Mercado ganha impulso e investidores assumem mais riscos
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Bloomberg Opinion — Quando comecei a trabalhar diretamente com mercado financeiro em 1998, depois de 15 anos no Fundo Monetário Internacional, lembro-me de ficar especialmente estarrecido com a convicção que meus novos colegas tinham ao repetir dois mantras com frequência: “Não bata de frente com o Fed” e “a tendência é amiga”.

Essa profunda convicção não apenas informava suas visões, como também influenciava o trading e a posição de longo prazo da carteira. E essa convicção não diminuiu de forma alguma desde então. Sem dúvidas, são pensamentos muito presentes no momento e que geraram três outros mantras que participantes do mercado repetem tanto quanto os outros dois.

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Os investidores foram amplamente recompensados por aderir aos dois mantras duradouros. As ações, conforme o índice S&P 500, registraram 48 máximas somente neste ano, pois o Federal Reserve permaneceu extremamente favorável aos preços dos ativos. O banco central manteve medidas de emergência – incluindo US$ 120 bilhões em preços de ativos mensais – apesar do recuo do pior dos efeitos econômicos e financeiros relacionados à Covid e os crescentes temores sobre a excessiva tomada de riscos financeiros.

O poder desse condicionamento de mercado não é novo. Com exceção de alguns picos, incluindo em março do ano passado, o mercado ficou condicionado e ganhou cada vez mais impulso desde a crise financeira global. As ações em geral tiveram um desempenho extremamente bom durante esse período, o que não é surpresa.

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A contínua e forte repressão do Fed sobre os rendimentos dos títulos, tanto direta quanto indiretamente, fez mais do que levar os investidores a assumirem mais riscos em outros lugares em busca de retornos mais elevados. Também incentivou os outros três mantras mencionados: TINA (“não há alternativa” para ativos de risco); FOMO (“medo de perder”); e “compre na baixa” dos mercados independentemente da causa da queda.

A força desse fenômeno combinado ficou em evidência na semana passada. O S&P registrou quatro recordes, apesar dos ventos desfavoráveis em seus três temas macroeconômicos de apoio: crescimento alto e durável; inflação transitória; e um Fed que continuará a surpreender com atitudes menos agressivas.

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A atividade econômica global está enfrentando novos desafios relacionados ao Covid, pois a cepa delta aumenta as infecções e hospitalizações em mais países. O risco para a demanda foi destacado na sexta-feira pela queda acentuada no sentimento do consumidor dos EUA, conforme relatado pela Universidade de Michigan. Isso aconteceu antes da remoção programada da próxima parcela dos benefícios adicionais que ajudaram a aumentar a renda e a poupança das famílias.

Há também um risco à oferta com relação ao Covid, à medida que mais cadeias de suprimentos globais são interrompidas junto com o transporte. Essas interrupções aumentam as preocupações com a inflação no pipeline, problema destacado pelos números do índice de preços ao produtor consideravelmente mais altos que o esperado, publicados na quinta-feira. Esse aumento amortece o alívio do relatório do índice de preços ao consumidor do dia anterior, que mostrou que a inflação não acelerou a partir dos níveis já elevados.

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Além desses ventos desfavoráveis ao crescimento e à inflação, mais autoridades do Fed sinalizaram na semana passada sua maior inclinação para iniciar uma redução mais precoce das compras mensais de ativos. A decisão arrisca deixar as vozes mais importantes no Fed – Powell, o vice-presidente Richard Clarida e o presidente do Fed de Nova York, John Williams – mais isoladas, enfatizando os desafios que a unidade do FOMC enfrenta.

Mesmo assim, nenhum desses desafios impediu os quatro recordes do S&P na semana passada, algo que não surpreende a maioria dos cientistas comportamentais.

Considerando o profundo condicionamento dos mercados e seu reforço positivo por recompensas financeiras, seria necessário um grande choque para a psicologia do mercado – como um erro de política grave, um grande acidente no mercado ou uma combinação de ambos – para acabar com a mentalidade dos investidores, que até agora serviu incrivelmente bem para eles. É uma mentalidade imune a muitas más notícias. Sem dúvidas, é um pensamento que permite a transformação imediata de más notícias em boas notícias – por exemplo, quanto mais ventos desfavoráveis à economia, maior a probabilidade de outra rodada de medidas de estímulo do Fed. Não é à toa que os céticos, principalmente no setor de fundos de hedge, tenham perdido a vontade de desafiar os mercados em ascensão.

Os investidores não estão sozinhos ao adotar uma abordagem unilateral. Oficialmente, o Fed parece continuar pensando muito pouco sobre as distribuições bilaterais de possíveis resultados e a necessidade relacionada de considerar um seguro para ambos os lados dessa distribuição.

Analisando os acontecimentos recentes e as perspectivas, muitos economistas tendem a alertar sobre a ampla gama de resultados possíveis. Não é o caso dos investidores. Estes, ancorados pelos seus lemas, estão fortemente inclinados a se esticar ainda mais para obter rendimentos elevados, continuando a posicionar suas carteiras para registrarem muito mais de 48 recordes em 2021.

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