Nova variante da covid-19 pode estar à espreita
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BLoomberg Opinion — A Pfizer e a Moderna estão começando a produzir doses de vacinas específicas contra a ômicron e dizem que podem ter dados sobre a eficácia das injeções já em março. Mas será que esta é a melhor forma de construir e manter a proteção contra a covid-19?

O mundo está criando novas variantes tão rápido que pode não fazer sentido persegui-las uma de cada vez. Os reguladores globais não necessariamente acham que esta seja a abordagem certa. A Organização Mundial da Saúde e a Food and Drug Administration dos Estados Unidos dizem que vacinas específicas para a ômicron podem não ser necessárias e que as agências de saúde pública em todo o mundo – não as empresas farmacêuticas – devem trabalhar juntas para decidir a composição das próximas vacinas.

Muitos cientistas de vacinas já estão trabalhando em uma estratégia mais sábia: o desenvolvimento de vacinas pan-coronavírus, capazes de anular qualquer variante que exista ou possa surgir.

Certamente é possível que as vacinas específicas para a ômicron, sendo desenvolvidas pela Pfizer e a Moderna, sejam úteis, segundo Anthony Fauci – pelo menos por um tempo. Mas, ele também disse que, “temos que ter cuidado, porque você pode estar lutando contra um monstro de nove cabeças - corta uma, nasce outra - à medida que as variantes mais recentes avançam”. Além de aconselhar o presidente Joe Biden sobre respostas à covid, Fauci é chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, que está financiando vários esforços para criar vacinas contra o coronavírus.

As chances são grandes de que uma nova variante da covid-19 já esteja à espreita, e ela pode não se parecer com a ômicron. Especialistas em vírus foram surpreendidos pela variedade de mutações que esse coronavírus pode produzir, diz Penny Moore, virologista da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul. As mudanças na proteína spike – o alvo de nossas vacinas atuais – saltaram de beta para delta para ômicron, o suficiente para sugerir que uma vacina específica para a ômicron pode não ter efeito contra a próxima variante.

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Em um mundo perfeito, a maneira mais rápida de acabar com essa brincadeira de gato e rato com as variantes seria vacinar imediatamente o mundo inteiro com as vacinas existentes. A ômicron mostrou que pode driblar a proteção da Pfizer e da Moderna, mas essas vacinas ainda protegem contra doenças graves, hospitalização e morte. Por enquanto, os países com suprimentos inadequados de vacinas são um terreno fértil para novas variantes.

Uma maneira inteligente de responder a esta questão é criar e testar vacinas contra o coronavírus que abranja todas as variantes – e traçar um plano para produzir o suficiente para todos os países. Mas não conseguimos desenvolvê-las tão rápido quanto as vacinas específicas de variantes. Fauci estima que pode levar muitos meses ou mesmo, se não tivermos sorte, anos para aperfeiçoá-las. Mas, dada a probabilidade de o mundo viver com SARS-CoV-2 por um longo tempo, é essencial tentar desenvolver uma proteção universal contra todas e quaisquer variantes que possam se desenvolver.

Então, o que exatamente é uma vacina pan-coronavírus? O termo tornou-se um denominação genérica para vacinas que podem proteger contra quaisquer variantes atuais e futuras do SARS-CoV-2 e aquelas que também podem fornecer imunidade contra SARS, MERS e quaisquer outros coronavírus que possam surgir. Os cientistas têm motivos para estar otimistas de que ambos os tipos são possíveis. Já existem modelos para vacinas universais contra gripe e HIV. O problema é que nenhum desses projetos chegou ao mercado e muitos falharam completamente.

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Os coronavírus podem ser alvos mais fáceis, no entanto. Seu mecanismo interno de correção de erros faz com que eles sofram mutações muito mais lentas do que os vírus da gripe ou o HIV.

Assim, cientistas em laboratórios acadêmicos e governamentais estão trabalhando com um projeto específico que se mostrou promissor contra a gripe: uma nanopartícula cravejada com pedaços do vírus que são conhecidos por serem importantes para provocar uma forte resposta imune.

Pesquisadores de muitos laboratórios - incluindo o Walter Reed Army Institute of Research, o National Institutes of Health, o California Institute of Technology, o University of Washington’s Institute for Protein Design e a Northwestern University - estão experimentando vários tipos de nanopartículas povoadas por proteínas spike retiradas de várias variantes do SARS-CoV-2.

A ideia é que expor o sistema imunológico a algumas proteínas spike diferentes permitirá que ele monte uma defesa contra qualquer uma que possa encontrar. No mês passado, os cientistas de Walter Reed publicaram dados mostrando que sua vacina pan-coronavírus fez com que primatas não humanos produzissem anticorpos neutralizantes não apenas contra SARS-CoV-2, mas também SARS-CoV-1, a cepa responsável pelo surto de SARS em 2003. Esses pesquisadores já iniciaram um estudo de Fase 1 em humanos para garantir que seja seguro e avaliar a resposta imune que provoca.

Outra vacina experimental pan-coronavírus criada pelo laboratório de Pamela Bjorkman, na CalTech, tem espaço para ainda mais proteínas spike do que a de Walter Reed. Ela está se preparando para iniciar um estudo clínico no Reino Unido.

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Outra forma de criar uma vacina pan-coronavírus tem como alvo as partes do vírus que permanecem iguais, mesmo quando sofrem mutações, talvez uma pequena região na proteína spike. Mas como muitas das mutações do vírus estão no pico (ou spike), isso pode não ser fácil. A Vir Biotechnology, que produz a única terapia de anticorpos ainda eficaz contra a ômicron, está prestes a identificar essas chamadas áreas altamente conservadas do vírus, diz Herbert “Skip” Virgin, diretor científico da Vir. A esperança é que uma vacina direcionada a esses pontos possa oferecer vários anos de ampla proteção contra os coronavírus.

“Mas descobrir essas vacinas levará tempo”, diz Fauci. “Não vai ser amanhã.” Ao fazer as vacinas iniciais contra o coronavírus, os cientistas foram capazes de somar seu trabalho a anos de trabalho para produzir a proteína spike na forma adequada para ser introduzida no sistema imunológico humano. Fazer isso novamente para qualquer área que permaneça inalterada no pico? “Isso pode levar muito tempo”, diz Fauci.

Direcionar um esforço maior para os projetos poderia agilizar seus processos. Em setembro, o NIAID distribuiu US$ 36,3 milhões em doações para o coronavírus, e isso é um começo. Envolver grandes empresas farmacêuticas – e seus vastos orçamentos de pesquisa – também ajudaria. Já passou da hora de empresas como Pfizer e Moderna voltarem sua atenção para as vacinas pan-coronavírus.

Lisa Jarvis, ex-editora executiva do Chemical & Engineering News, escreve sobre biotecnologia, descoberta de medicamentos e indústria farmacêutica para a Bloomberg Opinion.

Os editoriais são escritos pela diretoria editorial da Bloomberg Opinion

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Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

– Esta notícia foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.

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