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Finanças pessoais

Como investir no mercado de cannabis estando no Brasil

Para gestor, aposta é de que o mundo vai superar “tabu social e político” em torno da planta cuja legalização tem avançado em países ricos; questões regulatórias geram volatilidade

Tempo de leitura: 4 minutos

São Paulo — Você investiria em um mercado que tem projeção de faturamento de US$ 55,9 bilhões (cerca de R$ 303,3 bilhões) em 2026? E se, em uma estimativa mais otimista, esse valor chegar aos US$ 100 bilhões (cerca de R$ 542,7 bilhões)?

Essas são as projeções para o mercado global de cannabis feitas pela consultoria especializada BDSA, de acordo com relatório do BTG Pactual Digital. Segundo a análise, os resultados no primeiro ano da pandemia surpreenderam, ao mercar US$ 21,3 bilhões em vendas no mercado legal, o que levou às estimativas mais altas para os próximos anos.

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Conforme o banco, a eleição de Joe Biden renovou os ânimos da indústria da cannabis e elevou as chances de uma legalização do consumo da planta em âmbito federal nos Estados Unidos. Hoje, o chamado consumo recreativo já é permitido em 15 estados; o uso medicinal já ocorre de maneira legal em 39 dos 50 estados, atingindo mais de 70% da população. Em 2018, o Canadá se tornou o primeiro país do G7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo, a legalizar o consumo recreativo da cannabis.

Conforme o relatório, os dois países somam cerca de 300 empresas envolvidas com o setor da cannabis listadas em bolsa.

Por que isso é importante: O primeiro fundo do Brasil a investir em canabidiol, com 100% dos investimentos no exterior, foi voltado para investidores qualificados por questões regulatórias. Conforme George Wachsmann, chefe de gestão da Vitreo, o Vitreo Canabidiol é o puro “uísque caubói”. Mas, depois de pedidos, a casa lançou o Canabidiol Light FIC FIM, em novembro de 2019, a versão “on the rocks” do primogênito.

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Em maio deste ano, a Vitreo montou o Canabidiol Ativo, uma versão do Light com mais risco: em vez de 80% em CDI, o ativo traz 80% em swap de ETFs de cannabis nos Estados Unidos e Canadá; o restante, é baseado em ações do setor, também dos dois países.

“Ele é um fundo de risco. São ações baseadas em uma única tese. Não é um fundo fácil de ser feito, dá trabalho, há ainda as restrições locais de regulações das empresas em que investimos”, diz o gestor à Bloomberg Línea.

“Mas a aposta é de que o mundo vai vencer a questão do tabu social, cultural, regulatório e político que ainda existe em relação ao uso da cannabis. E mesmo assim, todos os riscos e tabus trazem uma oportunidade de ganho extraordinário.”

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Além do da Vitreo, há ainda um fundo da XP baseado em ativos da indústria da cannabis, o Trend Cannabis FIM, de gestão passiva e com aplicação mínima de R$ 100,00. O fundo acompanha o ETFMG Alternative Harvest, um ETF listado nos EUA e considerado o maior e mais líquido ligado ao setor de cannabis. O ETF é composto por ativos relacionados direta ou indiretamente com o processo de cultivo legal, produção, marketing ou distribuição de produtos de cannabis para fins tanto medicinais quanto não medicinais, além de empresas farmacêuticas que produzam, comercializem ou distribuam remédios que usem derivados do canabidiol, os canabinoides.

Contexto: Hoje em dia, já existem empresas dos mais diversos setores que utilizam a cannabis como matéria-prima, desde para compor alimentos e cosméticos, até para os próprios remédios com base em canabidiol e na composição de tecidos em indústrias têxteis.

“Se não houvesse essa linha que costura tudo isso, a matéria-prima em comum, poderíamos dizer até que são vários setores diferentes”, disse Wachsmann.

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Felipe Arrais, especialista em investimentos globais da consultoria Spiti, explica que o mercado de cannabis acelerou muito nos últimos anos, com mudanças frequentes nas regulamentações.

“O conservadorismo tem ficado mais de lado, a visão negativa e pesada tem ficado para trás. Os investidores têm deixado ate princípios de lado pra apostar nisso. A ciência e a pesquisa estão avançando com tratamentos medicinais”, disse o analista à Bloomberg Línea.

“O Morgan Stanley há alguns anos atrás realizou uma pesquisa entre investidores de alta renda perguntando se entrariam nesse mercado, e a resposta foi que 65% não queriam. Hoje em dia, há uma mudança nesse padrão. Os investidores querem aproveitar e têm medo de ficar de fora.”

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Arrais diz que as perspectivas para uma maturidade do mercado de cannabis no Brasil ainda são distantes. “A Anvisa já autorizou alguns testes, já se consegue autorização para uso do óleo de cannabidiol e alguns outros derivados. Mas a perspectiva de legalização aqui, ter mercado com lojas que vendam para o consumidor como qualquer outro produto, ainda está distante.”

Tenho esperança de que o exemplo do exterior gere avanços aqui, ao observarmos o quanto de impostos se arrecada lá com o mercado de cannabis, que tem espaço pra taxar desde a produção até a venda final. É um novo mercado, uma chance de cobrar impostos de algo que antes não existia, em vez de aumentar as taxas que já são cobradas, além de enfraquecer o crime organizado.

—  Felipe Arrais


O que considerar: O especialista da Spiti considera que o investimento no mercado de cannabis deve ser um percentual de uma entrada maior em ativos internacionais pré-existentes.

“Dentro de uma fatia de investimento internacional e em ações, além da renda fixa, commodities, imóveis, cabe sim um pedacinho de entre 5% a 10% da carteira de ações globais, dependendo do perfil pra risco e da identificação com a tese da cannabis. É um mercado que tem volatilidade alta. A movimentação diária pode ter mais de 3% em dólar, e ainda tem a movimentação do câmbio.”

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Para os mais identificados, é possível “se dar ao luxo” de chegar aos 10%, sugere o analista. Um investidor muito conservador, que não aceita tanto a volatilidade, deve ter exposição cautelosa, ele explica.

Quanto aos prazos, Arrais defende que qualquer investimento em ações no geral deve considerar um prazo longo, acima de cinco anos.

“Podemos demorar muito tempo pra ver uma tese se materializar. Isso se acentua quando olhamos para uma tese focal como a da cannabis, que depende de mudança regulatória, mudança de hábitos, de uma redução de conservadorismo, e envolve ainda legislação. É uma tese que pode demorar muitos anos para atingir maturidade.”

Se você fechar os olhos e daqui a cinco anos olhar a fotografia desse mercado, tenho certeza de que vamos encontrar algo muito maior do que temos hoje, mas o meio do caminho vai ser acidentado. Tenho maior previsibilidade para dizer sobre o mercado de cannabis daqui a cinco anos do que tentar adivinhar como vai estar até o fim deste ano.

—  Felipe Arrais



Kariny Leal

Kariny Leal

Jornalista carioca, formada pela UFRJ, especializada em cobertura econômica e em tempo real, com passagens pela Bloomberg News e Forbes Brasil. Kariny cobre o mercado financeiro e a economia brasileira para a Bloomberg Línea.

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