha do animal no momento do nascimento seria a coisa mais próxima de uma bala de prata e não custaria muito, mas tanto as empresas quanto o governo resistiram a esse plano. “Eu adoraria obrigá-los”, disse Azeredo, “mas, como não há lei, não posso”.

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A JBS afirmou seguir escrupulosamente as regras para fornecedores diretos e é rápida em argumentar que muitas alegações contra ela que vão parar nas manchetes não são realmente ilegais. Mas quando todos os casos podem ser tão facilmente defendidos pela lei brasileira, surge a questão mais ampla se um frigorífico do tamanho da JBS, operando em uma região tão sem lei quanto o Norte do Brasil, pode argumentar de boa fé que sua cadeia de fornecedores está perto de ser livre do desmatamento.

Investidores preocupados

Vemund Olsen, analista sênior de sustentabilidade da Storebrand Asset Management, que tem mais de US$ 100 bilhões sob gestão e detinha ações da JBS até que a empresa se envolveu em um escândalo de corrupção em 2018, disse que não. “Todo ano, saem relatórios que documentam gado de terras desmatadas entrando na cadeia de fornecedores da JBS”, disse ele. “Eles não deveriam precisar da mídia ou das ONGs para fazer esse trabalho para eles.”

Clientes e investidores estão cada vez mais sinalizando que não estão confortáveis com a pegada amazônica dos maiores frigoríficos do Brasil, mesmo que esteja dentro da lei. Em dezembro, as redes de varejo europeias Sainsbury’s e Carrefour disseram que restringiriam as compras de carne bovina do Brasil por causa de ligações ao desmatamento.

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No final de 2020, a JBS novamente prometeu rastrear toda a cadeia de fornecedores indiretos, desta vez usando um aplicativo construído na tecnologia blockchain para registrar os documentos de transporte do GTA. Analistas financeiros e alguns investidores elogiaram a medida. “Quando eles elegem algo como prioridade máxima, eles entregam”, disse Pedro Leduc, chefe de pesquisa da BLP Asset, na época. Mas para observadores que acompanham a Amazônia há muitos anos, como Azeredo e ambientalistas, a medida se parecia muito com as promessas que a gigante da carne bovina fez uma década antes.

Em uma tarde abafada no início de outubro, alguns dos maiores pecuaristas do estado do Pará se reúnem em um parque de exposições para uma feira de quatro dias de painéis industriais, música e um leilão de gado. Em um pequeno estande entre vendedores de equipamentos agrícolas, Lorena Geyer, analista de sustentabilidade da JBS, prepara uma apresentação sobre as iniciativas de monitoramento da JBS. Geyer, 27 anos, dirige um JBS Green Office. Assim como os auditores da empresa, ela nunca visitou as fazendas para conversar com seus proprietários e criadores de gado. Nem os outros nove analistas do Green Office da JBS na Amazônia, que estão espalhados por uma região maior que a Europa continental. Em vez disso, eles se sentam ao lado de compradores de gado em uma mesa dentro de um abatedouro da JBS. Toda vez que um criador de gado entra em um frigorífico para vender gado, os compradores da JBS verificam sua propriedade em relação aos registros de desmatamento emitidos por órgãos governamentais. Quando um fazendeiro não é aprovado, Geyer intervém para ajudá-los a descobrir como sair das listas proibidas do governo para que possam começar a vender legalmente. “A abordagem da JBS é incluir fornecedores e não excluí-los”, diz ela aos pecuaristas do parque de exposições, acrescentando que a JBS pode dar suporte para que a documentação esteja em ordem. “Também é do nosso interesse tê-los em nossa cadeia de fornecedores – precisamos dessa matéria-prima.”

A legalização de fornecedores ajudando-os a dar entrada na documentação é o cerne da estratégia da JBS para limpar sua cadeia de fornecedores. Isso não é o mesmo que eliminar o desmatamento. “Consumidores e governos se unindo não querem ilegalidade zero – eles querem desmatamento zero”, disse Holly Gibbs, que dirige o laboratório de uso da terra na Universidade de Wisconsin. “Há uma grande diferença aí.”

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--- Editor: EthanBronner; colaboraram Brittany Harris and Jin Wu; traduzida por Marcelle Castro, localization specialist da Bloomberg Línea.

Como foi feito este trabalho

Alguns fatos

  1. A JBS é o maior frigorífico do mundo e o maior produtor de carne bovina da Amazônia.
  2. Em um acordo de 2009 com promotores federais, a JBS e outros frigoríficos concordaram em não comprar animais de terras recém-desmatadas. Embora a JBS tenha intensificado seu monitoramento, também expandiu agressivamente sua atuação na Amazônia e ainda não sabe de onde vem seu gado.
  3. Para determinar o tamanho da pegada da JBS, a Bloomberg analisou as coordenadas de cerca de 1 milhão de embarques de gado. Desde então, a JBS restringiu a maioria dos dados, que abrangem cerca de 18 milhões de vacas enviadas para abatedouros nos estados de Rondônia, Pará, Acre, Mato Grosso e Tocantins entre 2009 e 2021. A Bloomberg comparou os dados com mais de 50.000 cadastros e cerca de 520.000 alertas de desmatamento.
  4. A base de fornecedores diretos da JBS na Amazônia dobrou para 16.900 em 2020, de cerca de 7.700 em 2009. Cumulativamente, ela comprou gado de cerca de 60.500 pecuaristas no período.
  5. O número de abatedouros da JBS operando na Amazônia subiu para 21 agora, de 10 em 2009. A JBS diz que “não criou novos abatedouros”, em vez disso expandiu-se por meio de aquisições e elevou seus padrões.
  6. Os fornecedores da JBS estão em uma parte da Amazônia cuja vegetação foi destruída para acomodar um rebanho crescente. Alertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, conhecido como INPE, mostram 8,2 milhões de hectares de corte raso desde 2009.
  7. Nota: Os anos relativos ao embarque de gado da JBS no gráfico foram ajustados para corresponder ao período de 12 meses dos alertas de desmatamento, que vai de agosto a julho.Fontes: JBS e INPE.

Os dados

  1. Para ilustrar como a pecuária legal ocorre no meio dos focos de desmatamento, a Bloomberg ampliou a imagem em 10.700 milhas quadradas a nordeste de São Félix do Xingu, onde a JBS comprou diretamente de mais de 600 fazendeiros desde agosto de 2009. Há muitos exemplos como este em todo a região.
  2. A JBS verifica as fronteiras de cada fornecedor em relação aos embargos atuais emitidos pelo regulador ambiental, o Ibama. Mas com o orçamento e a equipe do Ibama reduzidos nos últimos anos, apenas uma fração dos infratores entram na lista proibida do órgão.
  3. Mas o alcance do desmatamento real na área desde 2009 é impressionante. O instituto espacial emitiu 20.000 alertas no período destacando onde a floresta tropical foi derrubada. Se não houver alerta que se sobreponha à fazenda de um fornecedor direto no momento da compra, a JBS está livre para comprar deles. (Fontes: JBS, Ibama e Inpe)

Metodologia

A partir de 2020, a divisão de carne bovina Friboi da JBS passou a permitir que os clientes rastreiem a carne por meio de um site de “Garantia de Origem”. A carne comprada em supermercados inclui no rótulo uma data de abate e um identificador de frigorífico conhecido como SIF, que o consumidor pode acessar no site para ver o nome e a localização da fazenda de origem do corte de carne.

Para investigar a cadeia de fornecedores da JBS, a Bloomberg compilou uma lista de abatedouros regionais identificados nos relatórios anuais da JBS de 2009 a 2021. Isso abrange o período em que o compromisso anti-desmatamento da JBS entrou em vigor.

Os números do SIF para esses frigoríficos foram obtidos de fontes públicas. A Bloomberg usou esses números para verificar no site da Friboi os dados disponíveis sobre carne bovina de 1º de agosto de 2009 a 30 de setembro de 2021. Isso resultou em cerca de 1 milhão de registros de embarque, cada um representando uma entrega de gado de uma fazenda brasileira para frigorífico operado pela JBS.

A Bloomberg identificou 35 abatedouros, alguns de propriedade da JBS, mas foram fechados. As instalações estavam concentradas em cinco estados amazônicos: Acre, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Os frigoríficos adquiriram carne bovina de fazendas desses estados, bem como dos estados vizinhos do Amazonas, Maranhão e Mato Grosso do Sul.

Os registros de entrega que a Bloomberg analisou incluíam a data de abate, número do lote, coordenadas de coleta, nome da fazenda, nome do produtor e um número de identificação fiscal do produtor - CPF, para pessoas físicas, ou CNPJ, para pessoas jurídicas. A JBS reconheceu que partes das informações foram publicadas online de forma não intencional. Após saber que os dados eram públicos, a JBS o restringiu o acesso a eles no final do ano passado. A Bloomberg reteve uma cópia de todos os registros originais analisados.

Como parte de seus acordos anti-desmatamento com o Ministério Público Federal, os frigoríficos são obrigados a consultar mapas de propriedades encontrados em cartórios conhecidos como CARs, que significa Cadastro Ambiental Rural. No entanto, o acesso público aos documentos do CAR não é uniforme em todas as regiões, com informações detalhadas sobre proprietários de imóveis em status restrito por muitos estados. Ambientalistas e pesquisadores também alegam que os CARs são fáceis de manipular para excluir o desmatamento porque os limites das propriedades são autodeclarados e não estão sujeitos à confirmação por parte do governo.

Para obter uma imagem mais precisa, a Bloomberg executou os números de identificação fiscal nos registros de entrega da JBS disponíveis por meio de um banco de dados nacional de terras, conhecido como Sigef. Quase um terço dos 56.000 fornecedores da JBS conhecidos pela Bloomberg foram encontrados no banco de dados do Sigef, retornando arquivos de mapeamento geoespacial conhecidos como shapefiles em mais de 50.000 lotes, cobrindo mais de 80.000 milhas quadradas. Para as fazendas visitadas pessoalmente, foram consultados os CARs e o banco de dados do Sigef para obter os limites das propriedades. Embora longe de um quadro completo, a análise fornece uma noção mais precisa da escala das fazendas na cadeia de fornecimento direto da JBS, bem como uma indicação de outras propriedades pertencentes a esses fornecedores.

Para entender melhor a relação da empresa com o desmatamento nos últimos 13 anos, a Bloomberg comparou a rede de fornecedores diretos da JBS com cerca de 500 mil alertas de desmatamento chamados Prodes, que foram emitidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, conhecido como INPE, entre 2009 e 2020 . Também foram comparados com cerca de 25.000 embargos emitidos pelo órgão regulador ambiental do país, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - Ibama, entre 2010 e 2019. Estes últimos foram obtidos por meio de um pedido de transparência da informação.

De acordo com o INPE, cada alerta do Prodes se refere ao período de 12 meses até 31 de julho do ano listado, com resultados preliminares – cobrindo pelo menos 90% do desmatamento observado – divulgados até dezembro do mesmo ano.

A Bloomberg estimou o número total de gado, supondo que cada lote representa uma carga média de 18 cabeças. Essa é uma suposição padrão de pesquisadores que analisam os documentos de transporte de gado, conhecidos como GTAs, há uma década, incluindo o Gibbs Lab da Universidade de Wisconsin. A Bloomberg pediu à JBS que confirmasse essa suposição, e a empresa se recusou a comentar.

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