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Tabas, rival do QuintoAndar, capta R$ 80 milhões em equity e dívida

A startup vai usar recebíveis imobiliários para compra de mobília e reformas dos apartamentos e equity para ampliar a equipe e aprimorar operação

Simone Surdi  e Leonardo Morgatto, cofundadores da Tabas: expansão para ganhar mercado no segmento imobiliário
19 de Janeiro, 2022 | 06:00 am
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Línea — A startup do mercado imobiliário - proptech, no jargão do setor - Tabas anunciou, nesta quarta-feira (19), que captou R$ 80 milhões (US$ 14 milhões) em equity e dívida.

A rodada série A foi liderada pela americana Blueground, a empresa de inspiração da startup brasileira, e contou com a participação da Echo Capital e do investidor Nelson Queiroz Tanure (chairman da PetroRio e filho do empresário Nelson Tanure, que tem um histórico de investimentos polêmicos, entre eles, na Oi, no ano em que a empresa entrou em recuperação judicial).

O CEO da Tabas, Leonardo Morgatto, é formado em engenharia de produção. Com passagem de quatro anos pela Siemens, foi no mercado imobiliário que ele se encontrou profissionalmente. Seu pai já trabalhava na área e por três anos o executivo atuou no setor, antes de se mudar para a França em 2018 para cursar o MBA (Mestrado em Administração de Negócios) na Insead (Instituto Europeu de Administração de Empresas). Foi lá que ele conheceu seu sócio, o italiano Simone Surdi.

Tudo começou quando eles se mudaram para Londres para fazer um estágio de verão. Trabalhando em uma consultoria, Morgatto contou que precisava de um apartamento mobiliado na cidade, mas teve “a pior experiência de locação” da vida. “Na época, consegui alugar um apartamento por um preço desproporcional para o mercado, e estava em uma situação degradada”, lembrou.

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Foi em um jantar com Surdi que a ideia de empreender nessa área ganhou os primeiros rascunhos. O cofundador da Tabas estudou física e fazia PhD nos Estados Unidos, mas decidiu abandonar sua área de pesquisa porque queria ver resultados a curto prazo.

“A experiência de aluguel em Londres foi péssima porque não tínhamos garantia de qualidade e era difícil achar um lugar onde ficar por dois, três meses. Não existia flexibilidade. Vimos que esses problemas estavam relacionados ao fato de que, nesse ramo, as startups normalmente são marketplaces que não gerenciam a experiência do cliente de ponta a ponta, eles são um pouco como corretores”, disse Surdi.

O pulo do gato veio quando os cofundadores pensaram em alugar os apartamentos de proprietários a longo prazo, reformar e oferecer estadias flexíveis, como a Blueground faz nos Estados Unidos. A Blueground atingiu um valuation de US$ 750 milhões após a última rodada, em setembro de 2021.

Em 2020, a dupla veio para o Brasil para abrir negócio. “Para proprietários, o mercado imobiliário brasileiro é fragmentado. Durante muito tempo no Brasil todo mundo construía prédio para vender e usar como investimento, mas as imobiliárias faziam apenas a parte comercial e administração dos recebíveis e não o investimento no ativo [o apartamento]”, afirmou o CEO.

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A pandemia da covid-19 foi um balde de água fria na empolgação da nova empresa. Quando os negócios imobiliários praticamente congelaram em março de 2020, a crise econômica global causada pelo coronavírus fez com que a startup passasse cerca de sete meses captando dinheiro com família e amigos para manter as operações. “Acabava o dinheiro, pedíamos mais uma rodada pequena. Tivemos uma experiência não tão glamourosa em termos de empreendedorismo”, lembrou Morgatto.

Mas o comeback veio: em outubro de 2020, a Tabas conseguiu um investidor internacional, o Venture Friends, que investiu US$ 1,5 milhão na tese da startup. No ano passado, a empresa captou R$ 20 milhões via CRIs, os certificados de recebíveis imobiliários. Agora, a empresa sai oficialmente do estágio “seed” e avança para a série A com os R$ 80 milhões. Metade do montante vem da dívida de recebíveis e os outros R$ 40 milhões vieram de equity (que dilui o controle da empresa).

“O dinheiro da dívida vai para [a compra de] televisão, cômoda, cama, reforma. E o dinheiro de equity vai para [contratação de] pessoas, tecnologia, processo, branding”, explicou Surdi. Para a Tabas, não faz sentido levantar capital para comprar mobília para apartamentos que a empresa pretende alugar, porque, diferentemente do investimento em processos e tecnologia, o financiamento em mobília não agrega valor com o tempo. “É algo que se deprecia. O nosso modelo de negócio permite essa linha de crédito de investimento para a reforma”.

A startup não compra os imóveis dos proprietários, então, usa os recebíveis do aluguel como garantia do negócio. Funciona assim: a maior parte dos imóveis dos proprietários chegam até a Tabas por meio de corretores. A equipe de dados analisa o ativo e a startup faz a locação, mesmo sem ter a certeza de inquilinos.

O risco do apartamento não ser locado existe. Porém, o executivo explica que o time de tecnologia tem escolhido os apartamentos certos. “Prova disso é que no ano passado estávamos com 93% dos apartamentos locados”, disse.

No site da Tabas, os clientes podem visitar os apartamentos virtualmente e fazer a locação de forma online, o que, segundo o CEO, é o que acontece com 80% dos apartamentos. Mas, Morgatto lembra que a empresa é aberta para parcerias com marketplaces ou corretores que queiram negociar apartamentos locados pela startup.

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A Tabas quer chegar a 130 funcionários até o final do ano, mas não pretende ir muito além desse número de contratações, já que, segundo Morgatto, é preciso crescer de forma sustentável.

Com a rodada, o CEO acredita ser possível chegar a 1.200 apartamentos até o final de 2022. Hoje, são 360 imóveis locados espalhados nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Olhando para este ano, a empresa quer se consolidar em São Paulo e expandir para outras cidades, como Brasília. A partir de 2023, o CEO pretende levar o negócio para a Cidade do México. Outro plano é oferecer produtos financeiros para os proprietários e parcerias com incorporadoras para operar vários apartamentos em um mesmo prédio, algo semelhante ao que a Housi faz hoje.

Se hoje a startup aluga um imóvel e reforma para alugá-lo novamente, não é descartada a ideia de comprar um apartamento para locação no futuro. “Prefiro comprar depois de alugar dois anos porque aí já sabemos o rendimento do apartamento, se ele faz sentido, qual é a ocupação. Mas pensar que os proprietários vendam os apartamentos é uma coisa que olhamos bem mais para a frente, talvez daqui dois, três anos”.

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Isabela  Fleischmann

Isabela Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups

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