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Visa quer ser empresa de tecnologia e traça futuro das maquininhas, diz CEO

EXCLUSIVO: Novo líder da operação brasileira, Nuno Alves, fala sobre reposicionamento e o foco em pequenos e médios negócios

Tempo de leitura: 7 minutos

Bloomberg Línea — Em meio a um efervescente setor de pagamentos, a Visa se movimenta para reforçar a percepção no mercado de que é muito mais do que uma empresa de cartões. Com um arsenal de tecnologias que propõem digitalizar fluxos de dinheiro, a companhia executa uma estratégia que busca transpor barreiras de adoção, sobretudo entre pequenas e médias empresas.

Fazer o brasileiro deixar de usar o dinheiro vivo para pagar por produtos e serviços é a principal missão do novo country manager da gigante de pagamentos digitais no Brasil, Nuno Lopes Alves. Anteriormente responsável pela operação da companhia em países andinos, o executivo assumiu a liderança da subsidiária brasileira em junho deste ano, com um discurso que ele mesmo descreve como “bastante ambicioso.”

“Nosso propósito renovado é ser uma rede que trabalha para todos, em todos os lugares. Estamos cada vez mais empenhados em trazer inovação e aportar tecnologia de ponta, assim como segurança de última geração, para fazer a movimentação segura de dinheiro”, diz o executivo, em entrevista à Bloomberg Linea.

Segundo Alves, a ênfase na movimentação de dinheiro, ao invés de pagamentos, é um ponto crucial da visão da companhia, que tem parceria com 15,5 mil instituições financeiras no mundo, para as quais atualmente processa cerca de US$ 12,2 trilhões por meio de sua infraestrutura. A Visa vê uma oportunidade de converter US$ 18 trilhões em consumo de meios físicos, como dinheiro em espécie, para meios digitais.

Este objetivo orienta uma campanha global de reposicionamento de marca que, segundo Alves, é o maior investimento em marketing feito pela empresa na última década.

“Cada vez mais estamos presentes em novos fluxos de pagamentos entre pessoas, entre negócios, entre governo e pessoas, com uma tecnologia que permite abraçar muito mais casos. Nosso posicionamento é ser uma rede de redes”, diz o executivo, acrescentando que as inovações que a Visa desenvolve para si tem sido aproveitadas por outros setores, desde serviços transacionais e de monetização de dados para segurança, até gestão de fraude e infraestrutura de programas de fidelidade.

O desafio dos pequenos negócios

A proposta de valor da Visa está clara para os grandes clientes corporativos, como emissores e adquirentes, diz o CEO. Por outro lado, este entendimento ainda precisa avançar entre consumidores finais e principalmente pequenas e médias empresas (PMEs). A intenção global da companhia é digitalizar os pagamentos de 50 milhões de empresas neste segmento.

No Brasil, o potencial mercado endereçável é um universo de aproximadamente 8,5 milhões de negócios, número que representa a base nacional de PMEs e 99% dos negócios no país, segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

A empresa de pagamentos também deve aproveitar o aumento da base de consumidores que passaram a comprar online na pandemia. Cerca de 13 milhões de brasileiros adentraram o universo do e-commerce em 2020, segundo pesquisa da Ebit Nielsen, alta de 29% ante 2019.

Para aumentar a participação da empresa nas finanças das PMEs, a estratégia passa por desconstruir a associação imediata da empresa a cartões. “Queremos que pequenos negócios entendam que podem se empoderar digitalmente usando credenciais digitais, e mostrar que somos a tecnologia que viabiliza estas conexões,” pontua.

Alves cita dados da própria Visa, que sugerem que 40% das micro e pequenas empresas brasileiras passaram a aceitar algum tipo de pagamento digital desde a emergência da pandemia. Por outro lado, estes negócios enfrentam dificuldades para se modernizar.

Um estudo da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e Fundação Getúlio Vargas sugere que 66% das PMEs brasileiras ainda estão em um estágio incipiente de digitalização, por motivos como a falta de recursos financeiros e de conhecimento sobre o tema.

O líder da operação brasileira da Visa pretende responder a este cenário “com muita simplicidade”, e a visão envolve a eliminação de complexidades associadas a, por exemplo, terminais de pagamento. Adquirentes parceiras da Visa já se movimentam neste sentido: em agosto, a Stone lançou o TapTon, aplicativo que transforma o celular em uma máquina que recebe pagamentos de certão de débito e crédito, com pagamentos por aproximação.

A maquininha precisa ser enviada para um determinado lugar e ser ativada, além de [demandar] todo um comportamento de adoção de tecnologia que pode intimidar algumas pessoas. Por outro lado, as pessoas estão bastante familiarizadas com o celular”, pontua o executivo. “[Permitir que usuários] baixem um app e iniciem uma aceitação [de pagamentos] é um dos caminhos de diminuir muito as barreiras de adoção.”

“Em nossa visão de futuro, comércios não terão mais que buscar uma maquininha para aceitar pagamentos”

—  Nuno Lopes Alves, country manager da Visa no Brasil

WhatsApp Pay

Um exemplo de fluxo de pagamento habilitado pela Visa e que tem o potencial descrito por Alves é o WhatsApp Pay, plataforma da qual a empresa é uma das parceiras. No entanto, a adesão à ferramenta tem progredido a passos lentos.

Segundo uma pesquisa do MobileTime e OpinionBox de setembro deste ano, apenas 7% dos brasileiros instalaram o recurso. Entre os principais motivos citados para o desinteresse, está a desconfiança em relação aos dados que precisam ser inseridos para o uso do serviço.

O serviço, relançado em maio deste ano, ficou suspenso por quase um ano. Em junho de 2020, o Banco Central anunciou que o serviço precisava ser reavaliado em relação a eventuais riscos, e afirmou que a ferramenta poderia trazer “danos irreparáveis” à privacidade, bem como à concorrência.

À época do relançamento, a Visa ressaltou que sua tecnologia de tokenização protege as transações no WhatsApp Pay, substituindo informações sensíveis do portador de cartão por um token – ou identificador digital – exclusivo que pode ser armazenado em segurança na nuvem.

Segundo Alves, a adoção em escala do mecanismo de pagamento do Facebook está diretamente ligada à adesão de mais participantes do ecossistema de pagamentos, como bancos, e este processo está em curso.

“Para escalar o WhatsApp Pay, temos todo um trabalho de casa [em relação a] segurança que vai oferecer essa conveniência. Temos que garantir que todo o ecossistema está pronto, e vejo isso está acontecendo”, pontua o executivo.

O country manager rechaça qualquer possibilidade de jogar a toalha em relação ao WhatsApp Pay: “Estou absolutamente confiante. Já conseguimos recrutar participantes suficientes e ter as condições de sustentação: é como construir um edifício, em que as fundações precisam estar firmes. A segurança e a experiência [do usuário] são elementos cruciais dessa construção”, pontua.

Para fazer com que mais empreendedores adotem pagamentos digitais, o plano da Visa inclui um pilar de capacitação de pequenas e médias empresas. Um exemplo de iniciativas nesta frente é uma parceria da companhia com a Rede Mulher Empreendedora para um programa de aceleração focado em mulheres negras. Temas abordados incluem educação financeira e estruturação e gestão de fluxos de caixa, bem como formas de desenvolver ofertas e expor produtos online.

“Não basta dar ferramentas tecnológicas para as pessoas, é preciso dar os meios para que elas maximizem os recursos que receberam”

Pagamentos em toda a parte

As conexões promovidas pela Visa podem se manifestar através de diversos canais que viabilizam a movimentação de dinheiro, incluindo apps, dispositivos vestíveis como smartwatches ou serviços digitais, como Netflix e Spotify, além de físicos, como no caso do plástico.

“Gosto de pensar que a movimentação digital de valores é parte integrante de uma transformação digital. Já não usamos mais CDs e sim serviços de streaming, não pedimos taxi pois com um toque de um botão em um app, o Uber aparece na nossa porta: essa mudança jamais seria completa se eu tivesse que interromper esse experiência digital e pegar a carteira para pagar com uma nota”, diz o executivo.

Neste contexto, uma das tendências em que a Visa aposta é a proliferação de credenciais de pagamento, através da tecnologia de tokenização. “Fazemos com que as credenciais apareçam em todas as experiências: no carro, na geladeira, nas assistentes de voz, em apps. Quanto mais serviços digitais adotarem nossas credenciais, mais rapidamente o pagamento deve desaparecer na experiência de consumo”, aponta Alves.

Em um futuro próximo, que já existe mas não em escala, sua geladeira saberá seus hábitos de consumo e terá autorização para fazer as compras. Os produtos simplesmente aparecerão em sua casa.”

A adoção a experiências de compra sem atrito deve acontecer através da adesão de organizações com grandes bases de clientes, em setores como transporte público. O metrô do Rio de Janeiro, que adotou a tecnologia de pagamentos por aproximação da Visa nas catracas, é um exemplo de projeto pensado para aumentar a adoção de credenciais de pagamentos digitais entre consumidores finais.

O caso de uso em transporte é um dos que mais gosto, pois recruta muitos usuários para o nosso propósito”, argumenta Alves. “No metrô, a pessoa não precisa mais pegar fila para comprar o bilhete, pois basta tocar [o dispositivo móvel ou vestível] na catraca. Logo, percebe que pode pagar pelo fast-food da mesma forma, ao invés de ir ao caixa sacar dinheiro: o usuário passa a entender que pode usar essa credencial em vários lugares.”

Apesar do território ainda amplamente inexplorado quando o assunto é pagamentos digitais, Alves diz que a Visa enxerga o Brasil como uma “combinação feliz de escala e de certa sofisticação”, já que o brasileiro é aberto a inovações tecnológicas e as adota rapidamente.

Indicadores de sucesso para o novo CEO da Visa no próximo ano serão, segundo ele próprio, uma ampla adoção do WhatsApp Pay, e ver a empresa colher os frutos de sua nova estratégia. “Queremos ter mais lançamentos com clientes novos e tradicionais, e avançar em nosso reposicionamento. Estamos trabalhando muito para que este nosso novo propósito seja cada vez mais visível no mercado,” conclui.

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