Brasil e Índia podem passar por onda de violência análoga à da África do Sul, ocorrida em julho de 2021
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Bloomberg Opinion — Há décadas, um executivo do Goldman Sachs cunhou o termo BRICs para descrever quatro grandes países emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China. O rápido crescimento e a expansão dos níveis de riqueza nesses países justificavam a fé dos investidores. Os líderes passaram a realizar reuniões anuais e estabeleceram até seu próprio banco de desenvolvimento. O bloco convidou a África do Sul em 2011, convenientemente completando o acrônimo.

Mas o orgulho dos ocidentais que impulsionavam a globalização ficou obsoleto muito antes de a pandemia alterar drasticamente as realidades globais no ano passado. A China, por exemplo, há muito tempo deixou o status de “emergente”. Com sua economia isolacionista e dependente de hidrocarbonetos, a Rússia nunca pertenceu de fato ao grupo.

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Atualmente, a celebração desatenta do crescimento rápido e da criação de riqueza parece ser de uma época ingênua e irrefletida. Enquanto isso, aumentam as evidências de que a desigualdade pós-pandemia será letal para a ordem social cotidiana e para a democracia nas economias emergentes.

Isso ficou extremamente claro no mês passado, quando a África do Sul, segundo alguns indicadores o país mais desigual do mundo, caiu em sua pior onda de violência desde o fim do apartheid.

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Saqueadores, vândalos e incendiários devastaram o país, destruindo shoppings e armazéns industriais e queimando caminhões. Centenas de pessoas morreram. As perdas imobiliárias e comerciais totalizam centenas de milhões de dólares, e a recuperação levará anos.

O gatilho imediato das revoltas foi a condenação do ex-presidente Jacob Zuma a 15 meses de prisão por se recusar a cooperar com um inquérito sobre corrupção durante seus nove anos no cargo. A pandemia que matou mais de 70 mil sul-africanos e levou muitos mais à miséria desempenhou seu papel. Mas a raiva vinha crescendo há muito tempo no país, no qual o desemprego atinge níveis recordes (33%) e muitas pessoas não têm comida, energia elétrica e água encanada, além de empregos.

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Esses mesmos fatores terão papel central quando – não “se” – colapsos extensos semelhantes ocorrerem na Índia e no Brasil.

Os ingredientes necessários – divisões sociais extremas de raça, religião, classe e casta, ampliação das lacunas entre cidade e campo e uma classe dominante maligna, incompetente, senão corrupta – estão presentes há muitos anos em ambos os países. Eles só se tornaram mais tóxicos nos últimos meses.

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A desigualdade ficou mais concentrada na Índia, lar de dois dos três magnatas mais ricos da Ásia – Mukesh Ambani (cuja riqueza é atualmente estimada em US$ 78 bilhões) e Gautam Adani (US$ 53 bilhões). Enquanto isso, provavelmente na maior implosão da classe média, o coração de qualquer economia de consumo moderna, mais de 200 milhões de indianos voltaram a ganhar menos de US$ 5 por dia.

A Índia já representava quase um terço da população desnutrida do mundo. Ajudando os ricos com reduções de impostos para empresas, o governo nacionalista hindu da Índia atualmente é responsável por um aumento da fome, mesmo em áreas urbanas e entre indianos de classe média.

No Brasil, onde meio milhão de pessoas perderam suas vidas na pandemia, os ricos aumentaram sua participação na riqueza nacional em 2,7% no ano passado – eles agora possuem quase a metade dessa riqueza. Ao mesmo tempo, os 40% mais pobres no Brasil perderam um quinto de sua renda, enquanto a renda per capita média caiu para o nível mais baixo em uma década.

Assim como na Índia, a miséria generalizada foi acompanhada por um ataque às instituições democráticas. Aprofundando o pesadelo do Covid de seu país com sua negação do vírus e sua luta contra a vacina, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, prejudicou a governança com diversos decretos arbitrários. Em março, ele demitiu seu ministro da Defesa, claramente por resistir aos esforços do presidente em fazer com que os militares o apoiassem politicamente.

Desde o Brexit e a eleição de Donald Trump em 2016, boa parte da atenção se voltou para as consequências políticas desastrosas da desigualdade desenfreada nas economias mais avançadas do mundo: polarização permanente e rancorosa, colapso da confiança nas instituições democráticas, o surgimento de teorias da conspiração e fortalecimento da demagogia.

Esse processo de desintegração social e política sempre esteve muito avançado nas economias emergentes, embora fosse pouco percebido. Além disso, parece não haver solução. A pandemia também acelerou o processo. A África do Sul ofereceu um vislumbre do que pode estar por vir para as outrora estrelas da globalização.

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