Adoção de Bitcoin por El Salvador é desafiadora, diz diretor do Mercado Bitcoin

Fabricio Tota participou do LaBitConf, evento sobre criptomoedas na América Latina, realizado no país

Fabrício Tota (foto): adoção das criptomoedas na economia deve vir acompanhada da educação das pessoas
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Por Matheus Mans para Mercado Bitcoin

São Paulo – Como seria viver em um país onde toda a economia girasse em torno de uma moeda digital? Durante cinco dias de novembro Fabricio Tota, diretor no Mercado Bitcoin, passou por essa experiência em El Salvador, primeiro país no mundo a reconhecer o Bitcoin como moeda corrente.

Como um dos principais patrocinadores, o Mercado Bitcoin participou da LaBitConf, conferência realizada anualmente sobre a indústria de criptoativos na América Latina. Na entrevista a seguir, Tota relata sua experiência pessoal no país, fala sobre os desafios de uma nação modesta como El Salvador em tornar o uso do Bitcoin familiar entre uma população onde 70% estão fora do sistema bancário.

Tota também defende maior engajamento do Brasil na América Latina em torno do mercado cripto, mas ressalta que a presença do país em um evento de tamanha importância como a LaBitConf comprova a força brasileira na região como cooperadores e não competidores. “Isso é muito importante”, diz. Confira:

Como foi o LaBitConf em El Salvador?

O evento foi ótimo. Em termos de organização do Mercado Bitcoin, sabemos o tamanho do desafio de elaborar tudo a distância. O time não estava todo lá. Mas funcionou muito bem, o espaço era ótimo, as palestras sobre adoção da criptomoeda, citando não apenas o caso de El Salvador, mas com uma visão maior do mercado, foram ricas. Destaco como ponto alto do evento Max Keiser [analista do mercado cripto], sempre um showman, um bitcoiner-raiz, e o fechamento, com o presidente salvadorenho Nayib Bukele, o anúncio da Bitcoin City e a emissão de um título de dívida de El Salvador em blockchain.

Como avalia a adoção do Bitcoin no país?

É um desafio tanto do lado educacional das pessoas, o que é meio óbvio da adoção, mas principalmente em relação às telecomunicações. Como, por exemplo, tudo funcionar na tecnologia 3G. Você acaba dependendo da infraestrutura de um país modesto como El Salvador. Então, não vai ter isso o tempo todo nem no país inteiro. É desafiador. Ainda precisa progredir um pouco para garantir que a cobertura seja 100%. Mas, nos lugares em que estive funcionava. Nada muito diferente de São Paulo, que tem uns pontos cegos.

Em relação às transações no comércio, funcionam bem?

Nem todo mundo entendeu. A experiência foi muito parecida à adoção das maquininhas de crédito e débito, há 10/15 anos, no Brasil, quando houve dificuldades no seu uso. Poucos estavam treinados para isso. Em lugares mais modestos como El Salvador, quando se tem uma outra tecnologia, de um aplicativo completamente novo, você vai clicar, colocar quanto vai receber, fazer a conversão do dólar, gerar um QR Code que alguém vai ler, acompanhar a transação acontecendo e por aí vai. Acaba não sendo óbvio para muitos. E não seria muito diferente em muitos outros lugares do mundo. Tem dificuldades sim. Mas o bom é quando você vai à lojinha de artesanato, no pequeno espaço dos souvenirs ou em um restaurante. Funciona. Não é só em lugares turísticos, já preparados para isso.

Como o Brasil pode aprender com El Salvador?

Expor o país e engajar mais o Brasil na região. A LaBitConf e a América Latina falam espanhol. Nossa presença como patrocinadores mostra a força do Brasil na região, não de forma competitiva, mas cooperativa, o que é muito importante. Foi interessante ver a presença de muitos brasileiros. Alguns já frequentam a LaBitconf há tempos, mas havia também participantes novos. Isso nos deixa satisfeitos, felizes, porque tem muita gente boa fazendo um ótimo trabalho no Brasil nesse mercado.

Qual o saldo positivo dessa experiência?

Ter participado de um evento em El Salvador no momento que o país ainda absorve a adoção do Bitcoin. Ver o que Michael Saylor [empresário americano, entusiasta das criptomoedas, co-fundador da empresa de software MicroStrategy] representa hoje para muitas companhias listadas em Bolsa, ao ter acreditado no mercado de criptomoedas e ter sido o primeiro a colocar em Bitcoin o caixa de uma companhia de capital aberto. Também destaco a oportunidade de constatar que a decisão do presidente Bukele, que adotou o Bitcoin como moeda legal, mostrou que é possível a uma nação abraçar os ativos digitais enquanto há uma grande discussão global sobre “sim ou não”.

E o negativo?

Saber que existe um longo caminho pela frente. Que a indústria de criptos no Brasil ainda é relativamente nova. Que tem muito a ser feito.

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