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20% dos brasileiros boicotam marcas que não se preocupam com ESG, aponta estudo

Estudo mapeou e quantificou o posicionamento da população sobre ESG, avaliando perfis de consumidores e identificar causas prioritárias

Pesquisa mostrou que o consumidor brasileiro acredita que as empresas devem ser agentes de mudança na sociedade
16 de Dezembro, 2021 | 10:20 am
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Línea — De acordo uma pesquisa inédita divulgada pela consultoria Walk The Talk by La Maison, 20% dos brasileiros declararam já boicotam marcas e consomem serviços e produtos mais responsáveis.

Intitulado Global Positioning On Sustainability (GPS), o estudo avaliou a percepção dos brasileiros sobre o ESG, sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança. Entre setembro e outubro de 2021, foram entrevistadas 2.243 pessoas, de 16 a 64 anos, das classes A, B e C, nas cinco regiões brasileiras, sobre os 22 temas ESG considerados mais relevantes.

O objetivo do estudo foi mapear e quantificar o posicionamento dos brasileiros sobre ESG, avaliar perfis de consumidores, identificar as causas mais importantes, além de apontar as empresas mais ativas e responsáveis com relação às questões sociais e ambientais na visão desse público.

Resultados

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A pesquisa mostrou que o consumidor brasileiro acredita que as empresas devem ser agentes de mudança na sociedade. Além disso, o estudo trouxe os seguintes destaques:

  • Apenas 4% dos brasileiros se declaram ativistas em alguma causa;
  • 4% acreditam que as empresas têm poder limitado e 2% não tem responsabilidade sobre temas ESG;
  • 50% das mulheres compraram de pequenos produtores e comunidades;
  • Mulheres agem mais para um mundo mais “justo” do que homens;
  • 72% dos brasileiros de 55 a 64 anos separam lixo para reciclagem – e mais de 80% reduzem o uso de energia e água. Eles são os que mais agem em prol de causas ambientais;
  • Snacks, cerveja e fast food são os setores considerados menos associados à ESG. Já higiene e beleza e limpeza de casa puxam as expectativas;

Comentando os resultados, a sócia-diretora da Walk The Talk, Juliana Simão, atribui a baixa porcentagem de brasileiros que se consideram ativistas ao estágio em que a questão ESG se encontra no país. “Semelhante ao que vemos em outros países em desenvolvimento, o brasileiro ainda está focado em questões que o afetam diretamente. Num segundo momento, passam a se preocupar com sua comunidade próxima e apenas depois disso partem para preocupações maiores”, diz.

“Tem uma frase interessante que diz ‘ser ativista é um privilégio’ - de quem pode se dar ao luxo (tempo e dinheiro) para atuar em uma causa. Acho que os brasileiros ainda têm que lutar por questões mais urgentes hoje e as demais questões coletivas ficam num segundo momento”, completa a sócia.

Ao serem questionados sobre o problema social com o qual mais se importam, a grande maioria apontou a falta de acesso à saúde gratuita e de qualidade. “A saúde é sempre um tema de preocupação, mas a pandemia que atingiu os brasileiros, de maneira bastante cruel, pode ter afetado essa percepção”, afirma Simão.

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Juliana Simão e Andrea Marino, sócias da Walk The Talkdfd

Além disso, outros pontos como a educação também foram levantados. “A falta de acesso à educação de qualidade (54%) e de saneamento básico (51%), fenômenos apontados como problemas sociais graves, ressaltam o descontentamento com os serviços públicos de qualidade no país, destaca Andrea Marino, também sócia-diretora da Walk The Talk.

A maior dedicação de mulheres a questões ambientais e sociais também chama a atenção nos resultados. “As mulheres são, por excelência, as responsáveis pela educação dos filhos e a administração da casa”, diz Marino. “Por isso, são mais preocupadas com os impactos imediatos de suas ações e com o futuro. A pesquisa mostra que elas agem em média 12% a mais que os homens. E se preocupam em dar o exemplo para seus filhos”, completa.

Empresas e marcas

De modo geral, para os brasileiros, as empresas são responsáveis por implantar ações para enfrentar os desafios socioeconômicos e atuar em causas sociais.

Para consumidores, empresas podem gerar mudanças (Imagem/Reprodução)dfd

A pesquisa mostrou que, para 47% dos entrevistados, as companhias têm o poder de mudar seus produtos e condutas e contribuir positivamente para a solução dos problemas globais. Para 19% as empresas contribuem movimentando a economia, gerando emprego e pagando impostos.

“Os brasileiros, em maior ou menor grau, fazem sua parte. Economizam água e energia, reciclam, separam lixo…Mas esperam que as corporações façam sua parte e façam mais. Sabem que as verdadeiras mudanças só virão quando as corporações agirem além das questões relacionadas com seus produtos/serviços. Para o brasileiro, isso é uma obrigação”, comenta Simão.

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A Natura é a marca mais associada pelos consumidores aos princípios da agenda ESG, seguida pelas marcas Ypê, Nestlé, Ambev e Itaú. Do outro lado, estão as marcas consideradas verdadeiras, mas pouco atuantes. Entre elas, estão: Amazon, Danone, Heineken, Mercado Livre, Burger King, Magalu, Clube Social, Dove e Marisa. Já Americanas, Doritos e XP são vistas como não associadas a questões ESG.

Para elaborar o levantamento, foram realizadas análises estatísticas, com critérios de avaliação em pontos, em que a cotação mais baixa no índice era de até 200 e a mais alta acima de 600, sendo que nenhuma empresa atingiu a cotação máxima.

Perfil

O estudo dividiu os consumidores brasileiros em quatro grupos distintos:

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  • Eco-venientes: São consumidores mais velhos, brancos, moradores do Sul, pertencentes a todas as classes sociais. Suas ações são simples e convenientes e têm foco na redução do dano ambiental, como reciclar embalagens e reduzir o desperdício de plástico. Correspondem a 42% dos consumidores.
  • Não ativistas: São indiferentes e não esperam nada das empresas. Fazem muito pouco no seu dia a dia para mitigar os problemas do mundo. São na maioria homens entre 16 e 24 anos moradores das regiões Norte e Centro-Oeste. Correspondem a 22% dos consumidores;
  • Ativistas de sobrevivência: São práticos e atentos ao impacto para sua vida financeira. Agem para reduzir principalmente o desperdício de energia e água. Seu ativismo é vinculado ao bolso. Pertencem à classe C, moradores do Nordeste; 52% pretos e pardos sem filhos. Esperam que as empresas valorizem o Brasil, usando mão de obra e insumos locais. Correspondem a 16% dos consumidores.
  • Ativista de coração: Representando 20% da população, é o grupo mais exigente. Doa tempo e dinheiro para causas que acredita. Não se importa em pagar mais caro por produtos sustentáveis, suas ações são mais ativas e com benefício da coletividade, vigia o comportamento das empresas, mas não esperam muito delas, agem por conta própria e boicotam marcas com atitudes que reprovam. Geralmente moram no Sudeste, grande maioria pertence a Classe A, tem entre 25 e 34 anos, com posição política de esquerda ou centro.

“O país precisa democratizar as ações de sustentabilidade para que elas não sejam ações isoladas e privilégio de poucos, mas que toquem a todos os brasileiros”, afirma Simão. “Em termos sociais, é fundamental dar voz e ação à diversidade. Além disso, é importante que o Brasil se mantenha alinhado e colaborando globalmente com os compromissos ambientais adquiridos na última COP2″, complementa Marino.

Para as sócias, o Brasil precisa assumir um papel de liderança na viabilização de soluções eficazes para os impactos e ameaças da mudança do clima. Para isso, acreditam ser fundamental que esses compromissos se reflitam na governança do setor público e privado.

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Igor Sodré

Igor Sodré

Jornalista com formação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, com experiência na cobertura de cultura e economia, tendo como foco mercado financeiro e companhias. Passou pela Bloomberg News e TradersClub.