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Brasil suspende exportação de carne para China após confirmar 2 casos de ‘vaca louca’; expectativa é de casos atípicos

Resultado das contraprovas feitas no Canadá chegou a Brasília ontem à noite. Auto-embargo é medida de boa fé em protocolo assinado entre os dois países. Em 2019, caso similar provocou embargo de 13 dias

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O Ministério da Agricultura anunciou neste sábado (4) a confirmação de dois casos de BSE, a doença da “vaca louca”, que estavam sendo investigados. A expectativa é que sejam reconhecidos como casos atípicos, isto é, diferente de um surto – esta tem sido a abordagem do governo brasileiro. O país é o maior exportador de carne bovina do mundo (23% dos embarques globais).

O resultado das contraprovas analisadas por um laboratório canadense chegou a Brasília na noite de ontem e já fez a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tomar medidas de prevenção. A doença é conhecida como BSE por causa do seu nome em inglês (bovine spongiform encephalopathy, encefalopatia espongiforme bovina).

O Ministério da Agricultura também informou ao governo chinês e aos frigoríficos brasileiros que a partir de hoje estão suspensas as exportações de carne bovina brasileira para a China. O auto-embargo faz parte do protocolo de quarentena assinado entre os dois países e é considerado um sinal de boa fé para se evitar danos maiores.

Aqui está o documento:

Junto com a comunicação para a China, maior comprador, o governo brasileiro também deve fazer uma comunicação à OIE (Organização Internacional de Epizootias), que a partir do recebimento da informação tem 48 horas para emitir um posicionamento. O Brasil é considerado país de “risco insignificante” para a modalidade clássica da doença pelo organismo internacional.

Os sintomas da doença foram observados em duas vacas de idade avançada – uma em Belo Horizonte (MG) e outra em Nova Canaã (MT) – município que já havia identificado um caso atípico em 2019.

Como se tratam de animais velhos e não há indicativos de que a transmissão tenha se dado por ração de origem animal (que é proibida no Brasil), há expectativa de classificação dos casos como “atípicos”, o que é diferente de um surto – como os vividos pelo Reino Unidos nos anos 1980 e 1990. A diferença agora, em relação a episódios anteriores, é que se tratam de dois animais, não apenas um.

Em 2019, quando um outro caso de BSE atípico foi identificado em Mato Grosso, em uma vaca no município de Nova Canaã, o embargo chinês durou 13 dias. A China é o maior cliente dos frigoríficos brasileiros.

A ministra Tereza Cristina já informou as autoridades chinesas sobre a confirmação dos casos e fará a formalização por meio carta ainda hoje. Com isso, os chineses vão avaliar todos os documentos e, só depois, liberar novamente as exportações brasileiras.

As suspeitas da existência de um caso já haviam provocado queda nos preços dos futuros do boi gordo ao longo da semana.

O impacto no mercado

Desde quarta-feira, quando surgiram as primeiras informações sobre os casos, o mercado já reagiu. Grande parte dos frigoríficos no Brasil suspendeu compras à espera de mais informações.

O primeiro impacto, segundo dois especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea antes do Ministério da Agricultura divulgar o comunicado, será a suspensão dos embarques para o exterior, o que tende a provocar forte aumento de oferta doméstica – preços da carne têm sido um vetor da inflação no país desde o início do ano.

O mercado já precificava o caso de Minas Gerais, antes mesmo da sua confirmação: futuros do foi gordo caíam 4% na sexta, ações da Minerva Foods (BEEF4), uma das gigantes dos frigoríficos locais, fecharam o último pregão com queda de 1,64% (R$ 7,79). A JBS (JBSS3), maior processador de proteína animal do mundo e que tem receitas diversificadas globalmente, experimentou alta de 2,88% (R$ 31,10) na sexta.


Alexandre Inacio

Alexandre Inacio

Jornalista brasileiro, com mais de 20 anos de carreira. Com passagens pela Gazeta Mercantil, Broadcast e Valor Econômico, também atuou como chefe de comunicação de multinacionais, órgãos públicos e como consultor de inteligência de mercado de commodities.

Graciliano Rocha

Graciliano Rocha

Editor da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela UFMS. Foi correspondente internacional (2012-2015), cobriu Operação Lava Jato e foi um dos vencedores do Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2018. É autor do livro "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" (Planeta), que figurou nas principais listas de best-sellers em 2019.