Por Gino Matos para Mercado Bitcoin
São Paulo — Em janeiro de 2020, dados do Banco Mundial apontaram que apenas 55% dos latino-americanos tinham uma conta bancária. Burocracia, custos elevados e até mesmo baixo interesse por parte de muitas instituições financeiras estão entre os motivos para esse reduzido número de bancarizados. Nos Estados Unidos, por exemplo, o percentual da população com uma conta bancária chega a 96%. O surgimento das finanças descentralizadas, ou DeFi na sigla em inglês, abre grande oportunidade para essa inclusão de forma mais simples.
O sistema DeFi reúne produtos financeiros, como crédito e aplicações financeiras, com uma diferença fundamental: sem o intermediário, permitindo que qualquer pessoa tenha acesso a empréstimos, poupança e outros serviços por meio de um smartphone e portanto sem burocracia bancária. Isso, por si só, já reduz o custo das operações.
“As finanças descentralizadas têm muito potencial na América Latina, onde ainda há um grande percentual da população com pouco ou nenhum acesso aos serviços bancários, enquanto a utilização de dispositivos móveis é incrivelmente alta”, afirma Xochitl Cazador, chefe de crescimento de ecossistema da Fundação Celo, que está por trás do desenvolvimento da blockchain Celo, com foco em aplicações financeiras descentralizadas para smartphones.
Enquanto pouco mais da metade da América Latina tem acesso a serviços bancários, 68% da população da região usava dispositivos móveis até 2019, podendo esse número chegar a 73% até 2025, indica pesquisa da casa de análise de dados Statista.
A chefe de crescimento da Fundação Celo avalia que o serviço DeFi com maior potencial social na América Latina são os empréstimos subgarantidos. Dada a ausência de intermediários, empréstimos descentralizados obrigam o usuário a oferecer uma garantia pelo valor retirado. Contudo, empréstimos subgarantidos permitem que duas pessoas usem uma plataforma DeFi para formalizar um empréstimo, valendo-se da confiança que ambas já têm, sem a necessidade de um intermediário, como um banco, por exemplo.
Cazador cita a iniciativa da Celo de auxiliar refugiados venezuelanos vivendo na Colômbia como um dos exemplos de empréstimos subgarantidos. “São pessoas que deixaram a vida para trás, em outro país, em busca de qualidade de vida e ainda não tinham acesso a serviços financeiros básicos na Colômbia. Emprestamos US$ 500 em Celo Dollars, usados por muitos deles para comprar bicicletas motorizadas para trabalharem com aplicativos de entrega. Muitos conseguiram duplicar e até quadruplicar a renda”.
Celo Dollar (CUSD) é uma stablecoin, criptomoedas com garantia em ativos reais. Cada unidade do CUSD é lastreada por US$ 1 físico. A preferência por conferir o empréstimo em CUSD se dá pelo seu caráter de dinheiro programável, como chamou Cazador, avaliando que a stablecoin é capaz de reduzir os custos financeiros em países emergentes.
DeFi for the People
No fim de agosto, a Fundação Celo anunciou a criação da iniciativa DeFi for the People, fundo avaliado em mais de R$ 500 milhões que tem a participação de grandes protocolos de finanças descentralizadas, como Aave, Curve, Chainlink, Valora, 0x e UMA. O objetivo é incentivar o desenvolvimento das finanças descentralizadas globalmente, seja por meio de incentivos diretos a projetos ou via esforços educacionais.
“Uma das principais iniciativas dentro de DeFi for the People é o Make Crypto Mobile, hackathon que será realizado em outubro, no Brasil. A Fundação Celo e a Aliança pela Prosperidade estão ansiosos para receber propostas dos ecossistemas locais”, disse René Reinsberg, fundador e CEO da Celo. Hackathon é uma maratona de programação na qual diferentes programadores se reúnem para discutir novas ideias e projetos, podendo dar origem a novos softwares.
O Brasil, diz Reinsberg, é um mercado importante para a Celo, que recentemente recebeu a adição de Camila Rioja Arantes como representante da cLabs, braço do ecossistema Celo focado no desenvolvimento de tecnologias financeiras. Arantes lidera atualmente um movimento para expandir o ecossistema brasileiro de DeFi. “A Celo quer atuar como ferramenta de inclusão em DeFi para pessoas, empresas e governo”, conclui.


